Lamont “U-God” Hawkins // Raw – My Journey Into The Wu-Tang

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Há um momento nas páginas de Raw – My Journey Into The Wu-Tang, livro de memórias lançado recentemente pela britânica Faber & Faber, em que o autor, Lamont Hawkins, U-God no universo hip hop, descreve como perdeu um concerto de KRS-One em Union Square depois de ter conseguido marcar presença em todas as outras históricas noites naquele que era o epicentro do terramoto hip hop que varria Nova Iorque no final dos anos 80: o rapper conta como avançava com os seus amigos sobre Manhattan, vindos de Staten Island, num grupo alargado que poderia ter até 100 pessoas, “grifados” com as roupas mais recentes dos designers mais cobiçados, carregados de correntes de ouro, prontos para tudo, como um enxame de abelhas em busca do conforto da colmeia. E nessas palavras de U-God adivinha-se, afinal, a irresistível profundidade de Raw: trata-se de um livro de memórias vívidas, assinado por alguém que esteve bem no centro da acção e que possui a capacidade de traduzir numa escrita plenamente visual episódios que estão hoje inscritos num certo folclore oral de que também se faz a história do hip hop. Já alguém certamente comprou os direitos do livro, porque há aqui dentro um filme à espera de acontecer.

“Time is a motherfucker”. Esta é a poderosa primeira frase de Raw. “It wears things down. Breaks things. Crushes things. Kills things. Reveals truth. There’s nothing greater than Father Time”, escreve ainda Hawkins deixando claro, mesmo após um tão breve parágrafo de abertura, ao que vem e do que trata este primeiro livro de memórias com origem no núcleo duro dos Wu-Tang Clan, o mítico grupo de Staten Island cujo álbum de estreia, Enter The Wu-Tang (36 Chambers), está prestes a completar um quarto de século de existência. Tempo, portanto, como defende U-God, para este regresso.

Percebe-se que Raw é produto de um qualquer tipo de terapia, do processo de resolução de um passado obviamente complicado. Das páginas deste intenso e doloroso livro — doloroso certamente para o seu autor, mas igualmente exigente para quem o lê — nasce uma nítida imagem de uma certa América condenada a uma espécie particular de inferno. No bairro social de Park Hill, em Staten Island, onde Lamont nasceu, fruto de uma violação, e cresceu entre crimes, drogas e o que soa a total destituição de todas as coisas que, à incrível distância a que nos encontramos do lado de cá do oceano Atlântico imersos noutra realidade e cultura, julgamos serem as necessárias para se poder viver senão no caminho da felicidade pelo menos no de um conforto compatível com as noções de harmonia social: boas escolas, Estado atento, sistemas de apoio à saúde, possibilidade, ainda que remota, de progressão profissional e social, etc.. “Quando o crack chegou ao bairro”, escreve Lamont, “aquela selva tornou-se numa zona de guerra”.

“Condenado” a ser mais um operário na feroz “indústria” da venda de droga, Lamont Hawkins teve que enfrentar a dor de ver o seu filho ser atingido a tiro por um “dealer” quando contava apenas dois anos de idade. Se as suas linhas carregam algum fel, é impossível não ligar tal facto a uma vida de clara violência a que o hip hop, pelo menos temporária ou ilusoriamente, prometeu em dado momento uma ideia de salvação. Quando o histórico primeiro álbum dos Wu-Tang foi gravado, U-God não pôde ter contribuído como desejaria, já que se encontrava preso. Tirando o verso de abertura em “Da Mystery of Chessboxin'” e um contributo menor para “Wu-Tang: 7th Chamber” (no skit de introdução) e a participação na bridge de “Protect Ya Neck”, o rapper não fez muito mais. Mas foram as suas capacidades de gerar dinheiro como dealer que permitiram a Method Man concentrar-se na escrita com os resultados que hoje todos bem conhecemos.

U-God começa por apresentar os companheiros: RZA, o “cérebro”, GZA, o “génio”, Method Man e Ol’ Dirty Bastard, os “performers”,  Inspectah Deck, o “artista”, Ghostface Killah, o “contador de histórias”, Masta Killa, o “natural”, Raekwon, o “hustler”, e ele mesmo, o “embaixador”: “I was just a straight hardcore thug with the brain capacity to do a lot of shit, make things happen on my own, and hustle those bombs to get my bread”. Não dá para ser mais real e explícito do que isto.

Quando tinha apenas 4 ou 5 anos, o pequeno Lamont testemunhou a sua primeira morte no bairro, quando uma mulher se atirou do topo de um prédio, com “Lovin’ You” de Minnie Ripperton a tocar em fundo, no rádio de um dos transeuntes que se acercou da multidão que ladeava bombeiros e polícia. E logo aí se oferece uma chave para se entender como a soul mais inocente e cristalina, como “As Long As I’ve Got You” dos Charmels, por exemplo, se pode afinal de contas tornar a base para um clássico como “C.R.E.A.M.”, um relato das dinâmicas necessárias para se sobreviver nas ruas, meter pão na mesa, e lidar com as circunstâncias específicas do negócio da venda de drogas… A soul clássica, música erguida por gente que procurava uma superação espiritual numa era de combate pela afirmação das minorias, como matéria prima para uma muito mais negra e sombria perspectiva da realidade, quando o crack inundou as ruas das “inner cities” na América de Reagan.

Lamont Hawkins sente-se injustiçado pelos companheiros, especialmente por RZA. Por isso lhes lançou um processo em tribunal. Nas vibrantes páginas de Raw, e fazendo jus ao título, U-God acusa o companheiro de ser um ditador, um tarado por controlo, mas, ao mesmo tempo, um péssimo gestor que nunca foi capaz de colocar os Wu — “os Rolling Stones do hip hop”, como o autor os classifica — numa agência séria comprometendo dessa forma o que deveria ter sido uma tranquila progressão de carreira e que na verdade se traduziu apenas num acidentado e quase anedótico percurso, com direito a discos vendidos por dois milhões a um magnate de reputação duvidosa, Martin Shkreli, que acabou preso pelo FBI em Dezembro de 2015.

“O nosso percurso foi duro, sem dúvida”, concede, mesmo no final, U-God. “Perdemos o nosso irmão Dirty no caminho, mas os restantes ainda estão por cá, vivos e a trabalhar”. “Sim”, conclui, “nem sempre nos damos bem, mas o que é que as famílias fazem?” Bem, as famílias ainda se está para ver, mas alguns dos seus membros podem sempre escrever livros. Tocantes, chocantes, reais e crus como este Raw, uma viagem sem filtros à história de um grupo que marcou a História de uma cultura e que é, também, uma viagem à História Contemporânea de uma outra América, menos iluminada, menos glamourosa, mas ainda assim plenamente real.

Fundamental, pois claro.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu