Kyle Bent quer “ganhar o máximo de atenção no menor período de tempo possível”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Kyle Bent lançou a remistura de “Motorsport” há precisamente uma semana. Contudo, não lançou nos contornos normais: tal como as remisturas de “Finesse” ou “Gucci Gang”, o artista criou vídeos diferentes daquilo a que estamos habituados, uma aguçada técnica de marketing que lhe deverá trazer proveitos a curto prazo. Numa era em que os artistas internacionais estão à distância de uma série de cliques, o Rimas e Batidas entrou em contacto com o rapper de Randolph, Massachusetts, que nos explicou o motivo desta sua nova fornada de videoclipes.

 



Se a era digital veio interferir com os moldes tradicionais da industria fonográfica, também podemos hoje afirmar que serviu para abrir um conjunto de novas oprtunidades aos músicos emergentes. São dezenas de plataformas online agora à disposição daqueles que dão os primeiros passos no mundo da música — cada uma com o seu tipo de público e mediatismo; cada uma com o seu grau de dificuldade rumo à afirmação em pleno.

O YouTube tem-se vindo a mostrar como a mais preponderante dessas ferramentas de divulgação. É-nos quase impossível escapar à sugestão algorítmica de uma faixa/vídeo que soma já largos milhões de rotações. E quase todos os artistas querem chegar a esse patamar — ser viral é meio caminho andado até ao sucesso financeiro de um projecto musical. São muitos surfistas atrás da mesma onda — dando aqui uma pequena volta numa letra de Allen Halloween — e vale por isso, cada vez mais, a originalidade dos conteúdos que se escolhem para apresentar, naquele que é uma espécie de maior “canal” de todos os tempos.

A proposta visual de Kyle Bent tem como base um conceito simples, que causa até algum espanto por não ter sido já imaginada por artistas com outro tipo de possibilidad€s. Com recurso a um orçamento de baixo custo, o rapper levou “Finesse”, “Gucci Gang” e “Motorsport” até às lojas das marcas que mais sentido fazem para pano de fundo dos respectivos vídeos. Sem aviso prévio, Kyle e a sua crew invadem os estabelecimentos para a rodagem dos clipes, todos eles feitos num só take, adornados posteriormente com alguns efeitos visuais interessantes. Numa troca de palavras com o Rimas e Batidas, o rapper revelou o motivo que o levou a criar esta série de lançamentos: “Essas ideias surgiram depois de pensar numa forma para ganhar o máximo de atenção no menor período de tempo possível, de uma forma simples e com um custo eficiente, mantendo-me fiel à minha integridade.”

Embora o principal trunfo do rapper esteja naquilo que os nossos olhos podem ver — até porque é essa a “jogada” que lhe permite atribuir os títulos chamativos aos seus vídeos —, a música não deve ser posta de lado e Kyle Bent mostra-se bastante competente na prestação das versões renovadas de “Finesse”, “Gucci Gang” e “Motorsport”. Evitando a “via rápida” das tendências pop e trap, Kyle relembra-nos afinal de contas porque também nos apaixonámos pelo lado poético do rap.

 



I’m global, from coast to coast they hold me close
I’m a mogul, my gross is gross, my growth don’t slow
My bifocals see through your soul, treat you like ghost
Giving soul food to all the folks who need the hope

“Eu comecei a rimar por volta dos 10 anos” explicou Kyle ao Rimas e Batidas, agora com o dobro da idade. Também a “certeza” de que queria ser MC chegou cedo, quando iniciou os primeiros projectos musicais em 2010. “Eu comecei porque queria enviar uma mensagem centrada na consciencialização e no positivismo. Essa ainda é a minha principal razão para fazer rap”. Dois anos depois viria a editar as primeiras mixtapes — Bent Rules e The Catalyst. Complex Simplicity e Dreams of a God foram os projectos mais recentes que assinou, agora já sob a alçada da Made in the Shade Records. Os dois trabalhos que lançou em 2016 abriram-lhe as portas para vários concertos nos Estados Unidos da América, nos quais partilhou o palco com Hopsin, Joyner Lucas ou Machine Gun Kelly.

As três remisturas que disponibilizou recentemente no seu YouTube demonstram a fome de público em prol de um maior alcance da sua obra. “Escolhi essas faixas porque são bastante chamativas para o mainstream, que é o meu alvo neste momento”. Na calha está um álbum que será concebido num molde original e bastante satisfatório para os ouvintes que acompanham os passos de Kyle. Através da plataforma Patreon, o rapper compromete-se a enviar demos ao público que o vai ajudar no financiamento desse disco, havendo também a possibilidade de se ser seleccionado para assistir a algum desse trabalho ao vivo — caso estejam a um oceano de distância, por exemplo, o Skype é uma alternativa viável para acompanhar todo esse processo.

“Os meus fãs podem esperar uma experiência completamente fora do normal para este álbum”, explicou ao Rimas e Batidas. “Uma daquelas que os vai levar a ter a sua própria perspectiva e a sentirem-se como parte de um quadro muito maior. Vai ser um álbum importante. Estou comprometido.”

Neste momento, Kyle Bent está na Costa Rica para repor as energias e buscar alguma inspiração adicional para o disco. O projecto para The Moment Is Forever foi apresentado em vídeo no passado mês de Fevereiro.

 


https://youtu.be/bD8fL-dhTdQ

kyle bent

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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