Kroniko: “O hip hop não estava como está agora em Portugal”

[ENTREVISTA] Alexandra Oliveira Matos [VÍDEO] Luís Almeida [FOTOS] Hélder White

É o segundo álbum com a assinatura Kroniko na carreira do rapper do Lumiar. A sonoridade é fresca, mas a verdade é que há mais de uma década que traduz em rimas os sentimentos que lhe marcam os passos.

“Pensava que talvez fosse melhor tomar outro rumo”, desabafou Kroniko até ainda antes de começarmos a entrevista no Lost Lisbon no Cais do Sodré. Agora, já depois do regresso com Retrxpectiva, o artista, que se vê como um “Trex”, quer continuar a fazer mais rap e acredita que com este álbum o alcance vai ser mais pronunciado: “vamos chegar mais longe, tenho a certeza que sim e se disserem que não é porque não ouviram”. Aproveita ainda para deixar um recado e uma mágoa que partilha de palavras de SP Deville, também da sua FamilliBizno – em Portugal “não ouvem a letra”, ouvem a música “se tiver um beat bacano”.

Estigma é composto por 10 faixas, inclui participações que vão de Kosmo da Gun a Kaps, passando por Mike El Nite, Phoenix RDC, Duplex e o desconhecido Namara. Nos beats, Prodlem já é companhia habitual de Kroniko, mas existem caixas de ritmos de outros produtores no álbum. Na entrevista, o álbum esmiuçado pela lupa do próprio autor.

 


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Estigma é o título do novo álbum. O estigma, o preconceito, é algo que marca a tua carreira? Porquê este título?

Nem é a cena do preconceito. É a cena do estigma ser aquela cicatriz, aquela marca. O que marca a minha vida é o rap, é o hip hop e como tal não podia ter arranjado melhor nome para dar ao álbum. É aquela cicatriz que um gajo tem.

O que trazes de novo com este álbum?

Trago sonoridades frescas, novas. Trago cenas doidas, cenas calmas, música para todas as idades.

De que é que fala?

Tal como o nome do disco, a marca, eu falo de cenas que me marcam e que marcaram o meu trajecto. O Retrxpectiva foi um cartão de chegada em que o people podia ver de onde é que eu estava a vir e quem eu era. No Estigma já podes ver as minhas aventuras de lá para cá, do passado até hoje.

A certa altura pensaste em desistir do rap e estes dois álbuns marcam de alguma forma o teu regresso. São desse tempo as cicatrizes?

Isso foram outras alturas. O hip hop não estava como está agora em Portugal. Era impensável nessa altura ouvires hip hop a passar numa telenovela, por exemplo. Portanto, houve muitas coisas para que olhava e pensava que talvez fosse melhor tomar outro rumo. Mas é o peso que está cá dentro, é o amor, é o que um gajo gosta de fazer. Mesmo que amanhã, mesmo que daqui a 10 anos, mesmo que daqui a 5 anos, que é o que vai acontecer, isto deixar de bater… nós vamos cá continuar.

A primeira faixa do álbum é “Selva”, lançada já em Janeiro.

A faixa “Selva” é aquele roots, é gravado no sítio onde eu cresci que foi o Lumiar. É gravado no sítio onde eu vi tudo aquilo que eu digo naquele som, aqueles altos e baixos dentro de um bairro social. E retrata muito a passagem do back in the days para os dias de hoje, aquela vontade que eu tinha de deixar de fazer para a vontade que eu tenho de estar a fazer. Acho que o “Selva” é mesmo aquele cartão, aquele bilhete que eu queria apresentar no Estigma, a passagem do Retrxpectiva para aqui. Em termos de som, de musicalidade é aquele que liga mais ao Retrxpectiva. O resto já são outros voos.

E por isso “Selva” é o primeiro som do álbum… Depois “Life”.

Sim. “Life” é o virar e quem tem seguido a cena vai perceber que é o virar da página.

“Dias Cinzentos”, com a Cat Boto.

A Catarina tem a voz que tem. Foi um som que foi pensado e que foi gravado e para que já tinha pensado em duas ou três pessoas para completar o refrão. Mas no meio dessas duas ou três pessoas a que me soou mais e que era o que eu queria, aquilo que eu estava à procura é a Catarina. Porque eu estava à procura de uma pessoa que chorasse, que ouvisse o beat e conseguisse chorar. Tens que ouvir o som e sentir a dor, sentir a minha dor. Se estivermos a gravar um som temos de sentir o mesmo amor, a mesma cena. Por acaso ela caiu no estúdio, ouviu o som, sentiu a cena e eu disse “é mesmo isso”. O “Dias Cinzentos” fala mesmo dos dias em que eu pensei em desistir disto, fala de pessoas importantes que eu perdi na minha vida. São “Dias Cinzentos” e um dia o sol vai brilhar com o que fazemos por amor à camisola.

A quarta música traz mais uma participação, o Kaps. A produção é de Beatoven. O que há a dizer sobre essa música?

“BadBad”, costumo dizer, é um solteiro num registo mais street. O Kaps é um puto da nova escola que tem um skill que quando as pessoas se aperceberem do diamante que está ali, é um puto que vai dar que falar nos dias que estamos a viver, certamente. Se fosse há uns anos atrás, se calhar era mais um a passar ao lado. Já estava concluído e foi mesmo aquele som a que tive de dar mais umas voltas, foi mesmo a última aquisição. Tenho mesmo orgulho de ter o Kaps ali.

“Tudo na vida”, com o Duplex.

Já vi de tudo na vida. E a cena do “Tudo na vida” é isso mesmo, o que já vi, o que tenho visto, os altos e baixos, o tal estigma. O Duplex é uma pessoa que conheço desde os meus 15, 16 anos. Era aquele meu amigo que eu encontrava na esquina do bairro de manhã e com quem ficava a dar freestyle até às 3 ou 4 da tarde, mas que era impossível arrastá-lo para dentro de um estúdio. Entretanto eu também segui a minha vida, ele seguiu a dele, ambos somos pais e as vidas voltaram a cruzar-se. Voltei a estar com ele e disse-lhe mesmo “agora vamos aproveitar e vou carregar-te para dentro do estúdio”. É outro mesmo em quem tenho imenso orgulho.

O “Trex” é outro dos quatro singles lançados.

Um gajo de 34 anos já se sente um bocado dinossauro. Vês rappers com 18 anos a dizer que já estão no hip hop há imenso tempo. Mano, calma! Um gajo tem respeito, mas sou dinossauro mesmo. “Selva”, lá está, é sempre um virar de página, um dinossauro que veio da “Selva”.

E seres dinossauro traz-te mais responsabilidade?

Traz-me responsabilidade porque, lá está, sou um dinossauro, sou pai, sou chefe de família, escrevo rap consciente. Posso dizer que os meus bangers que possam bater numa disco ou que passem numa festa têm uma mensagem consciente. Não há a cena da ficção científica.

“1000 graus” com Mike El Nite.

Holly no beat. Como diz o Maskarilha, “óleo no beat”. E o Mike El Nite é uma pessoa de quem já conhecia o trabalho. Não o conheço pessoalmente há muito tempo, mas conhecemo-nos e tivemos uma ligação. Eu curto conviver com o people. Não é só “dás-lhe bem, está fixe, vamos para o estúdio”. Eu curto conhecer, para seja o que for, seja para gravar videoclips, seja para gravar sons. E o Nite foi aquela pessoa de quem eu curti e disse-lhe “vamos gravar um som, fazer uma coisa diferente”. Dentro do álbum, o “1000 graus” é mesmo um som que em termos de sonoridade está diferente. Foram três cabeças ali. Quando eu agarrei nesse beat o Holly disse “a sério, puto, que vais cantar nesse som?”. Sim e partimos isso ao meio, está aí o produto final.

 



“Big Ben”.

Produção do meu mano Beatoven, feat. o meu mano Namara. É o vídeo que acompanha o lançamento do álbum e é um banger.

“Barulho” traz o Kosmo da Gun.

O Kosmo é uma pessoa que respeito e admiro muito tanto como artista, como como pessoa. Eu filmei, tive a cena dos vídeos da LXCartel e houve ligações que criei nessa altura, com muita gente. O Kosmo foi aquela pessoa que ficou, é um amigo e é aquela participação forte no álbum. Não podia ter ido buscar mais ninguém e o nome da faixa diz tudo. “Barulho” porque há muita música, há muito hip hop, há muito rap, mas há muito barulho. Não estamos aqui para agradar ninguém. O hip hop veio dali da rua e o barulho é aquela mensagem.

Fechas o álbum com “Vai Buscar” com o Phoenix RDC.

É um gajo que eu admiro. Muitos conhecem o Phoenix de hoje em dia, eu conheço o Phoenix desde o tempo de Junior Mafia. Um gajo old school no rap game, é um padrinho e é um gajo que vem marcar um certo peso dentro do álbum porque aquilo é um animal. O “Vai buscar” é o vai buscar o que é teu, vou buscar o que é meu, ele vai buscar o que é dele. É aquela mensagem, aquela moral para aqueles momentos em que estás com pica para fazer alguma cena, mas não sabes se hás-de fazer ou não. Vai só buscar o que é teu, vai, agarra com força, vai. O TheWinnerCircle é uma collab do Prodlem e, lá está, para gravar com um gajo bruto e pesado como o Phoenix tinha que ir arranjar um beat com as mesmas medidas.

O que esperas alcançar com este álbum?

Estamos em 2017. Para o ano faz 20 anos que eu fui à minha primeira festa de hip hop, se não fizer mais, então, automaticamente, depois de cinco mixtapes com outro nome, dois álbuns com a assinatura de Kroniko, só espero continuar a fazer música. E, claro, chegar um bocadinho mais longe. Não vou ser hipócrita. Somos todos underground, mas podemos chegar um bocadinho mais longe. Tenho a certeza de que o álbum vai chegar mais longe. Fui rodeado durante oito meses por uma equipa que não me deixou cair e tenho de dar props a eles todos. Vamos chegar mais longe, tenho a certeza que sim e se disserem que não é porque não ouviram. Tenho também de dar props ao SP (Deville). Ele costuma dizer, e é uma das maiores verdades, que na tuga o pessoal não ouve as letras, na tuga o people ouve os beats. Se tiver um beat bacano a gente ouve, não ouvem a letra, não ouvem o que um gajo chora ali, o que um gajo sua.

 


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