Kroniko na Casa Independente: a perfeita passagem do estúdio para o palco

[TEXTO] Rui Miguel Abreu / Agnes [FOTOS] Crashgrafia

Estigma, o novo álbum de Kroniko, é mais uma irrefutável prova de que o rap avança conscientemente por novos territórios musicais a cada dia que passa, transformando cada calendário num oceano de possibilidades inéditas e fazendo dos estúdios verdadeiros laboratórios onde se reinventa o futuro. Mas é nos palcos que tantas vezes a promessa deixada nos discos fica por cumprir: amadorismo, falta de ensaios, falta de uma ideia estruturante para as performances e até simples falta de à vontade são obstáculos que cada vez mais vão sendo ultrapassados pelo hip hop, mas que ainda se sentem existir. Não no caso de Kroniko: a sua apresentação na Casa Independente em véspera de feriado foi a confirmação de que é possível sair do ambiente controlado do estúdio para o palco conseguindo resultados igualmente satisfatórios, igualmente entusiasmantes, igualmente surpreendentes.

 


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A Casa, além de Independente, estava também cheia que nem um ovo: na plateia encontravam-se muitas caras familiares – de Oseias (que está sempre presente, verdade seja dita) e SP Deville a ProfJam por exemplo – mas sobretudo uma multidão que se percebia estar ali propositadamente para a ocasião, o que nas noites actuais de Lisboa nem sempre acontece: as plateias agora fazem-se tanto de quem quer mesmo marcar presença num sítio como dos turistas que são carregados por acidente até aos locais, como se fossem levados por uma qualquer corrente inexplicável.

A noite arrancou com Estraca, seguro, a exibir flows de velocidades estonteantes e a arrancar os primeiros sérios aplausos da noite, antes de sair para, como o próprio fez questão de referir de cima do palco, “ir vender bifanas”. “É preciso pagar o álbum que está quase pronto”, confessava-nos depois. Venha ele, porque Estraca é já bem mais do que uma mera promessa. KAPS, um dos convidados em Estigma, foi a presença seguinte e mais uma indicação de que neste seu percurso “all the way up”, como diz o Fat Joe, Kroniko faz questão de se fazer acompanhar por novos valores que carregam promessa nos ombros e segurança na garganta.

Mas é claro que a noite era de Kroniko. Quando subiu ao palco, com máscara cirúrgica na cara, o rapper quase que vestia a própria cidade, voz moldada pela poluição que a rodeia, cabeça carregada de imagens que a rua impõe (muito mais do que oferece), corpo em sintonia com os ritmos a que a vida moderna nos submete. Secundado pelo sólido hype man Amaro e pelo DJ Farix certeiro nos cortes, Kroniko demonstrou que essa constante invenção do futuro que se sente em cada uma das suas faixas é também transformável numa apresentação live sem mácula, com mais energia do que uma grade de Red Bull, intensa e forte como deve ser, com os flows a aguentarem o embate da realidade, numa situação em que não dá para parar a track, puxar atrás e repetir até ficar bem, colocar efeito para disfarçar qualquer imperfeição. No palco ou se tem ou não se tem. E Kroniko tem. Para dar e vender.

 


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O concerto de Kroniko arrancou com “Life” e “Bad Bad” levou KAPS de regresso ao palco na primeira de várias presenças que transformaram esta apresentação de Estigma num reflexo perfeito do que se cozinhou em estúdio. “Dias Cinzentos” (um dos temas mais profundos de Estigma que ao vivo chega a arrepiar) e “Tudo na Vida”, que contou com a presença de Duplex, foram as paragens seguintes, com “Barulho”, que contou com participação de KosmoDaGun, a levar a casa ao rubro. Kroniko soube sempre manter o público na palma da sua mão, sinal de que está preparado para palcos maiores, que exigem entrega total. Que é, nitidamente, o que este rapper está preparado para dar.

Um interlúdio para Amaro brilhar ao lado de Chav com o tema “Nublado” serviu para Kroniko recuperar energias e gerir o fôlego que foi necessário para uma ainda mais energética segunda parte, com “Selva” a dispensar o beat e a arrancar fortes aplausos do público e depois “Vai Buscar” a levar Phoenix RDC até ao palco para um dos momentos mais altos da noite. “Vou atrás do que é meu / I’m winnin’ / Tudo que eu tenho ninguém me deu / I’m winnin'”: um hino é um hino e este fala de “grinding”, de sobrevivência, de superação, coisas que tanto Phoenix RDC como Kroniko têm total autoridade para abordar. Isto sim é um “reality show”.

 



“TRex” manteve energias em alta e depois veio o incrível “1000 Graus”, um dos pontos mais fortes de Estigma, que teve Mike El Nite como argumento adicional. “Temperatura está crazy” e o “clube está tight”, garantia-nos Kroniko que de facto elevou a temperatura da sala até aos “1000 Graus” em mais um retrato do “paraíso que está na rua”. Mike, como sempre, esteve impressionante, levando os presentes a erguerem os braços em sinal de total sintonia: quando o termómetro sobe até aos mil graus não há quem não sinta o calor. O concerto terminou com o incrível “Big Ben”, com todos a ecoarem essa mais do que legítima vontade de ter guita limpa no bolso.

Para a semana, a 23, Kroniko vai ser uma das presenças na festa It’s a Trap, no Time Out Market, Cais do Sodré (Lisboa). O evento organizado pelo Rap Notícias é o habitat perfeito para Kroniko e se o perderam na Casa Independente terão aí a oportunidade perfeita para confirmar que este homem tem tudo: tem os beats e os flows, tem as rimas e a presença, tem a verdade na garganta que é coisa que conta muito neste universo. Chega? Tem de chegar.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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