Referência no hip hop de Setúbal e conhecido pelo registo de street rap, Krazye Loko regressou na passada sexta-feira, 13 de Março, com um novo álbum. Brilho, inteiramente produzido por Split_86, revela uma faceta mais madura e leve do artista, tanto a nível sónico como temático.
É o quarto disco do seu percurso, após Street Tape (2012), O Meu Espaço (2013) e Viagem (2024). Como forma de assinalar o lançamento, o Rimas e Batidas dirigiu algumas questões a Krazye Loko sobre o seu trajecto artístico e o disco com uma dezena de faixas que acaba de lançar.
Antes de mais, começa por nos contextualizar: para quem não está familiarizado com o teu trabalho, quem é o Krazye Loko? Há quanto tempo começaste a fazer rap, quem eram as tuas principais referências, como descreverias o estilo que criaste ao longo dos anos?
O meu nome verdadeiro é Pedro Castro, nascido e criado na cidade de Setúbal. Comecei a fazer rap aos 13 anos, mais precisamente em 2003. Como filho de mãe portuguesa e pai angolano, cresci no meio de ritmos africanos e portugueses, dias passados entre família e amigos ao ritmo de várias culturas. De tudo aquilo que ouvia, o rap sempre foi o estilo de música que mais se adequava a mim. Dessa forma, 2003 foi o ano em que juntei o gosto que já tinha pela escrita e batidas de rap — boom bap — e comecei a criar as minhas primeiras músicas. Ouvia muito Boss AC na altura, Black Company, entre outros dessa época. Lembro-me também de me chegarem a casa, através de familiares, sons do Allen Halloween ainda em cassete. Por mais de 20 anos, os meus trabalhos eram mais street nas famosas batidas tradicionais de boom bap. Embora ao longo dos anos e a cada trabalho meu se consiga notar mais maturidade como pessoa e artista.
Mencionas o Allen Halloween como referência e tens um feat. com ele, na faixa “Haterz”, e entras no terceiro e último disco de originais dele, Híbrido. Como é que se deu essa ligação?
Na altura tínhamos alguns amigos em comum, um deles era o Psydin que organizava concertos para mim e também para o Allen. Passado uns anos, salvo erro em 2014, eu e o Allen Halloween fizemos um concerto no Rootz, que fica na Amora, e foi lá que nos conhecemos pessoalmente. Ele curtiu da minha cena e eu já curtia da dele desde miúdo. Tivemos uma boa e longa conversa no backstage em que falámos de tudo e mais alguma coisa e foi nesse dia que ele me convidou para o Híbrido. Mantemos sempre o contacto e a nossa amizade. Em 2018, convidei-o para o “Haterz”. É um amigo que levo para a vida toda e sempre que temos tempo metemos a conversa em dia.
Sobre o novo álbum, Brilho, qual foi o ponto de partida, a abordagem inicial? Foi um disco muito pensado ou planeado? Ou foi feito de forma orgânica ao longo do tempo?
O novo álbum foi o início de uma nova etapa na minha vida e na música que faço. Os anos passaram e muitas coisas mudaram, desde rotinas à minha forma de ser, pensar, agir — e claro que isso se reflecte na minha música. Fugir ao tradicional boom bap era uma cena que já tinha pensado bem antes de lançar o meu anterior disco, o Viagem. Digamos que lancei o Viagem como uma despedida do passado, para depois entrar no futuro com o meu novo eu. Após isso, no espaço de um ano, escrevi as 10 faixas que deram forma ao Brilho — que sem sombra de dúvidas me representa na actualidade.
Porquê o título Brilho? E fala-nos das temáticas deste álbum. Temos aqui uma versão tua mais madura, e diferente do registo mais street de há uns anos?
Escolhi o título Brilho pelas mudanças positivas que, na minha visão, aconteceram na minha vida e pela vontade de brilhar cada vez mais. Este projecto representa uma pessoa cansada de andar nas sombras e que quer caminhar na luz, mais paz e menos problemas, mais tranquilidade e menos stress. Cada música deste trabalho relata toda essa vontade de progredir cada vez mais na vida pessoal e profissionalmente na música, incentivando também o próximo de que basta lutar pelos nossos objectivos e bem-estar para atingirmos as nossas metas, que procurar a felicidade nunca é tarde de mais e que, por mais difícil que seja a batalha, o importante é nunca desistir. De facto, neste álbum podem contar com um Krazye Loko mais maduro, bem diferente do registo street a que estavam habituados.
Em termos sonoros, o que procuraste com este disco? Com quem trabalhaste? Sentes que houve aqui inovações relativamente aos teus projectos anteriores?
Neste disco procurei apenas demonstrar o actual Krazye Loko e naturalmente chegar cada vez mais a outras pessoas que se identifiquem com o meu trabalho. Neste projecto trabalhei com o meu produtor Split_86. É quem me tem acompanhado nos últimos três anos e produziu, mixou e masterizou todas as 10 faixas do Brilho. Também contei com o guitarrista da minha banda Pedro Rasta, que deu vida às faixas com as suas guitarras acústicas e eléctricas. E é claro que, para mim, este disco foi uma inovação relativamente aos meus projectos anteriores. É um trabalho mais suave de se ouvir e que atingiu a meta que eu pretendia.