Kraftwerk no EDP Cool Jazz: um museu ambulante a sobrevoar Cascais

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Pau Storch e Sara Falcão

Ontem, às 22 horas, uma nave alemã aterrou no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais. Depois de ultrapassadas as várias barreiras de segurança e de receber os óculos para o espectáculo 3D, o público entrou sem olhar para trás nesta particular viagem (que pouco ou nada tem de jazz, assegure-se) conduzida por Ralf Hütter, Fritz Hilpert, Henning Schmitz e Falk Grieffenhagen, quarteto que se dispõe lado-a-lado, como se estivesse numa sala de controlo de uma qualquer central nuclear, enquanto uma plateia completamente rendida vai aplaudindo a cada “problema” resolvido. É como se já soubéssemos o resultado final antes da partida começar, mas isso pouco importa, na verdade, se a qualidade de jogo compensa tudo.

Apesar de sabermos a sua origem, a verdade é que os Kraftwerk sempre pareceram de outra galáxia, ajudando, através da sua visão absolutamente inovadora, a erguer novos edifícios sónicos e novas formas de pensar que moldaram o mundo. Em 2019, a tecnologia que ajudaram a popularizar já tomou outros caminhos, mas não deixa de ser importante voltarmos à sua obra: ao ouvirmos temas de discos como Autobahn, The Man-Machine, Computer World e Tour de France Soundtracks em alto e bom som, percebemos de onde viemos e como é que chegámos aqui.

O som tem a companhia de visuais que atiram notas musicais, que se moldam em figuras geométricas, que mostram pedalares incessantes e com que se viaja à boleia do icónico VW Beetle por auto-estradas que vão sempre dar ao mesmo sítio, servindo o propósito da repetição, essa palavra tão importante na fundação rítmica do grupo.

Não nos importaríamos de perder cinco horas, em vez das duas que durou a actuação, se, entre canções, existisse um especialista/historiador/guia que nos situasse cada momento e explicasse as suas ramificações na música popular (e não só). Afinal de contas, os pioneiros alemães são passado que preconizou o futuro, fazendo-se sentir no presente como um pedaço de história que não se pode ocultar. Um museu ambulante (e voador) que devia ser obrigatório em todos os projectos educativos por esse planeta fora.