Kraftwerk: Mitos e Máquinas

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados 

 

No imenso universo da música pop, os Kraftwerk representam uma galáxia, tal o alcance da sua obra, mas também um mistério insondável em torno do qual foram erguidos variadíssimos mitos que procuram, muitas vezes em vão, explicar tudo, desde as conotações políticas da iconografia por eles utilizada até aos mais impenetráveis segredos por trás da tecnologia supostamente guardada no seu estúdio Kling Klang. Mas para lá do folclore que os rodeia, estão as verdades incontornáveis: a sua obra representa o princípio de muitas coisas hoje dadas como adquiridas nos vastos terrenos da música de dança e não se pode dizer que haja uma única pessoa que hoje trabalhe com sequenciadores, sintetizadores, computadores e outros artefactos tecnológicos que, directa ou indirectamente, não tenha sido por eles influenciada.

No momento em que os Kraftwerk se preparam para editar um novo disco, Tour de France Soundtracks, o primeiro com originais desde Electric Café de 1986, é importante seguir-lhes o rasto e procurar perceber como evoluíram musicalmente e de que forma essa evolução acabou por marcar grande parte da música electrónica – e não só… – produzida hoje em dia. Como é habitual quando se fala dos Kraftwerk, pouca ou nenhuma informação foi disponibilizada acerca do novo trabalho antes da sua edição. O secretismo, para o grupo de Dusseldorf, parece ser uma arma de defesa, uma vez que gostam de encarar a sua obra como estando em permanente estado de reescrita e, portanto, até à véspera do master avançar para a fábrica ainda há tempo para retocar o produto final. Ou para cancelar a sua edição, como aconteceu com Technopop, um álbum cujo lançamento esteve programado para 1983, devendo assim suceder a Computer World, mas que foi cancelado mesmo nas vésperas de chegar ao mercado, quando alguma imprensa alemã já tinha até publicado anúncios de promoção a esse disco. Não satisfeitos com o resultado final do álbum – que deveria ter tido no clássico “Tour de France” o seu principal single – Ralf Hutter e Florian Schneider decidiram, simplesmente, não o editar, regressando a estúdio para retrabalhar o material já gravado que viria depois a ser incluído em Electric Café.

 


[VOLTA À FRANÇA]

“Tour de France 2003”, o single de avanço do novo álbum, surge 20 anos depois do hino original à Volta à França em Bicicleta. O tema original é considerado um hino electro e reflecte, como vários outros temas-chave da carreira dos Kraftwerk, uma certa obsessão com o movimento. Em álbuns como Autobahn (de 1974) ou Trans Europe Express (de 1977), os Kraftwerk exploraram com mão de mestre essa fixação com o fluxo – de pessoas, de informação, de meios de transporte. Identificando nas vias de comunicação o mesmo pulsar de vida e energia que atravessa os circuitos integrados do mundo dos computadores (tema abordado em Computer World de 1981, muito antes da Internet ter alcançado a massificação mundial que todos hoje lhe reconhecemos), os Kraftwerk ergueram assim hinos a um certo europeísmo, imaginando um mundo sem fronteiras e de distâncias transponíveis pelo movimento. Que um grupo tão conotado com as máquinas tenha devotado – e continue a devotar – tamanha atenção a um desporto aparentemente tão pouco mecanizado como o ciclismo parece, à primeira vista, um paradoxo. Mas a verdade é que Ralf, Florian e companhia sempre se interessaram pela dimensão humana da tecnologia, e essa interligação é, provavelmente, elevada à condição máxima nas corridas de bicicletas. Afinal de contas, aquelas duas rodas precisam da energia muscular humana para funcionarem. Ralf Hütter é aliás um aficionado deste deporto, tendo até participado em algumas edições do mítico tour gaulês.

O regresso em 2003 a esse importante momento da carreira dos Kraftwerk acaba por fazer todo o sentido, uma vez que a última fase da carreira deste grupo parece ter encontrado na redefinição de coordenadas antigas – à luz da tecnologia que entretanto se vai desenvolvendo – a sua principal razão de ser. Além das míticas remisturas de François Kevorkian para temas como “Tour de France” ou “Radioactivity”, há ainda que considerar o trabalho original de “Technopop” refeito para Electric Café (exactamente por – de acordo com declarações posteriores de membros do grupo – não reflectir idealmente as capacidades tecnológicas da época) ou o álbum The Mix (o último registo de longa-duração do grupo, datado já de 1991) onde os próprios Kraftwerk reactualizaram passagens clássicas da sua carreira como “The Robots”, “Computerlove”, “Pocket Calculator” ou “Trans Europe Express”.

 



Musicalmente falando, este “Tour de France 2003”, que possui um belíssimo web vídeo que se pode ver acima, é, à primeira audição, um choque para os fãs de longa data do grupo. Soa a house, mas tem uma presença demasiado pontuada do kick de bateria para os parâmetros desse género (e que sugere, de resto, o movimento acelerado dos ciclistas durante a Volta, tal como antes já haviam utilizado a tecnologia para ilustrar ritmicamente o avanço inexorável do comboio-sem-fronteiras em “Trans Europe Express”). Por outro lado, os belíssimos arpeggios sintetizados são demasiado fluidos para as estruturas angulares com que os Kraftwerk construíram a sua sonoridade de marca. Mas em cima, a voz, mecânica e telegráfica como sempre, surge para estabelecer a ligação com o passado, numa espécie de poesia concreta (mas sincopada) que enumera factos relativos a esse evento desportivo. A emoção, parecem dizer-nos, está no próprio movimento…

 


[O PASSADO]

Ralf Hütter e Florian Schneider conheceram-se enquanto estudantes do Conservatório de Dusseldorf em 1968. À época, uma série de bandas alemãs, como os Can, Neu! ou Faust, buscavam no alargamento dos horizontes proporcionados pelas experimentações do rock psicadélico, alguma música erudita e free-jazz restabelecer uma marca de identidade apagada pelo vazio cultural do pós-guerra. O mundo reconheceu, mais tarde, os seus esforços com o baptismo do género Krautrock, um termo suficientemente vago para incluir visões muito diversas sobre o mundo da música. É nesse período de desafio às convenções que Ralf & Florian criam os Organization que, em 1970, editam o seu único álbum, Tone Float. Misturando instrumentação clássica com alguns teclados electrónicos primitivos e efeitos como o eco, esta dupla criou um padrão para a descoberta, mostrando-se desde logo muito interessados nas potencialidades da tecnologia.

A alteração do nome do grupo para Kraftwerk coincidiu igualmente com uma tentativa de simplificar o seu som, tornando-o mais linear e transparente. Esse processo aconteceu ao longo de três álbuns – Kraftwerk, Kraftwerk 2 e Ralf & Florian – mas só viria a adquirir um impacto mais alargado com a edição da sua ode electrónica às autoestradas em 1974, Autobahn. A preocupação com a simplicidade pop é elevada ao máximo em “Autobahn” onde se cita uma melodia clássica dos Beach Boys (“Fun Fun Fun”), facto que parece apoiar as ideias do grupo que nesta época começa a falar numa nova “música folk electrónica”. “Autobahn” contou já com a colaboração de Wolfgang Flür e alcançou um assinalável sucesso em países como os Estados Unidos ou Inglaterra. Que esse sucesso se tenha baseado num single retirado de um tema com 22 minutos – o primeiro em que os Kraftwerk usaram vozes – representou, desde logo, uma pequena revolução para a indústria pop.

O resto dos anos 70 testemunharam a subida dos Kraftwerk ao seu apogeu criativo e a imposição de um marca bem vincada em que a tecnologia era usada para suportar reflexões bem mundanas sobre a vida em sociedade. Com a edição de “Rádio-Activity” (1975), os Kraftwerk cristalizaram a sua formação clássica uma vez que a Ralf, Florian e Wolfgang se juntou Karl Bartos. O pan-europeísmo dos Kraftwerk também começou aí a ser explorado mais afincadamente, ao editarem discos com versões dos temas em alemão e inglês (mais tarde, ao vivo ou em disco, alargariam a paleta de línguas ao francês, espanhol e italiano).

“Radioactivity” também era um disco comprometido com a comunicação e o fluxo de informação. O termo “Rádio-Activity” foi usado com um peso ambivalente. Se por um lado, títulos como “Geiger Counter” ou “Uranium” sugerem uma conotação nuclear, por outro, temas como “Radioland”, “Airwaves”, “Intermission”, “News”, “The Voice of Energy”, “Antenna”, “Radio Stars” ou “Transistor” deixam bem claro em que tipo de rádio-actividade estariam os Kraftwerk a pensar. Este álbum não alcançou um sucesso tão importante como o seu antecessor, mas é uma obra-prima de simplicidade e depuração electrónica.

Dois anos depois da edição de “Rádio-Activity”, os Kraftwerk lançaram “Trans Europe Express” onde, uma vez mais, o movimento ocupa o lugar central, mas também a ideia de um mundo sem fronteiras, dividido apenas pelas linhas de comunicação. O hipnótico tema título descreve com uma precisão aural incrível uma viagem através do continente europeu, quase como se de uma utopia se tratasse. Usufruindo do uso pioneiro de sequenciadores, “Trans Europe Express” viria, como se perceberá mais adiante, a revelar-se um tema importantíssimo no nascimento de uma série de outros géneros.

Em 1978 o quarteto editaria o álbum que ainda hoje serve para inspirar títulos de artigos – como é o caso deste – The Man-Machine. A foto da capa, com as famosas camisas vermelhas e gravatas pretas, é quase um template do look da New Wave, e o artwork, inspirado no construtivismo soviético de El Lissitzky, remete-nos para um universo em que as relações do homem com a máquina se estreitam até à quase fusão. “The Robots” ou “The Man-Machine” são reflexões profundas sobre essa ligação, apoiadas por uma música cibernética profundamente simples. “The Model” (parecendo dizer-se que os próprios manequins de moda seriam máquinas…), por seu lado, obteve um sucesso e um impacto profundo, sendo uma fabulosa canção pop servida por uma melodia intemporal. A adaptação de “The Model” ao universo do rock pelos Big Black de Steve Albini diz muito do impacto que os Kraftwerk tiveram para lá dos cada vez mais alargados círculos da música electrónica (e que faz sentido, porque os próprios Kraftwerk nunca negaram uma influência do rock nas suas composições – a exploração de ritmos primais por grupos como os Stooges de Iggy Pop, por exemplo, inspiraram de forma inequívoca a própria música do grupo de Dusseldorf).

O álbum seguinte, Computer Love (1981), é, talvez, o primeiro disco do grupo de Ralf e Florian da idade moderna. Usando até ao limite as capacidades que a tecnologia já conseguia oferecer, os Kraftwerk conseguiram erguer para esse álbum uma sonoridade verdadeiramente electrónica, sem os ruídos que as anteriores gravações analógicas possuíam. Por outro lado, mimetizaram as complexas trocas de energia ocorridas dentro de um computador criando ritmos complexos e uma sonoridade completamente original.  O tema “Numbers”, por exemplo, é quase uma leitura do funk à luz das máquinas e o seu ritmo, juntamente com a melodia de “Trans Europe Express”, foram a base para o clássico do electro “Planet Rock” de Afrika Bambaataa e Arthur Baker.

As inovações dos Kraftwerk não se manifestavam apenas no estúdio. Ao vivo, e ao longo dos anos, o grupo procurou criar novos elementos visuais para os seus concertos, incluindo robots e manequins animados, além de projecções de imagens e outros recursos, que ajudariam a sua música a alcançar uma verdadeira dimensão multimédia.

1983 foi o ano da edição do já mencionado clássico Tour de France e do cancelamento da edição de Technopop. O verdadeiro álbum seguinte do grupo, e o último de originais até hoje, sairia em Dezembro de 1986. Electric Cafe marcou a entrada dos Kraftwerk na era digital: foi não apenas o primeiro disco do grupo a ser lançado simultaneamente em vinil e CD, mas o que beneficiou pela primeira vez das capacidades de gravação e edição digital. Em temas como “Boing Boom Tschak” ou “Musique Non Stop” é óbvio o fascínio exercido sobre o grupo pelos samplers, que começavam a ver a sua utilização tornar-se mais comum no mundo da música. O impacto de Electric Cafe não foi significativo, do ponto de vista comercial, mas é mais um degrau no processo evolutivo de criar uma linguagem electrónica verdadeiramente pop e muitas das experiências aí ensaiadas, ao nível da sintetização de vozes, por exemplo, são hoje lugares comuns.

As possibilidades da era digital surtiram um efeito profundo sobre Ralf e Florian que passaram os anos seguintes fechados no Kling Klang a prepararem o seu legado passado para a nova era. The Mix, de 1991, é um álbum de reactualizações, nitidamente marcado pela influência que os próprios Kraftwerk tinham entretanto recolhido do universo da música de dança. A parte restante da década de 90 foi gasta com a reactualização do live show dos Kraftwerk. Depois da transposição de temas clássicos para a realidade digital, foi a vez de substituir a parafernália de palco por uma mais portátil estrutura informática. Ao nível visual, as inovações foram igualmente grandes, tornando-se os shows dos Kraftwerk em futuristas eventos multimédia, com neons, projecções computorizadas, luzes e som a funcionarem como os pilares da utopia tecnológica criada pelo grupo.

Depois de The Mix, e da saída de Bartos e Flur do grupo, o único material novo que os Kraftwerk editaram foi o maxi-hino para a Exposição de Hanover em 2000. “Expo 2000” foi depois revisto por remisturas de gente como François Kevorkian, Underground Resistance ou Orbital, fechando-se assim um circulo. Os álbuns dos Kraftwerk foram essenciais no período formativo do techno e outros géneros e, mais tarde, parece que foram os desenvolvimentos entretanto conseguidos nessas áreas que alterariam a visão dos Kraftwerk.

 


[TEUTONIC FUNK]

Ao mesmo tempo que na Europa os Kraftwerk desenvolviam uma música profundamente rítmica e electrónica, nos Estados Unidos os DJs de disco e hip hop procuravam o beat perfeito e o seu alargamento até ao infinito em sets em que a fluidez entre as músicas se tornava regra. Nos clubes, a música dos Kraftwerk era indispensável. As estruturas hipnóticas de temas como “Trans Europe Express” eram ideais para transportar uma pista de dança até ao delírio. Não demorou muito para que uma nova geração de criadores aproveitasse as pistas deixadas pelo quarteto de Dusseldorf.

Por um lado, o disco foi-se tornando cada vez mais electrónico, apoiando-se muitas das produções de gente como François K para a Prelude, nas mesmas marcas estruturais que os Kraftwerk tinham desenvolvido. A orientação tecnológica da música criada na época veio a desembocar no nascimento do house e mais tarde do techno. Com os Kraftwerk por faróis permanentes.

Ao mesmo tempo, no início dos anos 80, um jovem negro de Nova Iorque, Afrika Bambaata, preparava-se para, com a ajuda de Arthur Baker, deixar a sua marca na então emergente cultura hip hop, combinando a melodia de “Trans Europe Express” e o ritmo de “Numbers” para criar o intemporal “Planet Rock”. Os efeitos criados por esse fabuloso hino electro ainda hoje se sentem. O baixo profundo desse tema ajudou a erguer a revolução do Miami Bass (que influenciou, por outro lado, o drum n’ bass) e a toada electrónica tornou-se um modelo para a invasão electro que se seguiria. A sonoridade electrónica dos Kraftwerk parecia assentar perfeitamente num escalão etário obcecado com os jogos de computador e o swing natural da música criada pelos homens-máquina parecia ser a banda sonora ideal para a geração de b-boys que começava a dançar break nas ruas. Numa das mais importantes sequências do filme Breakdance, Turbo (um dos principais breakers do filme) assina um solo fabuloso ao som de “Tour de France”, dos Kraftwerk…

Mais ou menos ao mesmo tempo, noutro ponto dos Estados Unidos, Juan Atkins, perfeitamente sintonizado com as inovações assinadas pelos Kraftwerk, criava os seus Cybotron 2000, editando temas como “Clear” e “Techno City” que levavam um pouco mais longe as marcas do electro, para lançar as bases da verdadeira revolução Techno que aí vinha.

A marca dos Kraftwerk na cultura musical popular é quase impossível de analisar. O seu som foi importante na génese do hip hop e do electro, do high energy e da house, do techno, da new wave… Por isso, de forma indirecta, muito daquilo que hoje temos, do Electro-Clash a todas as derivações de música electrónica, devem aos Kraftwerk não apenas o pioneirismo, mas igualmente algumas das ideias norteadoras das suas acções (os Blips sintéticos de muita electrónica experimental de hoje já existiam na música dos Kraftwerk).

Tour de France Soundtracks é, por tudo isto, um importante regresso. Ralf Hütter e Florian Schneider voltam a dar-nos a sua visão de um mundo tecnológico, mas profundamente humano, onde a música tem o poder de traduzir emoções, transmitir importantes mensagens ou, simplesmente, marcar o passo da própria vida.

 


 

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Texto originalmente publicado na revista Dance Club. 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu