Kool G Rap: o “Padrinho” da Costa Este norte-americana

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Ainda existem vários pioneiros do hip hop em plena actividade, mas poucos são aqueles que podem ser considerados criadores de uma determinada tendência, arquitectos de estilos, temáticas e sonoridades que vieram mudar as regras do “jogo”. Se na Costa Oeste norte-americana houve Ice-T a delinear aquelas que seriam as bases para o rap hardcore nos anos 80, o final dessa década gerou repercussões do género na costa oposta, mais precisamente em Nova Iorque, onde Kool G Rap abriu o livro dos versos mafia related, dando assim início a um novo capítulo que se viria a tornar numa das mais importantes lições para os praticantes de rap de rua.

Nathaniel Thomas Wilson foi o “Padrinho” que desvendou os caminhos para uma das áreas mais icónicas do hip hop. Wu-Tang Clan, NAS, Mobb Deep, Jay-Z, Notorious B.I.G. ou Big Pun — todos eles foram inspirados pelos relatos de Kool G Rap vindos do underground e todos eles também deram posteriormente à luz muitos dos clássicos que ficarão para sempre arquivados nas prateleiras de recordações de uma cultura fundada no Bronx. E acreditem, a lista de nomes que beberam desta mesma fonte é bastante mais extensa. A vinda de Kool G Rap a um dos palcos de Verão da capital portuguesa só pode ser considerada uma dádiva dos Deuses do hip hop.

Oriundo do bairro de Queens, foi em meados dos anos ’80 que G Rap surgiu nos radares dos mais atentos seguidores da cena nova-iorquina, mostrando-se ao lado de DJ Polo com quem formou dupla durante cerca de meia década, período em que editaram três álbuns.

A conotação gangster e mafiosa chegou logo com Road To The Riches, o LP de apresentação do par, cujo tema-título relata a dificuldade de alcançar uma vida economicamente atractiva seguindo os parâmetros da sociedade, em contraste com o dinheiro fácil que surge como recompensa da venda de drogas. Kool G Rap destacava ainda Al Pacino numa das suas primeiras menções na cultura musical do hip hop, ele que ficou eternamente ligado à imagem de mobster graças aos papéis desempenhados em The Godfather ou Scarface. No entanto, “Road To The Riches” seria uma excepção no alinhamento do disco de estreia de Kool G Rap com DJ Polo, com o rapper ainda à procura da definição que iria dar à sua carreira mas a demonstrar desde cedo uma forte aptidão para um estilo de rimas multissilábicas, uma das suas imagens de marca que, à data, era ainda pouco explorada.

A declaração de total fidelidade às ruas chegou depois em 1990 com Wanted: Dead or Alive, subindo de tom dois anos depois com a edição de Live And Let Die. Após terminar a ligação com DJ Polo, Kool G Rap deu arranque, em 1995, a uma carreira a solo com 4,5,6, editado pela Epic Street, uma subsidiária da Sony Music.

 



Apesar dos 50 anos de idade — mais de metade deles ao serviço das rimas —, Nathaniel Wilson não foi dos mais trabalhadores dentro do estúdio, mas nem por isso perdeu o estatuto de lenda, com muitos dos seus colegas ou jornalistas da especialidade a destacarem-no como um dos melhores de todos os tempos e, claro, peça fulcral para o street rap tão típico de Nova Iorque, numa amostra de concordância nem sempre fácil entre artistas e crítica.

Para todos aqueles que ainda o acompanham, Kool G Rap tem estado mais activo, especialmente no último par de anos, e a sua presença em Lisboa é sinónimo dessa vontade de continuar a servir a poesia de rua. Return Of The Don será certamente um projecto em destaque durante a sua passagem pelo Iminente, um disco editado no ano passado e que vem comprovar que, mesmo em 2018, o estatuto que alcançou em tempos ainda lhe assenta que nem uma luva.

Conforme revelou a Sway Calloway no seu programa matinal, o álbum demorou apenas “sete ou oito meses” até estar cozinhado — um período relativamente curto quando o resultado combina com o esperado e quando comparado com os timings aplicados aos projectos que valem capas de revistas e prémios na actualidade.

E nem precisamos de rodar Return Of The Don por muitos minutos para nos apercebermos que estamos realmente na presença de uma das mais brilhantes mentes do liricismo da golden era: o verso letal que assina no arranque de “Mack Lean” é de se tirar o chapéu e facilmente nos transporta até ao lado mais sombrio de Nova Iorque, embelezado com aliterações e contrastes de flows e rimas bastante acima da média. A motivação? Nada mais humilde do que apenas “manter o espírito competitivo” quando o microfone se torna irresistível depois de “receber novas produções que puxam pela criatividade”, tal como aconteceu com Moss, o beatmaker de serviço no quinto disco a solo do rapper de Queens.

Outro dos projectos que parece não ficar de fora do “menu” para o Iminente é o ainda mais recente Son Of G Rap, mais uma prova da humildade e do espírito de companheirismo que deveria reinar no hip hop, no qual o veterano passa o testemunho ao também nova-iorquino 38 Spesh, que tem estado próximo do entusiasmante universo da Griselda Records e ansiava por prestar a devida homenagem a um dos seus heróis. A atitude sensibilizou desde os mais novos aos mais antigos praticantes das rimas e batidas, que ofereceram o seu contributo neste encontro de gerações: Freddie Gibbs, The Alchemist, N.O.R.E., Meyhem Lauren, Pete Rock, AZ ou DJ Premier são apenas alguns dos colaboradores presentes em Son Of G Rap.

No próximo sábado, dia 22 de Setembro, celebramos o legado de um dos nomes mais importantes na arte de rimar, que estará acompanhado por DJ Maseo (De La Soul), Havoc (Mobb Deep), KESO, Valete, Landim, Fumaxa, Vado Más Ki Ás ou DJ Glue na programação do segundo dia do festival que acontece no Panorâmico de Monsanto.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

Latest posts by Gonçalo Oliveira (see all)