Konono Nº1 meets Batida: Um encontro de fronteiras

[TEXTO] Ricardo Miguel Vieira [FOTOS] Vera Marmelo

 

“A afinidade artística entre Batida e Konono Nº1 está em permanente descoberta”, conta Pedro Coquenão, o produtor luso-angolano de identidade artística Batida. “Move-se pela premissa de fazer dançar, a procura de um estado de consciência mais elevado e por familiaridades que nos transcendem.”

Editado há um par de meses pela casa belga Crammed DiscsKonono 1 meets Batida é um encontro de explorações rítmicas. As personalidades dos projectos em diálogo no terceiro disco de estúdio do histórico colectivo congolês fundem-se na sonoridade de apelo físico e no relacionamento cultural proporcionado pela proximidade entre as fronteiras de Angola e Congo. É um trabalho rico em experiências de tonalidades selvagens.

“A ideia deste trabalho é tirar partido do que é familiar, mas também do que é complementar”, explica Pedro Conquenão. “O sul do Congo e o norte de Angola partilham palavras, ritmos, cultura. Desde o fim da era colonial que se verifica um fluxo de pessoas entre os dois países. E na música sempre foi assumida essa troca, muitos músicos que até são tidos como angolanos vieram do Congo. É fácil ouvir a influência do som congolês em muitos discos angolanos dos anos 1960 e 70 e também encontras essa proximidade em muitos beats actuais. Há relações rítmicas e também melódicas, sendo que a música angolana tem uma melancolia que é mais rara no Congo, especialmente nas guitarras e nas vozes. Mas tem instrumentos como o kissange, as ngomas e muitas danças partilhadas. Nos Konono há mesmo relações familiares com Luanda. Há sangue e suor.


 


O encontro entre Konono e Batida foi forjado pelo fundador da Crammed Discs. Marc Hollander estava na plateia quando, há dois anos, Batida sacudiu o ambiente do Womex de Santiago de Compostela com pulsações electrónicas mescladas em melodias tradicionalmente angolanas. Coquenão é um mestre nas composições contemporâneas inventadas com peças sonoras do passado, agilidade que certamente urgiu o patrão da editora belga a abrir caminho a um diálogo fresco entre ambos os projectos.

“Recebi um mail naquela mesma noite”, recorda o produtor. “Mais tarde, falámos ao telefone, pedi para conhecer a banda antes de responder ao convite. Estivemos então juntos em dois espectáculos e foi assim que nos conhecemos e estabelecemos colaboração.”

Konono 1 meets Batida emerge mais de uma década depois da formação congolesa chegar à Europa através de Congotronics (2004), compilação catártica carregada de uma energia singular propiciada pelo likembé [uma espécie de pequeno piano de teclas metálicas, curtas, que é a essência sonora dos Konono]. A irreverência do conjunto fundado nos anos 1960 valeu-lhe um Grammy, colaborações com gigantes como Björk e Herbie Hancock e a apreciação de artistas das mais distintas linguagens – Animal Collective, Thom Yorke, Grizzly Bear. O registo que se seguiu, Assume Crash Position (2010), resultou numa extensão da carga rítmica daquele definidor primeiro álbum, embora não tenha contado com o contributo do fundador do colectivo, Mingiedi Mawangu. Ausente da banda por motivos de saúde desde 2009, Mawangu, que faleceu em Abril do ano passado com 85 anos, transferiu a liderança do likembé ao herdeiro Augustin Mawangu.

À procura de expandir uma estrutura sonora muito particular, os Konono construíram o recente opus durante uma residência no pequeno estúdio-garagem de Coquenão, em Lisboa. Aterraram em Lisboa há cerca de um ano, ainda no Inverno, acompanhados pelo seu produtor habitual, Vincent Kenis, que supervisionou as fundições do álbum à medida que o convívio entre os artistas se consolidava. “Além da partilha do meu espaço, com aquecedor no máximo, litros de chocolate quente, refeições e até sestas, houve dois shows que nos aproximaram”, recorda Coquenão. Um deles a encheu a intimista pista do Lux Frágil, com o público a ser parte activa da festa com apitos na boca, celebração de um barulho festivo e quente que informou o processo de estúdio – e que forneceu imagens para o single “Nlele Kalusimbiko”.



O disco oscila entre temas de pura estética Konono e outros absolutamente inovadores, beneficiados pela intervenção dos elementos electrónicos que enformam a arte de Batida. “Introduzi peças como o meu kit de bateria mais electrónico, o meu synth, um subgrave e apitos em jams de onde saíram temas novos”, recupera Pedro Coquenão. “Mais tarde, juntaram-se três convidados, que trouxeram o seu talento e alma. As vozes de Selma Uamusse e AF Diaphra valorizaram as letras e Papa Juju trouxe todo o seu amor para fazer as vezes do likembé rítmico que os Konono deixaram de tocar há algum tempo.” No final das gravações, ajustaram-se temas e aguardou-se a anuência da turma congolesa. “Recebi uma fotografia com cinco polegares e sorrisos. Estava fechado o disco.”

O registo foi lançado em Abril e, logo de seguida, Batida e Konono partiram para uma Primavera em digressão pela Europa. Coquenão conta que prepararam e ensaiaram as apresentações ao vivo. Trabalharam-se conteúdos vídeo e a própria forma como o colectivo se exibe em palco. Uma intervenção criativa que perpetua o sentido de revelação permanente entre os artistas. “Eu ainda não era nascido quando se formaram os Konono. Mesmo dentro da banda tens pessoas de gerações e vivências diferentes. Cada pessoa é uma pessoa. O que nos une é a música.”

 

[KONONO Nº1 MEETS BATIDA: TEMA-A-TEMA]

Nlele Kalusimbiko feat. AF Diaphra

“Esta ficou-me logo no ouvido quando ouvi as primeiras maquetes e os vi ao vivo. Depois de conversar com o Augustin sobre a letra fiquei ainda mais interessado nesta música. Fala da necessidade de ter um casaco para sobreviver socialmente. Desafiei o AF Diaphra a fazer a sua tradução e a dialogar com o Augustin sobre o dito tema. Gravámos um take ao vivo em que juntei um subbass e, mais tarde, uma programação que oscila e acompanha o tempo natural da banda.”

Yambadi Mama

“Aqui a ideia era fazer brilhar a Pauline. Gostei muito da forma como ela cantou o tema. Acabou por ser aquele em que mais mexi. Refiz a música deixando que a estrutura fosse inicialmente definida pela voz dela e depois pelo solo do Augustin, dialogando com o meu synth, marcado por padrões rítmicos criados especificamente para esta música. Apesar dessa maior intervenção na produção, tentei que mantivesse e transmitisse o mesmo ambiente que vivemos a gravar na garagem.”

Tokolanda feat. Papa Juju

“Pareceu-me importante que existisse um tema neste disco em que tudo decorresse como em opus anteriores: take inteiro dos Konono, captado e produzido pelo Vincent. Clássico. Pouco ou nada interferi. Limitei-me a sugerir uma guitarra – Papa Juju – para assegurar a parte rítmica e libertar o Augustin para que pudesse fazer brilhar o seu likembé.”

Bom Dia feat. Selma Uamusse

“Aqui foi o raciocínio oposto: fazer algo que a banda não tivesse feito antes. Os Konono Nº1 são reconhecidos pelo som do likembé e as vozes são muitas vezes descuradas por quem ouve. Este deve ser um raro tema em que os Konono usam apenas vozes. Na altura pareceu-me também a forma mais natural de apresentar a Selma Uamusse à banda. Ela veio fazer um encontro traduzido num acapella inédito em Konono, algo que queria muito experimentar. Chegou, fizemos uma roda e gravou-se o take à primeira.”

Kinsumba

“Nesta música a ideia foi a de começar da forma mais habitual para a banda, sem interferências, e ir gradualmente introduzindo elementos electrónicos, manipulando até conseguir uma transformação quase completa do tema.”

Nzonzing Família

“Depois de gravarmos os temas todos como os trouxeram, sugeri improvisarmos por cima de uma base rítmica diferente. Apresentei a Dikanza ao Jacques e a coisa arrancou. Saiu-me uma parte da letra do Luaty Beirão e um refrão inventado no momento para pontuar o instrumental. Era para ser apenas um momento de diversão e descompressão após os primeiros dias em estúdio, mas o Vincent tinha gravado tudo pelo que acabou por figurar no disco. O poder mencionar o caso dos 15+2 [os activistas detidos em Angola, inclusive Luaty] em entrevistas acabou por ser decisivo, porque não estava nos planos aparecer a desafinar no disco.”

Kuna America

Esta letra goza com o estado da indústria musical. O Augustin imaginou um futuro em que, ao viajar pelo mundo, encontra o seu actual editor e o seu manager a fazerem pela vida em cidades diferentes. Para quem domine o francês, como eu não domino, talvez apanhe o momento em que o Marc (mentor da Crammed) é apanhado a vender peixe para pagar as contas, justificando-se com o facto de a música já não garantir essa subsistência. Ritmicamente sugeri um padrão menos habitual nos K1.”

Um Nzonzing

“Nzonzing significa algo como uma “jam” em calão. Assemelha-se a “Nzonzing Família”: um momento de descompressão sem outro fim que não o de nos encontrarmos através da música. Soou bem e acabei por trabalhar posteriormente no tema para acentuar esse momento de encontro, juntando-lhe um sample vocal do Sacerdote – “Somos Bantú”.

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.