Kojey Radical // Cashmere Tears

[TEXTO] Moisés Regalado

É fácil adivinhar-lhe a origem pelo sotaque, mas não vale a pena esperar que daí venha a nova coqueluche do grime ou do drill britânico, que continua galopante na sua conquista do globo. A compará-lo com algum dos gigantes com quem Kojey Radical partilha nacionalidade, será mais com Roots Manuva, pela escrita, ou Dizzee Rascal, pelo ecletismo, e menos com Skepta, Stormzy ou outros mais queridos pelo público de 2019.

“Frequent flyer, miles got my demons playin’ catch-up/ Only nigga in first class, du-rag matchin’ my leather”, diz-nos em “Can’t Go Back”, resumo perfeito daquilo que é Cashmere Tears. Uma entrega crua e entusiasmante que cresce até fazer lembrar Meechy Darko, para de repente dar lugar a uma celebração digna de Kanye West ou Chance The Rapper. E os demónios de que fala Kojey são assunto recorrente nas palavras que vai despejando, mas nem por isso é fácil adivinhar-lhe os passos ao longo destes 29 minutos.

O exorcismo chega das mais diversas formas. Em “20/20” ou “Last Night” a desilusão apressa-se a mudar de roupa para encontrar a luz que, parece, já lhe ilumina o caminho. Mesmo que “Where should I go?” seja o grito final deste Cashmere Tears, não parece haver espaço para dúvidas na cabeça de Kojey — pelo menos não lhe treme a voz nem a caneta. A segurança é a de um original gangsta e o discurso é suficientemente sólido para adivinhar o futuro de Radical como próspero, claramente pronto para o que aí vem.

O MC faz parte do restrito clube daqueles que, antes se revelarem merecedores do título de músico e exactamente para que assim aconteça, não precisam de abdicar minimamente da sua identidade de rapper e escritor. E não há cá lirismos: nada se compara a uma boa escrita aplicada e dirigida a quem não pede tratados de literatura na hora de carregar no play, mesmo sem abdicar do texto em favor da forma. Mesmo que a forma seja tão estimulante quanto o flow de “Feel About It” ou o groove de “Hours”.

Vale a pena seguir-lhe o rasto, não sem antes perder algum tempo à volta desta caxemira — sem esquecer a seda do durag, a combinar com a pele dos acessórios. Nem sempre as misturas improváveis se revelam tão certeiras quanto audazes mas aqui não há nada fora do sítio e Kojey, o estilista, fechou a estação com a colecção mais audaz.


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