Kindness: “Se a tua música parecer o telejornal, não vais ajudar as pessoas a sentirem-se muito melhor”

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Anne Velour

Kindness começou por dirigir-se ao mundo. Urgia uma mudança de ideias, intimava no título do simpático disco de estreia; em tradução mais literal, uma renovação mental. Ao arranque do segundo álbum, Otherness, o relato era diferente: sentia o mundo recomeçar, o virar a página. Entre assomos de saxofone e colisões de percussão, a disco moderna dx produtor inglês parecia enrijecer.

Ao terceiro disco, reconhece que um mundo transformado não estanca — volta e meia, é altura de agir novamente. Something Like a War é o título de baptismo para um longa-duração com epígrafe: a intro “Sibambaneni” é uma ode em inglês e zulu à miscigenação, ao diálogo, à diferença que tem que ser matéria-prima para a igualdade.  Sem esquecer a luta inerente, incorporada de forma subtil na música, com o escudo da metáfora e o respaldo de um som aveludado, sintético mas florescente. Convocando amigos como Robyn — cujo Honey, disco de 2018, é uma estrela nesta constelação sonora — Jazmine Sullivan ou Seinabo Sey, Kindness amornou o pastiche funk que definia o seu estilo, agora iluminado por um compasso mais terno e sensual.

Depois de actuações no Optimus Primavera Sound em 2012, no Vodafone Mexefest em 2014 e no Super Bock Super Rock em 2015, Kindness regressa a terras lusas para apresentar Something Like a War. É um dos destaques da segunda edição do ID_NOLIMITS, que ocupa o Centro de Congressos do Estoril a 3 e 4 de Abril. O Rimas e Batidas passou uma hora ao telefone com Kindness sobre o seu novo formato ao vivo, os contratempos e benesses de se ser independente, e o porquê de já ter aborrecido Beyoncé mais do que uma vez.



Espero que estejas prontx para a entrevista número 5000 deste ciclo promocional.

[Risos] Na verdade, não faço uma entrevista há três meses.

Umas férias, parece-me.

Eu sei, é óptimo. Significa que fico feliz por fazer uma agora.

Dou graças a tudo. Esta é motivada pelo concerto que vens dar em Portugal, no próximo mês de Abril. Já cá estiveste anteriormente.

Múltiplas vezes. Estive na mesma região do [ID_NOLIMITS], a zona costeira de Cascais, o ano passado.

A zona chique.

Quer dizer, estivemos num Airbnb dúbio, com aranhas e muita humidade, mas foi muito bonito. 

No último Verão, secretamente esperei que aparecesses no concerto da Robyn. Não o fizeste, mas perdoo-te.

Está tudo bem. É bom gerir as expectativas das pessoas. Ela juntou-se a mim para o meu concerto em Estocolmo [a 30 de Janeiro], o que faz sentido dado que ela vive na cidade, e comecei a receber mensagens no Instagram do género: “A Robyn vai andar contigo em digressão?” Quero gentilmente mostrar o quão ridículo isso seria, e que não é possível. Mas veremos.

Reparei num comentário que deixaste no Instagram: ela só apareceu em Estocolmo porque os suecos têm de pagar o “Imposto Robyn”.

[risos] Percebo que seja bom sonhar. Mas é preciso entender que o simples ato de fazer um espectáculo exige esforço, organização e trabalho árduo. Não é fácil realizar os sonhos de toda a gente, infelizmente.

Os teus próprios sonhos são, convenhamos, mais importantes. O que planeias para esta digressão e para o concerto no Estoril?

Estamos a tentar encontrar uma forma honesta e sólida de apresentar estes três discos, assim como um pouco da música que gravei e produzi para outros artistas. Já fiz diversos tipos de concerto. Recordo-me duma em Lisboa, muito divertida, na Estação Ferroviária do Rossio: tive um baterista, uma série de coristas e instrumentos. O meu último projecto enquanto Kindness foi incrivelmente dispendioso — maravilhoso, mas insustentável. Não se pode levar músicos em digressão tanto quanto se gosta, porque é caro, pelo que fizemos uma nova versão do espectáculo: como se fizesse de DJ. As músicas fluem mais. Os elementos da produção estão mais patentes, além do cantar e tocar instrumentos, mas não há bateria, por exemplo. Em vez disso, tenho apenas as batidas de estúdio, o que aprecio por soar à experiência de discoteca.

Aludiste a esse aspecto da vida musical num painel da Red Bull Music Academy, em que és frontal sobre uma data de questões, incluindo o peso financeiro de ser-se artista independente e como foi quase ficar insolvente. Esta reconfiguração de Kindness ao vivo está a ajudar-te com isso?

Um pouco, mas ainda é assustador. Há apenas duas semanas, antes de partir para os primeiros concertos [desta tour], estávamos a tentar comprar bilhetes de avião e pagar a acomodação em hotéis. Nenhum dos cartões de crédito estava operacional e não havia dinheiro em parte alguma. Quem me prometeu que me pagava há dois meses ainda não cumpriu com a sua palavra. É extremamente difícil. No Natal, li a autobiografia do Tricky [Hell Is Round the Corner]: embora ele tenha tido uma carreira gigante, a certo ponto, percebeu que estava falido. Acabou por vender todas as suas canções a uma publisher, é bizarro. Fez algo semelhante [a mim], ao fazer uma digressão de escala reduzida, para se tentar reajustar.

No final do mês, vou dar aulas em Londres, a estudantes que desejam ter uma carreira musical. Estava a explicar à minha banda que vai ser complicado encontrar um meio-termo entre a honestidade brutal quanto às dificuldades e algum optimismo sobre, enfim, o facto de que continua a ser uma carreira animada e gratificante. Só que é extenuante e tens de trabalhar no duro. 

Presumo que ser artista independente permita maior diversão, ao mesmo tempo que não garante segurança, muito menos um ordenado fixo ao final do mês.

Tens razão. Tomas determinadas decisões: podes escolher trilhar um caminho mais convencional, pela mão duma editora maior. Ou até podes encontrar uma grande editora independente que pague a fabricação [de discos e merchandise], ajude com os custos da digressão, e te remeta um cheque cada vez que lances um álbum, para pagar pelo disco que concebeste. Isso convém para algumas pessoas e elimina algum do stress, porque sabes que tens esse apoio: uma rede de segurança que envolve entre 10 a 100 pessoas a trabalhar no teu projecto.

Ou podes ser doido, como eu e outros indivíduos, quando dizes: “Mas eu empenhei-me na minha música e não quero que seja propriedade doutrem. Quero conservar os meus direitos [de autor] e  saber que, se o Steven Spielberg usar uma canção minha, o dinheiro reverte para mim e não para uma empresa qualquer. É engraçado sentires-te tão emocionalmente investido na tua própria música. Talvez isso não seja nem saudável nem útil, mas prefiro passar fome a cedê-la a alguém.

Sentes que esse investimento emocional cresceu com o tempo? A tua discografia sugere sempre mais sofisticação, um som mais tenro que culmina no mais recente Something Like a War.

Sempre tive esse investimento emocional, mas quiçá a experiência não fosse a correta, ou a confiança não estivesse lá. Penso que, sempre que fazes um disco, fazes o melhor disco que podes. Sinto-me orgulhoso de tudo o que já fiz e tenho óptimas memórias de cada projecto. Mas suponho que, 10 anos depois, tenha mudado. De certa forma, é isso que define o meu último álbum: foi feito 10 anos após o início da minha carreira, com conhecimento e aptidões diferentes enquanto músico e produtor. Talvez até mais confiança no que toca às letras, àquilo que estou a comunicar. Tem sido uma jornada incrível. Poder tê-lo feito por 10 anos ainda me surpreende imenso.

Os discos a solo tendem a ser promovidos como um grito colossal de emancipação, mas os teus afiguram-se como algo mais sensível e descomprometido. Reflectem uma paz de espírito que enforma o som distinto de cada álbum.  

Tenciono, em parte, assegurar-me de que estou a tentar fazer algo. Quando falas de emancipação e liberdade… Estou a tentar provar a alguns músicos que podemos fazer arte ligeiramente mais estranha ou complexa. Não temos sempre de nos centrar nas histórias da rede social, na narrativa ou identidade visual. Podes fazer a música que realmente desejas, e se a fizeres da melhor maneira possível, há-de encontrar o seu público.

Como trabalho com artistas enquanto produtor, vejo a ansiedade que questiona, “porra, o que está o resto da música a fazer actualmente? O streaming diz que as minhas canções têm de ser curtas e ter mais volume, os vocais têm de ser mais processados; já ninguém ouve por boas colunas, então, como soa isto num portátil?” Compreendo essa pressão, mas, para alguns de nós, é nossa a responsabilidade de dizer não, de nos comprometermos a criar música do jeito mais idealista e quase irrealista possível.

O que considero ser uma verdadeira benção é que, sim, pode ser financeira e fisicamente custoso — mas posso fazer concertos e lançar discos que correspondem tal e qual à minha visão artística. Nunca tive de alterar esse som ou adaptar-me às ideias de ninguém. Isso é fantástico, nem todos os artistas têm esse privilégio; especialmente alguns dos artistas com mais êxito do que eu, que estão sob maior pressão para se portarem bem no Spotify e conseguirem um milhão de seguidores nas redes sociais. É bom poder existir sem ter de fazer essas coisas, sabes?

Essa recusa de cedências no formato das canções — que não têm de ser mais altas ou curtas — recorda-me de como a sequência do Something Like a War é feita à luz do vinil. A faixa mais quieta, “Call It Down” é também a última, porque corresponde à secção onde há menos dinâmica e volume. Essa analepse é mais literal, mas os teus discos estabelecem sempre uma ponte com o outrora musical. Quais foram os pontos de contacto para este álbum?

Estava a viver em Nova Iorque enquanto desenvolvia este álbum, e penso que a cidade me influenciou particularmente. Do lado de lá dum dos apartamentos em que vivi no Verão, havia uma piscina pública, onde havia um mural desenhado nos anos 80 pelo Keith Haring.

Sinto-me um stalker por já saber isto, mas apenas li as entrevistas anteriores.

[Risos] Foram marcos para mim, que, obviamente, se tornaram influências no som e no sentimento. Estava a ponderar: que vida louca te permite viver um Verão quente em Nova Iorque, passado todos os dias na piscina onde o Haring fez um mural enquanto o Junior Vasquez serviu de DJ [numa festa que ocupou um dia inteiro em Agosto de 1987]? Pude ir à Shelter Party [aniversário do Club Shelter, extinto sucessor da discoteca Paradise Garage] e ver os Soul II Soul actuar, além de Timmy Regisford, Louie Vega, o DJ Spinna a passar house imbuída de soul. As festas Soul Summit ao ar livre, com deep house para um público mais velho; instrumentos de percussão latina a serem tocados sobre as faixas. Não podes evitar ser influenciado.

Vivi em Harlem, frequentava alguns dos bares de jazz e acabei por me sentir parte da comunidade dos músicos de Nova Iorque — os mais novos, que vivem na esquina da universidade. Entendes um pouco como tudo se interliga, conheces uma data de música house da velha guarda. Na altura, era DJ em muitas festas da Solange e da [sua editora] Saint Heron. Era uma mistura do velho e do novo em hip-hop e r&b. Para a maior parte do mundo, os EUA definem o que é música pop; o hip hop e o r&b constituem a música pop de vários países. Quando aquela canção da Ella Mai rebentou, passámos um mês em que, de 30 em 30 segundos, havia um carro a bombar “Boo’d Up”. Foi um lembrete intenso de que a música é uma componente significativa do quotidiano das pessoas, de forma diferente para quem vive nos subúrbios de Londres. Lá, não consigo ouvir a música dos carros das pessoas. Talvez as pessoas sejam mais educadas em Lisboa, não sei. [Risos]

Não somos, posso garantir. Quando falas de r&b e hip hop como referências, recordo-me de quando te confessaste influenciado pela Bad Boy Records [editora fundada por Diddy]. Fiquei curioso: é suposto ouvirmos isto em alguma parte do Something Like a War?

[Risos] Não, acho que não consegues ouvir muito da Bad Boy no último álbum. Esta semana, o [rapper] Mase veio a público falar do Diddy ter roubado os direitos do seu repertório; senti-me mal com isso. Mas a [série documental] Hip Hop Evolution na Netflix é fascinante: há uma secção sobre o trabalho comercial do Diddy e do [produtor e rapper] Hitman — o que quero dizer é que abracei completamente a pop. Depois, entendo a versatilidade da produção; aquilo que podes fazer com samples, ao moldares músicas para que nasça algo novo. 

Um bom exemplo? “Love Like This” da Faith Evans. Essa canção usa um sample dos Chic, sobrepõe-lhe uma batida ligeiramente moderna, mas a essência do génio reside em escrever a melodia mais espectacular que cumpre nova função. A música da Faith Evans funciona melhor numa pista de dança do que a “Chic Cheer” dos Chic, é inegável. A questão aqui é ter tomates e o entendimento do quão formidável é samplar algo verdadeiramente óbvio e, depois, tentar obter disso a energia mais excitante. Sempre achei brutal terem feito isso em tantas canções, possivelmente devido à natureza das letras, ou ao facto do Diddy estar sempre a debitar versos horríveis em cima da faixa. A produção é excelente. No Hip Hop Evolution, quando falam da “It’s All About the Benjamins” [single de Diddy com Lil’ Kim, The Lox e The Notorious B.I.G.], fiquei boquiaberto. Mas sou britânicx, portanto não preciso de tomar partido na batalha entre Costa Este e Costa Oeste. [Risos] 

Dado que estamos nessa conversa sobre r&b, como interrompeste o hiato da Jazmine Sullivan?

Não sei se a Jazmine está em hiato, penso que ela apenas trabalha muito discretamente, mas entendo isso duma perspectiva de fã. É estranhíssimo que ela tenha aceitado colaborar com um produtor britânico desconhecido. Contudo, acho que tem que ver com o facto de ambos sempre termos feito o que queríamos. Para ela, poderá não importar quem é x produtor, qual é o ângulo comercial. É mais: “gosto desta canção? Sim. Elx está muito entusiásticx sobre a possibilidade de eu entrar? Sim. Ok, vou tirar algum tempo, vou ao estúdio e soltar algumas ideias. É música nova, talvez algumas pessoas a descubram, talvez não.” 

Estou a imaginar a perspectiva dela. Apesar das pessoas poderem perguntar por um novo álbum, ela pode responder: “Bem, fiz um single enorme com o Bryson Tiller, participei na música dx Kindness. A aparecer pontualmente em discos de outros artistas, é óbvio que estou a trabalhar: faço-o quando e como quero”. Acho isso o máximo. Sinto que a Jazmine se libertou ao certificar-se de que tinha escrito êxitos com outro pessoal. O dinheiro proveniente disso autoriza-a a fazer o que bem lhe apetece, e dá para ouvir no [seu último álbum] Reality Show (2015), que é bastante ousado.

Ontem alguém me recordou desta história: numa festa da Solange, para a Saint Heron, ao final da noite, o Jay-Z e a Beyoncé chegaram. Os portadores de bilhete tiveram de se ir embora, e depois continuámos numa festa privada. Eu e a Solange estávamos ambos obcecados com a faixa “Mascara” do Reality Show, tanto que ela me pediu que a passasse umas cinco vezes. [A cantora] AKUA disse-me que espreitou a Beyoncé a dizer algo como “outra vez? Vais mesmo passar essa música novamente?” Pedi-lhe que não me voltasse a contar isso. Já houve várias ocasiões enquanto DJ em que fiz a Beyoncé infeliz, e não quero saber disso. Sempre que acontece, o meu coração cai por terra, porque… não podes desagradar a Beyoncé, especialmente na capacidade de DJ.



Assim a Beyoncé nunca te vai convidar para fazer a primeira parte dum estádio…

Não sei. Sabes que mais? Dois anos depois disso, recebi um e-mail a propor que fosse DJ na festa privada de ano novo dos Carters [Beyoncé e Jay-Z]. Não pude ir. Estava em Londres.

Bem, Adam, continuas a desagradar a Beyoncé; vais ter alguma resposta kármica.

[Risos] Mas teve piada. Mencionei isto à minha parceira recentemente: “Lembras-te de quando me convidaram para aquela festa e eu recusei porque queria ficar em Londres?” Ela respondeu: “Sim, és umx idiota. Porque é que farias isso? Devias ter ido a Los Angeles e pronto!” Poderia dizer que tens, muito simplesmente, de fazer as coisas nos teus próprios termos.

E com ou sem Beyoncé, a GQ chama-te “Canivete Suíço da Indústria Musical”. O que achas disso?

Lembro-me bem dessa entrevista; acho que x jornalista era uma pessoa genuinamente generosa. É aquela situação em que, se és fã dx artista e sentes que não está a receber o devido reconhecimento, então excedes-te na forma como a descreves ou patrocinas. O artigo sublinhava a quantidade de pessoas com que eu trabalhava, a qualidade da música…

O que não são mentiras.

Não, mas a minha carreira não é assim tão diferente de outras: fazemos música, fazemos o melhor que conseguimos, por vezes corre bem e por outras corre mal. Não sou umx produtorx muito solicitadx, como…

Kaytranada…

Sim, ou Jam City, ou Ariel Rechtshaid… Sou mais a pessoa que os outros conhecem no seu grupo alargado de amigos. De vez em quando, um músico que eu já conheço diz-me francamente: “Ei, quando é que vamos juntos para o estúdio?” Não é que os seus managers ou editora fiquem extasiados ou à espera de que gravemos o próximo grande êxito pop. É mais na onda de “que se lixe, vamos arriscar!”, é fazer música por fazer música. Gosto de ser aquele amigo a contactar quando já se tem o álbum feito e se decide, “agora vamos fazer algo mais estranho”.

Parece uma abordagem bastante orgânica. Para quem não conhece o teu trabalho, ver o alinhamento dum álbum teu — com um elenco de luxo — pode fazê-lo parecer um álbum de produtor ou “DJ”. Não deixa de ser interessante como, para ti, é tão natural ter as participações duma Robyn ou Kelela, primariamente porque são tuas amigas.

Acontece que, antes de qualquer sucesso comercial, todos os meus colaboradores amam música e o processo de criá-la. Havendo uma ligação, consiste nisso mesmo: independentemente da dimensão do nome, quer seja a Robyn ou a Kelela ou a Solange, todos querem apenas engendrar e falar sobre boa música, escrever em conjunto, fazer novas descobertas. Por isso é que nada disto me surge como surpresa.

Para este disco, a capa parece espelhar perfeitamente a sonoridade afectiva.

Penso que é a minha favorita até agora. Pessoalmente, odeio a capa do segundo álbum [Otherness]. Foi um equívoco; quanto menos se falar, melhor. Tínhamos ficado sem tempo, porque me juntei com um fotógrafo reputado para uma sessão fotográfica que não funcionou. Havia um prazo final que tinha de ser cumprido em duas semanas, portanto estava sob muita pressão. Para poder prensar o vinil, tivemos de encontrar a foto rapidamente, então eu e a equipa de design escolhemos aquela. Não é a minha preferida, mas está tudo bem.

Aposto que adoraste vê-la ampliada para 12 polegadas.

[Risos] As pessoas traziam-me o vinil para eu assinar e eu só pensava, “oh, Deus, outra vez isto não”. Adoro a capa [do Something Like a War], sinto que representa muito melhor a energia do longa-duração. 

Ao mesmo tempo, consigo ver uma lógica comercial em que, provavelmente, vendes mais discos se colocares na capa um logótipo fixe, ou uma belíssima ilustração — torna-se aquela coisa que as pessoas põem na prateleira, ou partilham nas redes sociais por ser abstracto ou diferente. Alguém que seja um pouco homofóbico ou fique desconfortável com androginia não vai comprar o meu segundo álbum: se não conseguem aguentar a capa, não vão aguentar a música, e não virão aos concertos nem integrar a comunidade [que represento]. O público que me recebe é cada vez mais aberto, provido de boa energia, diverso em género, sexualidade… Fico feliz, porque até essa má capa me ajudou a aproximar-me daquilo que estou a aprender.

Falas de género e sexualidade, tal como frequentemente discutes a tua história familiar com racismo e o apartheid sul-africano. Admites que nunca irás ficar de braços cruzados perante situações de preconceito, e a tua música une uma comunidade confortável com as suas identidades ou em processo de as encontrar. Todavia, a tua mensagem não é combativa, prefere tratar as coisas de forma suave — à semelhança do que Solange fez no álbum A Seat at the Table (2015).

Acho que, em parte, aprendi isso dela; vi esse processo acontecer em tempo real. O mundo em si é uma luta constante e exaustiva, nomeadamente para quem é mais marginalizado. Se quiseres, podes discutir algumas dessas problemáticas na tua música e cogitar soluções para este panorama. Eventualmente, se a tua música parecer o telejornal, por ser um catálogo de tudo o que é cansativo e assustador, provavelmente não vais ajudar as pessoas a sentirem-se muito melhor. Tentei abordar esses assuntos mais metaforicamente, para não ser tão perturbador como ler um livro, um artigo, ou ouvir as notícias na rádio. É esgotante estar politicamente activo. Não obstante as tuas boas intenções, acabas com um Brexit ou um Trump. É um momento engraçado.

Não acredito em ser explicitamente cínico ou usar na música — algo que se imagina puro e feliz — os mesmos truques sujos. Por outro lado, a situação muda de figura na política e na sociedade. Especialmente no Reino Unido, aquilo que se vê são vilões a jogar sujo, a manipular tudo e a esmagar-nos com os seus slogans e artimanhas. É impossível ser-se ingénuo ao ponto de achar que uma cara sorridente e um bouquet de flores vão combater esta energia. 

Como disse, não incorporaria esta luta na minha arte, mas torna-se necessário ser duro na vida real. O Brexit foi um exemplo de derrota; não lutámos o suficiente desde o início. Vejo o mesmo a acontecer com a próxima eleição nos EUA. Os homens de fato e gravata não vão seguir as regras, nem ser educados sobre o seu uso de linguagem e táctica. Se conservares esta mentalidade de há 100 anos, de que a democracia funciona sempre e a política é sempre imaculada, dás o teu aval para seres explorado. Espero que endureçamos um pouco, para oferecermos a todos estes cabrões uma resistência mais expressiva.

Adoptaste o teu pseudónimo após teres sido ridicularizado por um blogger, em meados da década passada. Podemos traduzi-lo para bondade — foi sempre um instinto natural para ti, ou foi-se tornando mais útil com o passar dos anos?

Posso retroceder à minha adolescência: quando era mal comportado, aferia que as palavras fortes exerciam muito poder, ao engrandecer uns e diminuir outros. Depois de seis meses no liceu a ser um asno, percebi que isto não me dava bom karma, nem bom futuro. Só porque podes mudar o mundo pela forma como falas, não significa que o devas fazer, muito menos para o mal. Ajudou ter sido um pequeno monstro, para perceber que tens que agir de outro modo, caso contrário não consegues viver em paz contigo mesmo.

Foi assim que retorquiste ao ódio na Internet: a mostrares que estás acima disso. Pelo menos esses dias já acabaram, e o nu-rave também.

[Risos] Pediram-me uma entrevista para um livro sobre a música de guitarra nos anos 2000. Ainda estou a decidir se a faço ou não. Reitero: a palavra tem poder e não sei se quero difundir tanta negatividade.

Quanto a seres intransigente em questões de ódio e preconceito, penso também sobre o que é ser-se não binário. Como é ser um artista que, por definição, já tem de lidar com uma série de questões práticas — e ainda ter que enfrentar os desafios suplementares de ter uma identidade que alguns têm dificuldade em reconhecer? 

Não sei. Honestamente, só posso falar da minha experiência pessoal, e tenho colaboradores para quem o mundo é um lugar muito mais injusto e debilitante. Sinto-me grato, porque sempre pude fazer a minha música como quero, e nunca tive de ser nada mais que isso. Pode ser frustrante de vez em quando, mas recompensador em igual medida. Não poderia ser eu próprio se tivesse uma profissão regular ou se fizesse parte doutro tipo de equipa. É estranhíssimo dizê-lo, mas eu sou o patrão; a minha equipa trabalha para mim. Tem sido bom.

Tem-se tornado mais normal dizer à tua equipa da indústria musical algo como “estes são os meus pronomes, por favor não se enganem”. Em geral, as pessoas são respeitosas, o que é uma surpresa agradável, mas talvez não tivesse sido assim há cinco anos. 

Uma mudança gradual, mas bem-vinda, que registas ao longo de anos de experiência. Tens um historial extenso de colaboradores, transitaste de uma grande editora para uma chancela independente, tudo enquanto definias o teu som. Há algum aspecto desta espécie de estrelato alternativo que ainda não possas discutir a nível de doutorando?

Todos! Não sei. Seja actuar ao vivo, refinar as imperfeições, trabalhar na tua dança — vais melhorando com o tempo. As pessoas mostram-se meigas e benevolentes, dispostas a chegar a um acordo [para te ajudar], porque conseguem ver as boas intenções por detrás. É algo de que estou a desfrutar. Provavelmente seria difícil começar uma carreira próxima da perfeição, eu não saberia para onde ir posteriormente. Fizemos um artigo da Saint Heron sobre o Voodoo, [o segundo álbum] do D’Angelo: o meu depoimento foi a lamentar a situação dele, porque não sei como seguir um álbum perfeito. Não sei o que fazer depois.

Bem, ele acabou por fazer outro álbum perfeito, 14 anos depois…

Além dos elogios por todos os músicos vindos de todos os géneros, e daquilo que as revistas escreviam, ele parecia um atleta e era um sex symbol. Deve ser tão desafiante entregar um segundo álbum que é perfeito, ao mesmo tempo que estás no pico da tua forma física. E a voz dele é perfeita. A mestria musical dele é soberba. O que é que pode vir a seguir? Parece-me que é melhor almejar a perfeição e não chegar lá do que realmente consegui-la. Esta é a parte da viagem que podes saborear: sentires que estás a fazer algum progresso incremental em direcção a algo. 

Se o Voodoo é um objecto unânime de aclamação, ainda nenhum dos teus álbuns foi universalmente reconhecido assim — embora cada novo disco tenha tido uma recepção mais favorável. Pensas nisso?

Tento não pensar nisso, visto que não é o motivo pelo qual faço o que faço. De qualquer forma, o que poderia eu fazer? No seguimento do que conversámos sobre o D’Angelo: toda a gente veio em massa dizer que estava apaixonada pelo disco, que era uma obra de arte. [Se me acontecesse], eu debater-me-ia muito para gravar o álbum seguinte. Mesmo que não fosse verdade, talvez eu concordasse: “Têm razão. Fizeste o melhor LP que conseguias: foi tão inteligente e bem desenhado, tudo correu sobre rodas. E agora?”

No meu caso, posso dizer que estou contente por estar nesta viagem que, por vezes, as pessoas entendem. A certo nível, é positivo que nem toda a gente te entenda, porque nem toda a música deve comunicar a todos. Continuemos. Se ocorrer que todos exclamem “Viva! Álbum perfeito!”, talvez eu morra. [Risos] Mas acho que também é perigoso. Não li nenhuma crítica [do meu disco], nem sei o que dizem. Tinha-o feito para o meu álbum de estreia e, depois, bati um bocado mal. Decidi que não era boa ideia.

A minha perspectiva é a do crítico que ouve e estuda a obra, mas imagino que seja atordoante ter um bando de nós a esmiuçar algo que fizeste. Acaba por ser benéfico haver alguma empatia de ambos os lados da barricada.

A crítica musical também mudou. Talvez há muito tempo ser jornalista musical fosse um emprego para a vida toda, quando todas as cidades tinham uma revista poderosa sobre, digamos, hip hop, que pagava à redacção. Os jornalistas tinham experiência e reconhecimento; havia publicações sobre rock que eram respeitadas e cuidadosas com a música que cobriam. Tudo isso está em mudança.

A cultura musical e jornalística migrou predominantemente para o online. Mirrou, tornou-se mais barulhenta, foi formatada para competir, ser mais engraçada, controversa e partilhada nas redes sociais. Vejo imensos jornalistas musicais que sinto trabalharem pelos motivos correctos, porque se preocupam verdadeiramente com a cultura e querem documentá-la. Mas nenhum desses jornalistas está a ser pago adequadamente. Quando o ofício de documentar música se torna quase uma profissão voluntária — as pessoas fazem-na sem conseguirem viver dela, sem poderem pagar a renda —, toda a gente sofre. Deixas de te poder dedicar a isto por 20 anos, aperfeiçoar as tuas capacidades, ter tempo e espaço para ouvir a música convenientemente, como antigamente.

Mesmo que haja algum mau jornalismo ou más críticas, às vezes penso cá com os meus botões que não é uma altura fácil para escrever sobre música. Daí que seja necessário ter empatia com as pessoas, que estão numa situação delicada.

Fiquei desiludido: decidiste falar de empatia em vez de kindness [bondade]…

Tendo a não usar muito essa palavra. [risos] É um bocado estranho.


ReB Team

ReB Team

Facebook.com/rimasebatidas
Twitter: @rimasebatidas
Instagram: @rimasebatidas
SoundCloud.com/rimasebatidas
YouTube.com/c/rimasebatidas
Mixcloud.com/rimasebatidas
ReB Team