LP / CD / Digital

Kim Gordon

PLAY ME

Matador Records / 2026

Texto de Filipe Costa

Publicado a: 20/03/2026

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Ao terceiro disco a solo, Kim Gordon prega mais uma rasteira e devolve-nos um trabalho que é um triunfo contra a ortodoxia, um dedo do meio erguido ao idadismo. A “rapariga da banda” (ex-baixista dos Sonic Youth, conjunto que integrou até à sua dissolução em 2011, na sequência do divórcio com Thurston Moore) continua a alimentar o mito com novas camadas de autoridade e insolência artística e tem em PLAY ME, o terceiro capítulo de um impressionante processo de reinvenção, uma verdadeira declaração de intenções. 

Sem constrangimentos nem mordaças, trata-se do álbum mais cru, direto e politizado da artista, marcado pelo mesmo desplante e humor ácido que lhe conhecemos. Pode não configurar uma ruptura com o passado, é certo, mas é muito mais do que um mero reflexo dos seus antecessores. As diferenças surgem desde logo na faixa-título, que inaugura o disco com uma triunfante secção de metais apontados aos céus, montada sobre um groove solto que não ficaria deslocado num clássico de jazz-rap. O recurso às linguagens contemporâneas do hip hop, fruto da colaboração com Justin Raisen, que já havia assinado a produção do anterior The Collective (2024), voltam a surgir aqui em destaque, mas raramente as escutamos assim, com um pendor tão clássico. É sol de pouca dura, porém: “Girl With a Look”, logo a seguir, entra com um pulso motorik que se repetirá várias vezes ao longo do disco, alinhando-o novamente à matriz rock abrasiva de No Home Record (2019), sem esquecer os caminhos trilhados com o guitarrista Bill Nace nos experimentais Body/Head. Preservam-se as batidas pugilistas, os ritmos cavalgantes, os riffs de guitarras metalizadas.

Há uma atenção redobrada à melodia, evidente em temas como “Not Today”, em que uma despretensiosa guitarra indie convive com o compasso eletrónico da bateria, oferecendo um dos momentos mais cândidos da artista. “Subcon” é toda distorção e ruído digital, cortando no nervo dos primeiros discos para lhes adicionar camadas copiosas de low end. “Dirty Tech”, um dos singles de PLAY ME, serve-se dessas mesmas frequências gravosas para erguer um monumento de trap processado. 

No essencial, PLAY ME move-se num território de fricção feito de texturas ásperas, ruído industrial e uma eletrónica de recorte punk que ora namora o trap, ora mergulha no ridículo da civilização (ou o que resta dela). Deixemos o mundo arder, vaticina em “Black Out”, sobre uma torrente de címbalos sincopados. Por essa razão, trata-se do álbum mais inflamado da artista. Corroído pelas aflições dos tempos, tudo aqui é verve, confronto, ironia; slogans são cuspidos com determinação, farpas são disparadas com veneno — sem subtilezas. É nesse lugar de tensão, entre a decadência e a lucidez, entre o sarcasmo e a urgência, que reside o encanto do seu novo disco. 

Na mira de Gordon estão tecnocratas, elites económicas e os senhores do ultracapitalismo, com a artista a expor os podres da masculinidade tóxica, da propaganda fascista e das promessas redentoras das novas tecnologias, com os algoritmos e as inteligências artificiais à espreita pelo retrovisor. Fá-lo em tom sarcástico, quase caricatural, transformando frases em slogans, repetindo palavras como mantras ou graffitis sonoros, como atesta a renovada “BYEBYE25!”, original de The Collective que agora passa a incorporar o índice de palavras que Trump tentou banir dos sites federais norte-americanos.

Há raiva, humor e poesia em PLAY ME, o endiabrado novo álbum de Kim Gordon. E há, sobretudo, a sensação de que, no meio do caos, ainda há quem se recuse a ceder ao colapso, com charme e inteligência férrea.


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