LP / CD / Digital

Killer Mike

MICHAEL

Loma Vista / 2023

Texto de Rui Miguel Abreu

Publicado a: 21/06/2023

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Killer Mike é um tipo singular: começou por se mostrar ao mundo com algumas barras em Stankonia dos Outkast, mereceu shout out de Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly, mas não tem placas de platina a adornar as paredes da sua casa em Atlanta; tem sido voz activa na condenação da violência policial, mas também se tem manifestado contra a “cultura woke”; apoiou o candidato presidencial democrata Bernie Sanders, mas dá-se bem com o governador republicano da Georgia Brian Kemp. O rapper que conquistou a pulso audiências globais como metade do incansável duo Run The Jewels tem perfeita consciência das suas complexidades e imperfeições: “Não são obrigados a escolher só um lado meu”, explicou ele à The Atlantic. “Comigo tanto vão à igreja como ao Blue Flame”, rematou, referindo-se a um notório clube de strip da sua cidade natal. Essa ideia surge de forma explícita na capa de Michael, o seu novo álbum a solo, que exibe uma foto sua da adolescência que o mostra com uma auréola de santo e uns chifres de diabinho. Michael Santiago Render, afinal de contas, é como todos nós.

Vinte anos depois da sua estreia com Monster e sucedendo finalmente ao aclamado R.A.P. Music, trabalho que o colocou ao lado de El-P em 2012 dando origem à já mencionada dupla que rocka festivais em todos os continentes (ou quase…), o novo Michael conta com produção executiva (e efectiva em boa parte do alinhamento) do mesmo No I.D. que abençoou grandes títulos nas discografias de Common, Kanye West, Vince Staples, Big Sean ou Jay-Z. Ou seja, Killer Mike quer neste momento presente da sua carreira impor um registo diferente. E tudo, pois claro, porque quer também mostrar uma “voz” diferente: mais reflectida, mais frágil, mais íntima. Mais imperfeita. Ou seja, mais humana e certamente mais relacionável.

Musicalmente, isso significa, nem mais, combinar o tom devocional do gospel que todos os domingos eleva espíritos nas igrejas baptistas do sul e o ribombar das 808s que às sextas à noite serve de banda sonora aos corpos que se desnudam nos varões: No I.D. preparou para isso uma equipa de peso com o organista Warryn Campbell e ainda Jason McGee & The Choir a garantirem a autenticidade gospel, mas também com uma panóplia de produtores que se estende, em diferentes combinações, por nomes como Cool & Dre, DJ Paul, Honorable C.N.O.T.E., Beat Butcha, El-P com Little Shalimar, Don Cannon e até, num subtil apontamento num dos temas em destaque – a notável “Scientists & Engineers” – um tal de James Blake.

A essa verdadeira armada no plano instrumental há ainda que adicionar a constelação de estrelas que desfila nos glamourosos feats: CeeLo Green, Mozzy, o aprisionado Young Thug, 6LACK e Eryn Allen Kane, Jagged Edge, Ty Dolla $ign, Curren$y, 2 Chainz e Kaash Paige, Blxst, Fabo, El-P e ainda, no já mencionado “Scientists & Engineers”, a realeza de Atlanta – Future e André 3000, aqui numa curta pausa nos seus estudos de flauta de bambu no Japão.

As contradições são claras e não se disfarçam em Michael: se em “Talk’n That Shit!” Mike ataca os que o acusam de não ser suficientemente woke, em “Shed Tears” lamenta a imaturidade dos seus tempos de juventude e questiona o tratamento a que as mulheres são sujeitas; depois, em “Run” exalta a honestidade acima da perfeição, em “Slummer” lamenta a inconsciência juvenil que o levou a engravidar uma namorada que abortou e em “Motherless” evoca a memória da mãe e da avó, deixando claro que o que conquistou a elas se deve – “a Black boy born to a teen mama, mama / Gets regarded as a leader by his people, mama”, chora ele, com justificável orgulho. 

E ainda há espaço para mais oblíqua experimentação verbal na já duplamente mencionada “Scientists & Engineers”, tema em que há fogo de artifício lírico do mais alto calibre: sobre instrumental que soa como se tivesse sido cozinhado a bordo de um laboratório na estação espacial, Mike, que se compara a Thelonious Monk, cospe “Music, computers and robbers and looters /And looters with shooters, and shooters with Rugers” enquanto Three Stacks activa a função Confúcio nos seus neurónios rimáticos para, num verso em que cita Duke Ellington, nos dar um nó no cérebro com “Operator, operator, I would pray that you connect me to a sip / Of sangria, Zambia, camera cameo, hand me a handful of hips / A stamina stampede of happily happenings, dabblin’ into obliv-ion, neon, beyond the ambiance”. Está certo.

É na abertura de Michael, na intensa “Down By Law”, que se expõe o manifesto para este álbum: Killer Mike diz que a sua gente desistiu de Deus, mas também que Deus se calhar desistiu do seu povo. E depois, referindo-se a essa entidade superior no feminino, remata: “Maybe She angry we worshippin’ all these false idols, so devils / just preyin’ on us”. E após declarar que se move como Malcolm e Martin (o yin e o yang, uma vez mais…), Michael deixa tudo em pratos limpos: “Bless all the felons that handled the raw / Fuck all the tellers that ran to the law (Hey) /Watch out for the hitters with sticks in the car / My name is Michael, I’m down by law”.

Killer Mike não está nem a tentar ser perfeito nem as esconder as falhas. Ele sabe que a única coisa que pode oferecer à comunidade é a sua verdade e isso implica mostrar-se como é por inteiro, um homem que admite em “Two Days” que é evidente que se comporta melhor quando sente que tem o mundo inteiro contra si e pensa que é impossível vencer. Quando a dor é real, a arte magoa. Michael não é o melhor disco que vão ouvir este ano, mas é bem capaz de ser o mais honesto e transparente. E isso também conta para alguma coisa.


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