LP / CD / Digital

Khruangbin

Mordechai

Dead Oceans / Night Time Stories / 2020

Texto de Miguel Santos

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Planos para sábado à noite? Jogatana de póquer. Calhou-me a função de atribuir uma banda sonora ao grémio (vá-se lá saber porquê…). A mente viaja pelo arquivo musical de tonalidades e melodias que se podem adequar ao momento. Não é uma tarefa fácil: é preciso agradar a gregos e troianos, e a boa música ambiente tem tanto de se camuflar na atmosfera como de interromper o diálogo com um “o que é isto?” curioso. A mente aterra em Khruangbin e o seu novo álbum Mordechai. Ouvimos o brilho dos primeiros segundos da pacata “First Class” e as cartas são distribuídas pela mesa.

Os Khruangbin são um grupo de Houston composto pela bem-sucedida e replicada trindade do baixo, guitarra e bateria, e criam atmosferas sónicas que nos remontam a uma cave psicadélica, rock esparso e perfumado pelo dub. São descritos pela sua mescla de influências, ritmos que confluem na banda, que encontra inspiração pelo mundo fora, seja num piscar de olhos ao funk do sudeste asiático em The Universe Smiles Upon You ou na sonoridade inspirada pela música iraniana e francesa de Con Todo El Mundo. Em Mordechai, o trio acrescenta mais voz às suas composições, como demonstrado pela repetitiva “Time (You and I)”. “That’s life” ouve-se pela décima primeira vez enquanto perco num bluff que me correu mal. 

As coisas melhoram para mim e para os Khruangbin com “Connaissais de Face”, a sua guitarra solarenga captura o sentimento ideal de ganhar duas mãos de seguida. O tom do diálogo que se ouve parece saído de um tema de Ariel Pink e a música embala-nos com o seu encanto, antes do álbum travar a fundo com “Father Bird, Mother Bird”. Depois da intensidade anterior, é uma parede rija que abafa o ímpeto que o projecto carregava, um tema que solto se adequaria perfeitamente a uma qualquer das infinitas playlists de Spotify de música ambiente. Aqui, aterra como um balde de água fria pior do que perder para um par de três.

“Pelota” fez-me acreditar que ainda conseguia ganhar aquele jogo de altas paradas (naquele momento estavam cinco euros na mesa!). O baixo roliço, a guitarra frenética que parece derreter-se em cores à medida que acelera, a bateria impecavelmente em sintonia com os outros dois instrumentos, tudo isto se conjuga e cria uma energia fenomenal. A sua ginga absolutamente incrível e dançável carrega qualquer situação para a frente. Somos todos pequenas bolas de fuligem à deriva pelo planeta, e este tema voraz e exímio consegue capturar a folia que surge inevitavelmente dessa epifania. E finalmente chega o meu último e derradeiro all-in. Digo adeus ao pódio com um dos destaques deste álbum: ouve-se em “So We Won’t Forget” o jeito reconfortante e agridoce com que os Khruangbin nos pedem para nos lembrarmos, “perfeitamente” adequado ao final de um jogo de póquer para esquecer.

Faltou-me inspiração, cabeça fria, alento e engenho na tomada de decisões. A Mordechai também falta isso, mas não é um mau álbum. É um trabalho maioritariamente inofensivo, entra por um ouvido e sai por outro tão rápido como os 10 euros saltaram da minha carteira. Pelo meio, algumas mãos vencedoras como “Pelota” ou “So We Won’t Forget”. Mas decisões descabidas como a bocejante “If There is No Question” ou o desastre derivativo e desafinado que é “Dearest Alfred” custam o jogo, e só tiram valor a um produto final que já não tem muito para oferecer. Não se ouviu um “o que é isto?” curioso, não encantou gregos ou troianos. Salvos alguns riffs palpitantes e break sumarentos, naquela noitada de póquer Mordechai manteve-se colado à parede, sem deixar mossa.   


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