Key & Cleary // Love Is The Way

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Em 2012, Dante Carfagna idealizou e editou, com selo da Chocolate Industries e distribuição da Numero Group, Personal Space (Electronic Soul 1974 – 1984), excelente compêndio de soul gravada em caves e garagens por tipos que procuravam contornar a falta de meios com caixas de ritmos, sintetizadores primitivos e microfones da Radio Shack.

O tom lo-fi da música de gente como Jeff Phelps, Guitar Red, Starship Commander Woo Woo, Steve Elliott ou USAries não impedia que se vislumbrasse uma visão colectiva feita de sonhos, mas esmagada pelo peso de uma indústria que no mesmo período impunha ao mundo os fenómenos dos Jacksons, Marvin Gaye ou Stevie Wonder, entre outros nomes de primeira linha. O que Personal Space revelou foi uma história secreta de gente com talento e sem ferramentas, com canções, mas sem ouvidos que as escutassem. A dupla Key & Cleary, que agora merece um volume na excelente série Reserve da Now Again de Eothen “Egon” Alapatt, também foi incluída no alinhamento de Personal Space com o tema “A Man”, um autêntico hino de afirmação de orgulho negro.

Antes de Personal Space, porém, logo em 2008, já o mega-clássico “What It Takes to Live” (um clássico valorizado por coleccionadores de disco, modern e northern soul cuja edição original na etiqueta Buffalo’s Reflection troca de mãos por valores próximos dos mil euros) era recuperado pela Soul Cal, selo ligado à Stones Throw que era então gerido por Egon. Em 2012, no mesmo ano da edição de Personal Space, o mesmo tema foi incluído no alinhamento da igualmente excelente compilação Soul Cal: Disco & Modern Soul 1971 – 1982 que agregava, agora já como parte do catálogo da Now Again, vários dos maxis lançados no selo do mesmo nome alguns anos antes.

Gente como Dante Carfagna e certamente Egon tem essa capacidade de investigar com apurada precisão as rachas da história que escondem fragmentos de memória que o tempo tratou de afastar das crónicas que firmam as grandes discografias dos diferentes géneros. São investigadores como eles que conseguem lançar luz sobre obscuras produções – e tomando-se o caso da Now Again Reserve e das suas luxuosas reedições, pode falar-se num esforço de recuperar pérolas esquecidas que se estendem do universo do rock psicadélico ao jazz mais libertário – e reenquadrá-las num presente que beneficia do conforto de uma perspectiva ampla sobre a história da música. Em 2018 parecem já restar poucos segredos, mas a verdade é que Love Is The Way confirma que o passado ainda esconde muita música incrível que o presente merece ouvir.

 



Jessie Key e Sylvester Cleary conheceram-se em Buffalo, cidade do Estado de Nova Iorque. Key tinha migrado para norte vindo dos campos de algodão do Mississippi em busca de estudos que lhe permitissem singrar na vida. Quando encontrou Cleary, rezam as fantásticas notas documentais que acompanham este álbum e que têm a assinatura dupla de Egon e John Adamian, Jessie Key descobriu um amigo que partilhava a sua visão de usar a música como um veículo para despertar e elevar a sua comunidade. Buffalo, como de resto a América, vivia imersa em problemas e à entrada dos anos 70 ainda se curvava sob o peso de um sistema escolar segregado.

O primeiro single que editaram, inspirado no clássico “I’m a Man” do Spencer Davis Group, era um autêntico manifesto, carimbado por dois amigos que viam a sociedade negar-lhes todas as tentativas de superação – Key e Cleary tinham formado uma empresa de construção, a primeira de Buffalo controlada por empresários afro-americanos, que não conseguiu singrar por ver constantemente as suas candidaturas a trabalhos solicitados pela autarquia negados. A letra é um grito de revolta claro:

“My muscles are of steel
my mind of complex computers
daily I struggle for understanding
And daily I grieve to be understood
I’m a man
that’s all I am
My skin is black
Still my blood is red
my lips are wide
still my heart is pure
nothing more
nothing less
just a man
I’m a man
that’s all I am
Hate me
sure I’ll cry
hate the ones I love
sure I’ll die
nothing less
nothing more
just a man
with a pure heart inside
I’m a man
that’s all I am
I need to be loved
I need to be free
trying to do my part
to change society
I’m a man
I’m a man
that’s all I am
life is constant pressures
life is constant pain
do your best to help mankind
they think you’re playing a game
I’m a man
just a man
still the same”

Lançado na Mark Custom Records, basicamente uma etiqueta propriedade de uma fábrica de discos usada para pequenas prensagens de autor de clientes que não tinham meios para estabelecer o seu próprio selo, “A Man” vivia do pulsar de uma caixa de ritmos, “provavelmente uma Roland”, de acordo com Cleary. O músico explica nas notas de capa que a dupla poderia ter requerido os serviços de um baterista – “mas nós sabíamos que só precisávamos de uma batida” – mas na precisão do padrão disponível no preset da caixa de ritmos, Key e Cleary encontraram o suporte ideal para palavras que tinham tanta urgência que só poderiam mesmo – acreditavam eles – mudar o mundo.

 



O mundo, claro, continuou a rodar. Mas nesta colecção agora mostrada ao mundo pela Now Again há temas – recuperados de cassetes que o grupo foi gravando durante toda a década de 70 – situados algures entre a soul e as harmonias de tons folk da dupla Simon & Garfunkel, ecos de country e aproximações ao disco – como na já citada e fabulosa “What It Takes to Live” (versão alternativa de “(I’ve Learned Now) What It Takes To Live” pela Chosen Few Band, que chegou a ser prensada, mas que também não vingou) – que mostram bem que a produção ecléctica da dupla procurava responder ao que ambos ouviam na rádio na época, tentativas de furar que nunca resultaram.

Esta música, preservada assim mesmo num formato ingénuo, tecnologicamente insuficiente até para os padrões da época, com arranjos económicos que traduziam na perfeição a falta de meios com que se debatiam para fixar as suas ideias, possui, ainda assim, uma honestidade desarmante e traduz o sentimento de uma larga amostra da América: a ideia de que os sonhos podem transportar as mentes criativas. E se bem que por vezes isso possa de facto acontecer, a verdade é que a música de incontáveis artistas como Key e Cleary ficou muitas vezes confinada às caixas de saldos de pequenas lojas locais que foram funcionando como depósitos de memórias falhadas nas grandes cidades americanas. Isto, claro, quando logravam ser prensadas em vinil. Porque neste nível de arqueologia, gente como Egon ou Carfagna já nem se limita a pesquisar o que sobreviveu em vinil, encontrando em sótãos e caves caixas de sapatos com fitas e cassetes que na maior parte das vezes podem não revelar nada que mereça erguer-se acima desse formato, mas que pontualmente resguardam pedaços de luz intensa, arremedos de génio que o mundo merece ouvir, 20, 30 ou 40 anos mais tarde.

É esse claramente o caso do material agregado em Love Is The Way, uma comovente colecção de canções feitas de declarações de amor e de apelos à elevação, canções que respondem à sua vontade de deixar uma marca no mundo, mas que raramente ultrapassaram as cassetes em que eram gravadas, noite fora. Canções como o belíssimo instrumental “Storm of 77”, que mostra a dupla a procurar reagir a uma rigorosa tempestade de inverno, ou como a ingénua “Young People”, balada suportada por padrão simples da caixa de ritmos, baixo e guitarra e uma harmonia entre as duas vozes que parece apontada directamente aos corações de quem os quisesse escutar.

Este é o material que, como explicava DJ Shadow no segmento do documentário Scratch em que é entrevistado na cave da loja que forneceu o cenário para a fotografia de capa de Endtroducing, foi impresso em discos que resistiram ao tempo em poeirentos depósitos de “sonhos quebrados”, de expectativas frustradas. Recuperar esse material com a dignidade com que uma série como a Now Again Reserve trata cada uma das suas edições é um gesto de evidente justiça poética, mas também uma forma alternativa de olhar para a história que, dizem os compêndios, é sempre escrita pelos vitoriosos. Mas por vezes merece ser recontada por quem perdeu todas as batalhas. Como a dupla de Buffalo, NY, Key & Cleary.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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