Kevin Richard Martin: uma sirene que grita em silêncio

[TEXTO] Beatriz Negreiros [FOTO] Direitos Reservados

Para quem defende que Kevin Richard Martin é um mestre, contra-argumentamos que o segredo para uma carreira saudável e efervescente que já se estende para além de duas décadas é colocar-se sempre na posição de aprendiz. A escola do músico, produtor e jornalista britânico radicado em Berlim começou cedo, em visitas de estudo frequentes às bibliotecas musicais que se apresentavam sob a forma de pequenas lojas de discos na sua natal Weymouth, na pacata cidade de Dorset. Uma delas, Handsome Dick’s, apresentou a um jovem Kevin Martin a primeira dose de bibliografia obrigatória: a angústia soturna de Joy Division, a raiva intimidante de Sex Pistols, a loucura desenfreada de Captain Beefheart. Tudo materiais de estudo essenciais que penetraram o inconsciente do rapaz tímido e frustrado com a escola, a família e a “monocultura conservadora inglesa” (viviam-se dias cinzentos no Reino Unido no governo Tatcher) e que injectaram cada um o seu pequeno contributo na estranha música que Kevin Martin começou a fazer no abrir da década de noventa. Não há um projecto igual ao anterior, e as mutações camaleónicas de género, ambiência, intenção e forma tornam complicada a tarefa de responder à pergunta: “mas afinal quem é Kevin Richard Martin?”

Até agora, muita coisa, mas sobretudo The Bug, para muita gente — personagem que assumiu enquanto nome próprio na proa de discos como Tapping The Conversation (o primeiro, de 1997), Pressure (de 2003) ou o mais recente, Concrete Earth, que o vê a colaborar com os gigantes Earth, lançado há dois anos. Também se encarregou de içar as velas para as travessias violentas de GOD, grupo lunático de jazzcore, que o apresentou a Justin Broadrick, mais um estudante dedicado dos limites do ruído e do ritmo que o acompanhou em Ice e em Techno Animal. Ao todo, contam-se 17 álbuns. Seis de The Bug. Nenhum de Kevin Martin. Até agora.

Mas quem é, afinal, Kevin Martin? O seu mais recente projecto, Sirens, lançado no último dia de Maio através da Room40, talvez desvende um vislumbre de resposta. O facto de se apresentar pela primeira vez como um autor de primeiro e último nome é a primeira pista e também a mais fácil. A partir daí, torna-se complicado: Sirens é o primeiro exercício assumido de ambient por parte de The Bug, que, até agora, se dedicava a amedrontar os tímpanos dos seus ouvintes com percussões e batidas explosivas e baixos avassaladores. Desde o seu hip hop industrial energético em “nome próprio” a colaborações que revelavam uma veia bem mais anárquica — como a brutalidade dos praticamente extintos GOD –, Kevin Martin sempre se apresentou como tendo o toque mágico para transformar qualquer álbum numa bomba atómica. Mas, apesar do título enganador, Sirens é surpreendentemente plácido, nas suas 14 faixas que parecem flutuar como bolas de sabão sonoras, com toda a sua discrição silenciosa. Quem fala mais baixo é quem se quer fazer ouvir, não é? 

A sua capa, simultaneamente gélida no seu preto e branco e morna na delicadeza do seu conteúdo, exibe um momento feito estátua pela lente da objectiva: uma mãozinha recém-nascida que se agita sob as mãos do progenitor. O pai Kevin Martin. O homem, não a lenda The Bug. Talvez seja por isso que tenha aberto o jogo para o baptismo do mais recente projecto, dando-lhe o seu próprio nome pela primeira vez. Diz-se que com a paternidade vai-se o medo, a inquietação. Uma nova vida repousa-lhe nas mãos: apresenta-a ao mundo quase em simultâneo com a banda sonora que afirma ilustrar um período particularmente forte da sua cronologia pessoal — o do difícil e conturbado parto do primeiro filho, cuja curta infância já teria sido alvo de duas intervenções cirúrgicas de emergência, envenenando o já intenso processo de respirar nova vida com o medo de a ver ser levada. Sirens apenas poderia ser assim: uma materialização de ansiedade já cansada que nos chega através de uma neblina de som longínquo.

Surpreendido pela crueza de Sirens ficou Lawrence English, compositor australiano e fã assumido do trabalho de The Bug, que lhe deixa um texto bonito para acompanhar a escuta no Bandcamp. Conheceu o disco primeiro que muita gente, como se deve prezar qualquer aficionado: em 2015, na lendária discoteca berlinense Berghain, foi primeiro assaltado por uma onda de baixos que lhe ofuscaram a visão devido ao tremor das suas órbitas, que “vibravam como nunca”. Depois, foi deitado por terra pela envergadura emocional asfixiante dos temas que relatam sem palavras o pânico associado a um parto e primeiros dias de vida tumultuosos de um bebé frágil e doente. 

Sirens é, sobretudo, frágil: se outros projectos acima referidos exibiam a força bruta de um touro, Sirens emana a delicadeza de uma gota de água que escorrega incerta por um caminho de vidro. É chamado um disco de ambient, talvez o mais assumido do músico britânico até à data — ele que já havia permitido que os silêncios carregados típicos do género fizessem pequenas aparições no seu processo criativo. Brian Eno, o pai do género musical, cunhou-o em tempos como música “tão ignorável como interessante”. Sirens é indiscutivelmente interessante, mas dificilmente ignorável: desde o negrume de “There Is A Problem”, pontuado pelas notas cintilantes de um trémulo sintetizador, à intensidade de “Kangaroo Care”, que nos parece chegar pelo meio de uma escuta de sonho acordado, sustemos a respiração até à finalmente serena “A Bright Future”, e de repente não escutamos apenas a jornada de dor silenciosa de Kevin Martin, mas vivemo-la. Como os melhores contadores de histórias que escolhem o instrumental como veículo narrativo, Martin abre-se demoradamente em cada penoso detalhe, em cada dolorosa sensação, em cada lágrima e gota de suor derramada, e conta-nos tudo ao mais ínfimo detalhe até que fiquemos mal-dispostos, sem dizer uma única palavra. 

Toda a carreira de Kevin Martin é especial. Kevin Martin é especial. Mas Sirens talvez seja um dos seus álbuns mais especiais de todos, digno de não ser esquecido por entre dezenas de outros projectos mais barulhentos e chamativos. Não pode não ser discreto, mas também não deve ser ignorado, como defenderia Brian Eno. Porque em Sirens, Kevin Martin, o eterno aluno brilhante, convence mais uma vez à nota 20, descobrindo ao fim de 20 anos de carreira como é que se conta uma história sem falar alto.


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