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Kayla Painter: “Mundos pós-apocalípticos e futuros distópicos inspiram-me muito”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Direitos Reservados

À luz do recentemente lançado Cannibals at Sea, Kayla Painter surgiu no radar e destacou-se entre as dezenas de lançamentos semanais que inundam as plataformas de streaming. Nos últimos dois anos, a artista inglesa editou projectos com regularidade, mas o novo EP é o seu registo de estúdio mais ambicioso. Ter sido seleccionada para o projecto Future Bubblers, encabeçado por Gilles Peterson, e a rápida reacção de plataformas como Bandcamp a este EP demonstram a crescente atenção na produtora.

Kayla considera redutor afirmarem que faz música electrónica, tendo em conta os métodos de produção que usa — o seu background enquanto saxofonista e baixista “tornou-a” numa multi-instrumentista. Podemos ouvir o saxofone samplado logo em “Sentimental Swagger”, faixa que abre Cannibals At Sea. Há pianos e cordas que trazem o seu lado mais ambiental, um registo encontrado noutros momentos da sua discografia, como no anterior EP Auriga, em que também há vozes sampladas. A artista admite não gostar da sua voz e usa-a apenas completamente processada e com Auto-Tune, como se fosse um instrumento entre os outros. Há também percussão e glitches electrónicos mais exploratórios que nos fazem lembrar Aphex Twin, emptyset ou até Jon Hopkins do tempo de Insides.

A exploração do som e das suas particularidades é-lhe inata. Estudou artes e, actualmente, “exerce” alguma da experimentação sonora num âmbito mais académico, tendo experiência a ensinar na University of South Wales e na British and Irish Modern Music Institute. A sua vertente do design sonoro é sentida neste registo, mas noutros também, já que tem uma componente audiovisual fortíssima ao longo de todo o seu trabalho. Além do seu multi-instrumentalismo, muito do que ouvimos vem de gravações de campo (field recordings). A artista não se fecha em singles e EPs: trabalha constantemente com animação stop motion, instalações artísticas e vídeo.

Além disso, carrega consigo a bagagem de onde opera neste momento: a história da música electrónica de Bristol impõe algum peso, com nomes como Massive Attack, Portishead, Tricky, Nick Warren ou, mais recentemente, KOAN Sound a moldarem a sonoridade da região. No entanto, confessou à Crack Magazine, que se sente dividida no que toca a sua visão da cidade inglesa, que tanto tem da cultura DIY, de experimentar com o som e inovar, como de pessoas bastante reservadas e fechadas a novas ideias.

Voltando a Cannibals at Sea: enquanto “Eating Your Enemies” é mais áspera e obscura e “Greeting Your Enemies” ou “Sentimental Swagger” são mais club-oriented — sem nunca descurar a experimentação –, “Sacrifical Magic” despe-se das percussões e dá mais espaço às cordas para vibrarem, e às vozes para ecoarem. “Kensopia” encerra o EP com uma paisagem serena e natural menos nublada. Grande parte da beleza deste EP encontra-se na diversidade (com coesão) que existe entre os vários ambientes e espaços mentais da sua expressão artística. Hopkins, Olafur Arnalds ou Burial: tomem atenção a Kayla…

Em conversa com o Rimas e Batidas, Kayla Painter teceu algumas considerações sobre o seu percurso, o EP lançado pela Drawstring Records e a influência proveniente do ambiente académico e do cinema.

 



Olhando para Auriga (anterior EP), e outros lançamentos teus, este último aparenta ser um projecto muito mais pessoal, mas também muito mais agressivo. Visualmente, tematicamente e até sonicamente. Podes contar-nos um pouco mais sobre ele?

Isso é bom! Queria afastar-me do meu modo normal de fazer as coisas. Senti que me estava a esconder demasiado tempo atrás da fachada de produtora de electrónica. Além de um dos primeiros singles, nunca apareci no meu artwork, nunca fiz as faixas, nem o conceito da música, tão pessoais. Senti que foi a altura certa para fazer ambas, por isso estava muito virada para representar a minha história e a minha jornada pelo lado visual, sónico e pela estética geral. É por isso que este projecto é mais sobre revelar as minhas raízes, a minha personalidade e explorar a minha ascendência mista e as peculiaridades que a mesma me trouxe. Queria que fosse audaz, uma mensagem do tipo, “isto é quem eu sou” (por muito piroso que seja). Senti que era importante para mim, tendo passado a vida a ponderar o que é o meu som, ou qual a minha direcção, a minha audiência, em que tipo de editora deveria estar, onde a minha música se posiciona… A verdade é que não faço ideia e (finalmente) estou bem com isso!

Normalmente usas a tua voz processada ou samplada na tua música. Já consideraste cantar ou tencionas focar-te principalmente na produção?

Eu não consigo cantar, para ser honesta! Não tenho um tom de voz muito bonito. Uso a voz nos meus samples porque é mais fácil do que ir buscar outro vocalista por cada vez que tenho uma ideia, mas normalmente ponho Auto-Tune na voz!

Eu tocava saxofone e baixo antes de começar a produzir, mas nunca fui cantora. Achei muito fixe quando o recente artigo do Bandcamp foi publicado,e nomearam-me cantora/produtora, sendo que nunca pensei que faria isso acontecer [Risos].

Podemos ver que tens lançado música de maneira relativamente regular. É uma necessidade que tens? Lançar música constantemente?

Passei por um período no qual não podia lançar música, por estar num um acordo de publishing limitador, e tinha muita música e ideias durante esse tempo, portanto queria pôr por mim alguma música cá fora, sendo que me é tão catártico. Além disso, ajuda-me a limpar a cabeça para escrever nova música!

Quero ir tendo mais output agora porque eu gosto mesmo de pôr coisas cá for a, penso. Dá muito trabalho, mas dá-me imenso prazer, e sinto que me está a dar mais confiança para lançar mais música. Este ano lancei dois singles e um EP e, pessoalmente, sinto que é uma uma boa quantidade.

A tua produção é igualmente rápida ou demoras-muito numa música? Conta-nos um pouco do teu processo de composição. 

Depende. Estou a trabalhar numa faixa há três anos! Não por ser uma faixa excessivamente complexa, é só que por vezes demoro anos para terminar uma coisa. Também tenho “bloqueio de escritor” com música.  Portanto, normalmente escrevo quando me sinto inspirada, e isso não vem muito. Mas, quando vem, escrevo tudo de uma vez. Penso que tem muito a ver com a quantidade de sono que estou a ter e com o que se passa na minha vida. Posso ter uma ideia a flutuar no Logic durante um longo período até se tornar nalguma coisa. Outras vezes vou guardando sons sabendo que se vão tornar nalguma coisa mas sem saber o que será durante algum tempo. Semanas, meses, normalmente.

Algumas faixas simplesmente explodem de mim, como a “Keep Under Wraps”. Essa foi mais rápida, foi feita com um par de sessões de estúdio. Assim que tive a ideia, sabia o que queria que ela fosse, e ouve apenas alterações mínimas aqui e ali antes da masterização.

Acho que o meu processo está a evoluir desde que comecei a colaborar noutro projecto. Está a ensinar-me imenso sobre escrever música numa maneira completamente diferente e isso é refrescante! (O projecto chama-se Glaslyn e é mais centrado na pop).

Dando aulas na University of South Wales e na BIIM, como sentes que o teu trabalho enquanto professora mudou a tua perspectiva em relação à tua arte?

Bem, ser professora na University of South Wales fez-me continuar a expandir a minha mente. Ensinei história e ideias. Ddeias filosóficas e abordagens à arte, à vida, tudo o que isso envolve!

Na BIIM é um pouco diferente, é uma experiência educacional duma vertente mais comercial, muito menos no espírito de escola de arte. O que adoro nisso, contudo, é que vejo grandes performances e estou constantemente rodeada de músicos talentosos. Tanto professores como estudantes são muito habilidosos. Aprecio muito trabalhar e aprender com eles.

É um bom trabalho para ter como músico pois, tendo a experiência que tenho, significa que posso manter-me envolvida na música mesmo quando não estou a criar para mim.

Gostas de dar concertos ou preferes o estúdio?

Penso que prefiro dar concertos ao vivo, porque faço um concerto visual com um parceiro, o Jason Baker, e adoramos apresentar esse espectáculo às pessoas. É muito divertido e adoro mesmo fazê-lo. Gosto muito de estar no estúdio, tal como gosto de estar sozinha, mas adquiro muito quando faço performances para outros.

Quais são as tuas maiores influências?

Aphex Twin, Burial, Jon Hopkins, Autechre.

E visualmente? Que realizadores, filmes ou vídeos te influenciaram, tendo um trabalho tão visual?

Mundos pós-apocalípticos e futuros distópicos inspiram-me muito e, nesse sentido, Ex-Machina (2014, dir. Alex Garland) foi fenomenal de ver. Gostei muito do Lucy (2014 dir. Luc Besson). A história não foi a minha favorita, mas era visualmente esplêndido.

Beast (2017 dir. Michael Pearce) é outro filme que gostei muito de ver recentemente, é mesmo muito bem gravado. Sigo artistas muito fixes no Instagram que me inspiram muito visualmente.

Quem te fascina musicalmente hoje em dia?

Estou entusiasmada para ver o que a Katie Gately faz a seguir. A Holly Herndon e a Julianna Barwick! Tudo grandes artistas.

Há alguns artistas com os quais gostavas de colaborar?

Um dia gostava de colaborar com um MC. E gostava de colaborar com o Burial, isso seria o sonho, a 100%.

 


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