Kathryn Joseph e Lubomyr Melnyk no Theatro Circo: dois pianos separados pelo universo

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Paulo Nogueira

O ciclo Respira! chegou ontem ao fim com os concertos de Kathryn Joseph e Lubomyr Melnyk no Theatro Circo, em Braga. Duas propostas diametralmente opostas, separadas por um universo inteiro, mas que chegam ambas das margens de uma indústria que sempre gerou estes desalinhados, figuras que não encontrando um lugar na rede de convenções estabelecida, acabam por inventar os seus próprios nichos.

Tanto Alfa Mist, como Lonnie Holley ou Lubomyr Melnyk encaixam bem nessa ideia de “misfit” atrás enunciada. Os novos leões do jazz britânico são, na sua maioria, o resultado de uma sintonia geracional que soube encontrar a sua força fora da academia, fora das editoras ou clubes estabelecidos, inventando novas formas de se ligarem a um público que também chega de fora da esfera tradicional do jazz, mas abraça sem reservas o que estes novos artistas propõem com cada disco ou concerto; Holley, como ontem por aqui se procurou explicar, é igualmente a personificação perfeita no presente da figura excêntrica e inclassificável que a oprimida cultura afro-americana sempre soube gerar, de Sun Ra a Jean Michel Basquiat ou MF Doom: alguém que encontrou numa abordagem oblíqua à música uma ferramenta de sobrevivência, primeiro, de afirmação e transformação pessoal, depois, sabendo no processo dispensar as regras convencionais da indústria em que se insere.

O ucraniano Lubomyr Melnyk, no entanto, é outra coisa. A música que cria, que ele descreve como “música continua”, resulta de uma técnica muito particular: cruzando a tradição pianística clássica e o minimalismo de Steve Reich ou Terry Riley, Melnyk criou um discurso tornado radicalmente diferente pelo seu uso intensivo do pedal de sustentação — ao manter o pedal pressionado enquanto executa arpégios contínuos, a vibração das cordas do piano cria blocos harmónicos, uma espécie de nuvem densa de tons que gera algo que poderíamos descrever como melodias diáfanas que os nossos ouvidos vão lentamente descortinando, como por vezes adivinhamos figuras de edifícios ou de aspectos de uma paisagem no meio de um nevoeiro cerrado.

Melnyk falou longamente sobre a música continua na sua apresentação de ontem, explicou a extrema dificuldade da técnica, frisou que é a única pessoa no mundo que a executa, acusou as editoras convencionais de não o compreenderem e de não lhe darem um lugar ou dinheiro, apontou o dedo ao Spotify, que acredita estar a matar a música, expressou o desejo de Steve Jobs estar no inferno por ter querido “matar os CDs” e dirigiu as pessoas para a sua banca onde ele mesmo foi assinando e vendendo cds e LPs antes e depois do concerto.

O discurso de Melnyk ajuda, certamente, a aprofundar o fosso que o separa do resto do universo. Nega a ciência — “os cientistas só sabem mentir-nos”, refere sem qualquer tipo de ironia —, nega a física acústica com argumentos facilmente desmontáveis — “o som não são ondas que se propagam pelo ar, se fossem ondas não conseguiríamos ouvir se encostássemos uma camisola ao nosso ouvido” —, garante que a magia é real porque ele já testemunhou actos mágicos. Faltou-lhe apenas, mas por muito pouco, tentar convencer-nos de que a Terra não é redonda.

De pé, antes de cada uma das longas peças que executou, Lubomyr foi ilustrando com esse discurso delirante o que o separa afinal do resto do mundo. O público aplaudiu-o. As exuberantes demonstrações técnicas tiveram sempre um lugar na música, mas nem sempre geraram Hendrixs ou Amálias, artistas com um discurso musical tecnicamente avançado, mas que era apenas um meio para atingir um patamar expressivo mais elevado, nunca um fim em si. Em Lubomyr, pelo contrário, a técnica é o alfa e o ómega da sua obra, ponto de partida e de chegada, que ensombra a sua música, que consegue ser expressiva, mas que acaba por soar demasiado repetitiva, demasiado formulaica, sempre apoiada nos crescendos de intensidade, na velocidade dos arpégios e na densidade harmónica gerada pelo uso do pedal de sustentação.



No lado oposto do universo encontra-se a cantora e compositora escocesa Kathryn Joseph. A autora de Bones You Have Thrown Me And Blood I’ve Spilled (2015) e From When I Wake The Want Is (2018) é uma artista que canta a visceralidade do amor, o amor como força incontrolável que tem o terrível poder de nos dilacerar até às entranhas. Mulher escocesa de sotaque cerrado — pediu, aliás, desculpa por isso —, a sua música ganhou uma pequena audiência já tarde na sua vida — foi distinguida pela indústria escocesa com o primeiro álbum, lançado quando já contava 40 anos —, parecendo surgir do lado mais negro da sua alma, uma proposta dificilmente conciliável com o mainstream.

Kathryn apresentou-se comunicativa e bem disposta, maravilhada com a beleza do teatro e das pessoas — “vocês são todos muito atraentes” —, pediu desculpa pelos palavrões das canções — na crueza da palavra “fuck” a cantora deposita muita da sua raiva — e até dirigiu palavras de enorme simpatia a Lubomyr Melnyk — “ele é o meu herói” —, mas a sua música não podia ser mais distante da do compositor ucraniano. Num piano vertical (Melnyk tocou num grande piano Steinway, claro), voltando o rosto para nós enquanto cantava, nunca procurando disfarçar o tormento que as palavras traduzem, Joseph mostrou-nos as suas canções, breves rajadas emocionais de enorme beleza, folk na estrutura, com a sua voz a evocar a espaços Kate Bush, Stevie Nicks ou até Karen Dalton, mas a ser usada de forma inteligente, com pouco respeito pelo rigor, expondo o nervo e a cicatriz das emoções de uma forma cruelmente honesta. Se estivesse nua em palco, Kathryn não estaria mais exposta do que ontem se mostrou.

Dois pianos, dois discursos, duas nacionalidades, dois sexos, duas músicas tão diferentes, unidas afinal num ciclo com a coragem de programar diferente numa cidade que não é Lisboa, nem Porto, mas que tem cada vez mais afirmado uma ideia cultural sólida e sustentada, com o público capaz de formar plateias generosas mesmo quando há apenas um piano no centro do palco e um tipo que não teme dizer que a peça que se prepara para executar “é a maior obra escrita para piano de sempre”. Na sua cabeça é certamente. E a verdade é que o mundo precisa destas figuras para descobrir outros caminhos, outras ideias e pensamentos. Outras formas de respirar.

Para o ano haverá, esperamos, mais.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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