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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 20/03/2026

O novo Kantigas di Liberdadi é pautado por uma forte dimensão social.

Karyna Gomes: “A música sempre foi interventiva na Guiné e não deve perder esse lugar”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 20/03/2026

Karyna Gomes tem construído um percurso singular no cruzamento entre criação artística, intervenção cívica e pensamento crítico. Nascida em Bissau, filha de pai guineense e mãe cabo-verdiana, iniciou o seu caminho na música muito cedo, passando por experiências formativas fora do país antes de regressar à Guiné-Bissau, lugar onde conciliou o jornalismo com a prática musical. A sua trajectória cruza-se depois com uma das formações mais marcantes da história musical guineense, os Super Mama Djombo, antes de se fixar em Lisboa, onde tem vido a desenvolver em pleno o seu percurso a solo.

A artista tem assim afirmado uma linguagem própria, profundamente enraizada nas tradições da Guiné-Bissau — como o gumbé ou a tina — mas aberta ao diálogo com outras geografias sonoras. Ao mesmo tempo, o seu trabalho mantém uma forte dimensão humanista, reflectindo um compromisso continuado com questões sociais e políticas, nomeadamente no campo dos direitos das mulheres e da construção democrática.

O seu novo disco, editado há um mês e com apresentação ao vivo marcada para o dia 17 de Julho no B.Leza em Lisboa, surge neste contexto. Gravado ao vivo, em modo live to tape, Kantigas di Liberdadi recupera uma forma de fazer álbuns associada a gerações anteriores da música guineense, ao mesmo tempo que se abre ao presente, cruzando referências históricas com novas vozes e linguagens. Em conversa com o Rimas e Batidas, Karyna Gomes fala sobre liberdade, memória, processo criativo e o papel da música num país onde esta sempre teve uma dimensão profundamente política.



Estamos em 2026 e continua a ser necessário cantar a liberdade?

Eu acho que nós precisávamos mesmo deste disco para nos situarmos e, 50 anos depois, reflectir sobre o que foi verdadeiramente a luta pela nossa independência, qual foi a importância que ela teve para a nossa identidade hoje em dia. Mas também quero perguntar: “E hoje, onde é que nós estamos? O que é que é preciso fazer?” Quando eu olho para a Guiné, eu não sou pessimista. Vejo que a luta pela independência nos trouxe mais do que o bilhete de identidade, abriu-nos caminho. Hoje temos mulheres guineenses a fazer o que quiserem, apesar dos défices que ainda existem — como a mutilação genital feminina ou a escolaridade ainda limitada para muitas mulheres. Mas também registamos avanços substanciais. E ao mesmo tempo temos que reflectir sobre tudo isso. A música sempre foi interventiva na Guiné, e não só nos países africanos de expressão portuguesa. Através da música conseguimos mobilizar pessoas para grandes causas. E eu acho que ela não deve perder esse carácter.

Esse lado interventivo também se pode adivinhar na forma como decidiste gravar o disco.

Sim. Eu fiz o disco nos moldes em que se gravava o Super Mama Djombo, o Cobiana Djazz — live to tape, ir para o estúdio e gravar. Fizemos o disco em 12 horas. Era mesmo uma abordagem old school, para captar a essência. E isso vive-se antes, nos ensaios, na preparação e depois no estúdio. Há uma energia que se cria e que fica registada.

Mas para chegar aí houve um trabalho de preparação importante. Como foi esse processo?

Houve uma pré-produção. Eu trabalhei com o director musical, apresentei-lhe as canções, as composições. Ele fez os arranjos, distribuiu as partes pelos músicos. Depois fizemos dois ensaios em estúdio. Gravámos um deles, estudámos esse material e depois fomos gravar praticamente de olhos fechados. Também foi importante escolher o engenheiro de som certo, o André Tavares. E os músicos — são músicos de jazz, com experiência de estúdio, já gravaram com muitos artistas. Isso facilitou muito, porque há uma linguagem comum.

O disco cruza várias gerações e tem desde referências históricas até músicos mais novos. Como é que pensas essa identidade sonora?

Este disco tem muita ousadia. Porque os grandes músicos da Guiné-Bissau já nos mostraram desde o início que temos que fazer pontes e aceitar o que acontece no nosso tempo. O Zé Carlos, por exemplo, começou por cantar covers e depois foi introduzindo elementos tradicionais. O Cobiana Djazz, o Super Mama Djombo, ambos consolidaram esse caminho. A Guiné foi um país de bandas. Depois, nos anos 80, surgem músicos que começam a introduzir outros elementos — saxofone, influências mais pop, mais anglo-saxónicas. Ou seja, os músicos guineenses sempre viajaram, nunca ficaram presos apenas ao tradicional. E este disco também é isso. Por isso convidei músicos mais novos, como a Alana, guitarristas como o Jerry Bidan, que conseguem tocar gumbé, mas também jazz, MPB. É essa liberdade de navegar entre linguagens.

Como tens sentido a recepção na Guiné-Bissau?

Está a ser muito boa, com bastante entusiasmo. Tenho recebido feedbacks muito positivos. Vou apresentar o disco no dia 10 de abril, num festival que eu própria criei, o Canta na Casa, em Bissau. E quero apresentá-lo tal como ele é, porque o disco, na verdade, é um concerto. Vai ser no espaço do Centro Cultural Português, com apoio da Embaixada de Portugal. E isso também é importante porque há uma ligação forte entre Portugal e a Guiné-Bissau ao nível da música. Os grandes discos guineenses foram editados em Portugal, desde o Ernesto Dabó ao Super Mama Djombo. Lisboa tem um peso muito grande nessa história. E há também essa vontade de honrar esse percurso.

A questão da mulher continua a atravessar o teu trabalho.

Continua completamente. Num país em que mulheres como a Titina Silá ou a Lídia Itabual tiveram um papel importante na luta, é preocupante haver retrocessos na participação da mulher na vida pública. Ainda temos problemas graves: mutilação genital feminina, mortalidade materna e neonatal, desigualdade no acesso à educação e à decisão. Isso preocupa-nos muito. E por isso a temática da mulher está sempre presente no meu trabalho. E vai continuar a estar. Porque esta luta continua. E é importante dizer: o feminismo não é o contrário do machismo. Precisamos dos homens ao nosso lado.

Há concertos marcados para os próximos meses?

Sim. Vou apresentar o álbum no dia 17 de Julho, no B.Leza, em Lisboa, e também participar em outros festivais ao longo do ano. Há vários momentos importantes para levar este disco ao público, tanto na Guiné como em Portugal.



Esta entrevista faz parte de um ciclo de conversas com uma seleção de artistas diretamente apoiados pela Fundação GDA.

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