Karol Conká no Jameson Urban Routes: original sem cópia!

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTOS] Ana Viotti

Passava já algum tempo daquele que era o horário marcado para a última sessão do Jameson Urban Routes ter início no Musicbox, em Lisboa, e a fila estendia-se ainda rua fora, obrigando os seguranças do Europa, do Jamaica e restantes bares até ao Copenhagen a aplicar as suas melhores técnicas de logística e organização para acomodar o público que aguardava ansiosamente pelas actuações de Chong Kwong, Karol Conká e Shaka Lion.

Com início apontado para a meia-noite e meia, a rapper da Cova da Moura entrou em palco mais de uma hora depois do previsto e apresentou-se perante uma sala que claramente se reunia eufórica para o concerto da brasileira, mas que nem por isso deixou de se levar pela presença e vibe incríveis da MC de 31 anos que, no último ano, chegou com a frescura que o rap feito no feminino tem, claramente, vindo a precisar. O reportório ainda é curto, mas isso não impede Ms. Kwong de se passear por aquelas que são as suas influências e apresentar-nos um espectáculo onde, para além dos singles originais, nos leva em viagem pelo seu percurso, guiado por nomes como Jay Rock ou Nas. Destaque para a presença enérgica, o figurino e todas as associações à cultura chinesa, num espectáculo claramente pensado e trabalhado para tal. Teria sido interessante, no entanto, ver esse “look & feel” aplicado às restantes presenças em palco — Nina Rae, Pablo e DJ Maskarilha acompanharam a artista neste primeiro momento da noite. Existiram alguns momentos de dificuldade para receber som à altura da voz da rapper “blasian”, mas que, ainda assim, nos pareceram longe de problemáticos e, com toda a certeza, contribuíram para suscitar curiosidade numa plateia composta maioritariamente pelo público brasileiro.



Se existem notas negativas em relação à noite de sábado, estas não falam tanto sobre as actuações como dos tempos de espera entre elas. DJ Maskarilha fez o aquecimento da noite para uma plateia já ansiosa e foram mais de 30 minutos de espera entre uma actuação e outra. Gloria Groove, Linn da Quebrada e Johnny Hooker na playlist ajudaram a criar o ambiente pela qual o publico ansiava. Três da manhã e Karol subia a um palco já preparado para a receber, incluído as congas e a percussão da excepcional Michelle Abu e os decks de DJ Hadji.

“Quer falar de superação? Muito prazer, sou a própria! Uma em um milhão, original sem cópia!”. Aberta a temporada de “Kaça”, a curitibana deu dessa forma o pontapé-de-saída para mostrar o seu último trabalho, Ambulante, e a chegada fez-se em parada por alguns dos seus hits mais poderosos. A festa havia começado, disso não há dúvidas, e Conká é o perfeito exemplo de presença e confiança em palco. Da força dos batuques ao açúcar dos sons mais pop, a brasileira deu um espectáculo carregado de energia, posicionamento e maturidade de uma artista que vive dos palcos há já mais de uma década e que, depois do gigante Rock in Rio (de Janeiro), nos presenteou com a sua presença no Cais do Sodré. Feliz por se apresentar para um público que a fez sentir em casa, Conká trouxe consigo Michelle Abu, a inacreditável multi-instrumentista baiana e referência entre os ritmistas brasileiros, à qual se deve dar todo o destaque merecido. Alguém que dê uma palco a esta mulher porque, definitivamente, merecia um espectáculo só seu.

Infelizmente, as mudanças nos horários das actuações já não nos permitiram ver Shaka Lion que, com certeza, fechou esta noite de Outubro num registo um pouco mais quente do que é habitual.


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto