Karol Conká: “Eu nunca deixei que me rotulassem”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Carlos Sales 

A curitibana Karol Conká regressa a Portugal com novo trabalho. Ambulante chegou em Novembro de 2018 e, um ano depois, a rapper brasileira vai entregar a electropop, o rap, o r&b e até o trap do último registo nos palcos do Musicbox, em Lisboa, e do Hard Club, no Porto. Esperam-se duas espécies de sessões de terapia movidas a auto-confiança e vontade de continuar a fazer-se representar. 

Karoline Oliveira, ou “Karol com K” como o pai fazia questão que se apresentasse na escola, não é nova na cena. É, aliás, uma das vozes que mais tem espalhado a música contemporânea brasileira pelo mundo. “100% Feminista” e um exemplo de “evolução”, a artista começou a cantar aos 16 anos e, até hoje, nem o preconceito, a gravidez adolescente ou todas as limitações de ser uma mulher no rap a demoveram de atingir os seus fins. Em 2013, a cantora de 32 anos lançou “Batuk Freak”, ao lado de Nave, e ganhou o prémio de Artista Revelação. Dois anos depois, voltou a agarrar o prémio de Nova Canção com “Tombei”, com produção da dupla Tropkillaz, e de lá para cá foram várias as conquistas dentro e fora do palco, com uma perninha na TV, no cinema e na publicidade.

Dona de uma postura forte e luminosa, mesmo após um cansativo dia carregado de entrevistas, Karol falou com o Rimas e Batidas. “Eu gosto de conversar, mesmo, não me custa nada!”.



Karol, muito obrigada por falares connosco. Pessoalmente, estou muito ansiosa por te ver, nunca tive oportunidade de assistir a um espectáculo teu ao vivo, ainda para mais agora que faz um ano desde que lançaste o Ambulante. Como têm sido estes meses na estrada aí no Brasil?

Eu estou muito feliz por estar indo encontrar vocês e mostrar meu álbum! Aqui no Brasil, a galera recebeu o meu álbum de braços super abertos. A capa já chegou ganhando vário prémios de melhor capa… Foi tudo muito orgânico e de forma queridinha, feita na minha casa! Esse álbum foi feito em quatro meses, eu e o produtor, e quando ele foi lançado foi uma emoção porque esse trabalho foi feito num clima de terapia, sabe? Você fala tudo o que você quer falar e transita por todos os sentimentos. Ambulante significa a minha transição por lugares, sentimentos e géneros musicais onde eu me sinto bem resolvida e à vontade, e sentindo orgulho de quem eu sou.

Óptimo. Que bom ouvir isso! É um álbum onde se sente muito isso. Passeias por vários estados emocionais e também mostras uma maior vulnerabilidade. Porque é que sentiste essa necessidade?

Porque eu estava num momento da minha vida de maior observação. Sentindo mais. E sentia necessidade de passar isso para as pessoas que ouvem as minhas músicas mas, também, na intenção também de levar fluidez, sabe? Que as coisas sejam mais naturais e que a gente assuma o que a gente sente. Então se você sente saudade, porque não se resolver com essa sensação, e está tudo bem? Como na música “Kaça”, onde eu falo que me cansei da “reciclagem do cliché”. Noutra música, eu brinco mais com a sensualidade, falo de ser “Dominatrix”… Coisas que passam na minha vida, no meu dia-a-dia, que me inspiram e que também servem de inspiração para outras pessoas que se identificam com o que vivem e que, muitas vezes, acaba sendo igual ao que eu vivo. 

Tu és uma mulher muito confiante, com uma auto-estima muito para cima. É isso que transmites! E, às vezes, há aquela ideia de que a vulnerabilidade não pode conviver com isso, o que acaba por ser errado, não é?

Exacto! As pessoas acham que a mulher independente, forte, que tem argumentos, nunca tem um momento vulnerável. E isso é errado porque a tristeza ou a frustração fazem parte de um crescimento. Fazem parte de um poder. Você passar por um problema, por uma tristeza, e absorver alguma coisa daquilo é, também, um poder. A mulher independente pode ter um momento de vulnerabilidade. O problema não é ser vulnerável, o problema é não saber como passar por aquela situação. A mulher forte chora, ela sangra, ela vive a amargura, ela erra. Mas ela sente e ela supera. Isso é que é o importante da mensagem.

Sentes que quem te ouve reagiu a isso com mais empatia e compreensão do que esperavas, até?

Sim. Muito. Quando eu parei de postar tantas coisas na Internet, os meus fãs começaram a perguntar se estava tudo bem. “Você está cansada?”. É como se eles estivessem entendido algumas coisas que me passam pela minha cabeça. Quem me acompanha entende que eu estou num processo criativo, montei o meu estúdio, estou trabalhando em publicidade, também, e sempre envolvendo a música. Trabalhando esse lance do comportamental e frisando a mensagem de empatia e respeito a si mesmo para depois chegar ao próximo.

Sendo uma das caras mais visíveis do rap brasileiro, um dos nomes que mais Brasil levou ao mundo, que tipo de papel sentes que queres representar ou que representas? É esse papel transformação? De aceitação?

Sempre. O papel da evolução! A gente se conhecer para entender o próximo. A música conecta as pessoas e quando ela é escrita com verdade ela se torna uma oração. Então, eu cultivo essa conexão, eu me conecto com o púbico, eu sou o público, também. Nesse público também existem artistas e pessoas que querem ser vistas, ser notadas e é legal falar dessas coisas. As pessoas se identificam.

Enquanto mulher imagino que te tenhas visto muitas vezes sozinha na tua caminhada, pelo menos no início. E, hoje em dia, começam a surgir vários nomes para quem tu, de certa forma, também abriste caminho. Como é que foi esse percurso? O que mudou até aqui? Como é que vês as coisas, hoje?

Hoje eu vejo mais leveza nas meninas, nas mulheres. Elas estão mais seguras. Elas se sentem representadas por mim e por outras artistas. Eu sou pioneira de uma geração que se descobriu e tem essa ideia de “sou negra”, “me assumo negra”; eu sempre falei da diversidade em si. Não só representando as mulheres negras como o ser humano, mas sempre dando destaque às mulheres porque sou uma e a base da minha casa sempre foi de mulheres. Minha avó, minha tia, minha mãe. Sempre foram as mulheres que seguraram a onda na casa. É natural que o meu discurso seja sempre a força da mulher. E, com o tempo, eu fui percebendo as portas que eu fui abrindo porque as pessoas foram me falando que eu tinha aberto. Eu não tinha percepção, sabe? Eu achava tudo lindo e mágico. “Ai, que incrível, cheguei nesse lugar!” Tinha um monte de meninas negras, vestidas assim ou assim, e elas chegavam no camarim e falavam que tinham se inspirado em mim. Nossa, isso é incrível! Aí eu percebi que isso era uma responsabilidade grande, também. E quando eu percebi que estava abrindo portas eu comecei a abrir mais ainda! [Risos] Sempre indicando! Num show grande eu coloco sempre algum artista que é muito legal e com quem vale a pena dividir aquele espaço. Sempre fui muito de compartilhar. Eu acho que ninguém chega a lugar nenhum sozinho e quando a gente trabalha no colectivo é bem melhor!

Decididamente! Tu participaste agora no álbum incrível da Drik Barbosa, mas já trabalhaste com o Djonga, Linn da Quebrada, Gloria Groove… Já trabalhaste com muita gente! E a minha questão é: como é que sentes o rap nacional, actualmente? Sentes que está a viver um bom momento?

Sinto uma alegria enorme porque muitas amarras foram soltas no rap nacional. Há uma criatividade aflorada. O rap brasileiro foi inspirado no modelo norte-americano, sempre foi muito “americanizado” e hoje — para além de muitos artistas e de todos os estilos por onde anda — a gente vê muito do Brasil ali. Isso é o que mais me deixa feliz. 

Regressando às portas que abriste, a verdade é que o fizeste, também, com a tua sonoridade. Este lado mais pop, agora, com uma ideia bastante vincada de não aceitação em relação ao que te dizem que deves ou não fazer… Como é que o Boss in Drama te ajudou neste processo e te fez sentir confortável, neste registo?

O Boss in Drama é uma pessoa maravilhosa. Muito importante na minha vida pessoal e na minha carreira. Foi ele que me apresentou ao meu lado pop. Eu sempre curti, mas eu “escolhi o rap”. Sou do Sul, de Curitiba. A minha inspiração era a Lauryn Hill, eu tinha todas aquelas amarras do rap… 

Estarias a desvirtuar-te, é isso?

Sim. As meninas se vestiriam como homens para ganhar respeito! E eu curtia Destiny’s Child, curtia rap, tudo o que tinha samba, tudo o que tinha na minha casa e que eu estava ouvindo. Eu já tinha essa conexão com a música e o Boss in Drama um dia chegou para mim e falou, “olha, porque é que você não canta essa música aqui?” Ele produziu a nossa primeira música, que foi “Toda Doida”. E foi muito engraçado porque ele fez o refrão, eu fiz a letra e ainda soava meio bobo para mim! “Mas você é pop, você tem essa coisa mais pop! Você tem uma voz linda, porque você não canta mais?” E aí a gente começou a brincar aqui e ali, ele tocava piano e eu ficava cantando e me fui descobrindo mais, mais solta. Isso foi muito importante. O artista é uma pedra que tem que se lapidar, né? Então quando o artista encontra um produtor que é empático, vai na vibe, deixa o artista à vontade e extrai o melhor dele, você tem uma música boa, um clip bom, tudo muito óptimo, sabe? Isso me deu segurança, me fez abrir portas para o mundo pop. 

Muitas fãs ainda cobram esta vontade de que o artista se mantenha inalterado, não é? Quando na verdade o crescimento está nessa tua capacidade de trabalhares com todos os teus “tentáculos”…

Sim. E eu nunca gostei de mesmice! Quem me acompanha e conhece as minhas músicas sabe que cada música é de um jeito. Mas, claro, sempre com aquela vibe de Karol! Eu nunca deixei que me rotulassem ou falassem “isso pra mim não é rap”.  Tudo bem, para você não é rap, mas para outra pessoa é rap. Para o pop, eu sou rap e para o rap eu sou pop! [Risos]

[Risos] É bem isso! Numa nota talvez não tão feliz mas de confiança, com certeza… Como olhas para a situação actual no Brasil e no mundo? Deixa-te mais insegura ou nem por isso e a resistência cultural tem que seguir forte e firme?

A resistência cultural tem que seguir forte e firme! Eu sempre falo que uso a minha arte para informar, para levar um conforto, uma solução e força, sempre. Nada de desistir. O bem sempre vence. Eu sou dessa galera que diz que o bem sempre vence e eu não vou parar, entendeu? Então eu vou continuar cantando, eu vou continuar sendo porta-voz para quem precisa. E, acima de tudo, entendendo que o ser humano precisa ser respeitado. A justiça do universo, ela vai chegar. A gente vai sair dessa.

Está passando uma nuvem cinza de energia ruim mas a gente tem muitos artistas LGBT, por exemplo, aflorando nos palcos. A gente vai nos shows e vê a resistência e que o público está ali, sendo informado. Então as pessoas falam, vão para a rua, vão para os shows e isso é muito legal. A gente tem que resistir!


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto