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Texto: Paulo Pena
Fotografia: Frederico Roque

Um abalo sísmico em três fases.

Kappa Jotta: “Quando te dá aquele aperto no peito, não interessa se é pesado, leve, dancehall, trap ou drill”

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Frederico Roque

Com a vida a ameaçar uma estranha retoma ao seu curso normal, é hora de voltar a ligar as máquinas. Por esta ordem de ideias chega-nos nova encomenda (devidamente desinfectada) de Kappa Jotta, na forma de “3 pack”, o seu mais recente projecto intitulado Pack AMW, composto por três faixas produzidas por Reis, L.A. Justice e Forsberg e carimbado pelo selo da Good Fellas Good Music.

Falámos com o rapper sobre este conjunto de faixas e sobre as motivações por detrás deste lançamento. Preparem-se, a encomenda não é frágil, mas fica o aviso para os ouvidos que o são.



Em primeiro lugar, como tens passado nesta fase? O confinamento dos últimos meses afectou-te a nível criativo ou deu-te oportunidade de trabalhar com mais calma?

Tenho estado modo trancado, sem sair durante dois meses e tal. Só mesmo estar com a minha filha, ir às compras e trabalhar no estúdio. Como tenho estúdio em casa tenho aproveitado para fazer umas cenas. Ao início senti aquela aflição, porque de repente toda a gente está trancada em casa. Os técnicos não vão ao estúdio, e eu tenho à volta de 17 faixas espalhadas por estúdios por aí. Então, foi um bocado aquele pânico de estar dois ou três meses parado. Entretanto surgiram-me estas três músicas, por isso, não te sei dizer se está a ser difícil ou fácil criar. Também não fiz mais que três músicas. Fiz as que estou a lançar agora.

Nesta fase, além de músico, tens a tua própria label. Como é que te estás a adaptar a esta nova realidade, uma vez que tens em mãos não só a tua carreira, mas também a de outros artistas?

Em termos de shows é lidar. É como diz o outro: “é lidar, irmão”! Já sabemos com o que vamos contar. Este ano é para esquecer. Se vier um concerto ou outro, é bónus, mas tanto está assim para nós como para os outros. Pelo menos não somos os únicos perdidos no meio deste barco. Estamos todos aqui a sofrer um bocado com isto, seja a equipa técnica, sejam os artistas. De resto, em termos de lançamentos, estamos a gerir por telefone e videochamadas a ver o que é melhor.

Em relação ao Pack AWM, a designação pack é uma distinção propositada?

Sim, é mesmo para distinguir a cena. Porque isto não é um álbum, um EP ou uma mixtape. É só um pack de sons. É um pacote com menos músicas. É como ires ao Toys “R” Us: aquele mega brinquedo com várias funcionalidades é um álbum; o EP é aquele brinquedo médio; e este é aquele brinquedo pequenino, fixe para brincar, mas muito pequeno.

E porque é que decidiste lançar as três músicas em conjunto, e não de uma forma faseada como singles?

Por um lado, porque já tenho uma grande quantidade de músicas guardadas na gaveta, e às tantas torna-se complicado de gerir, entre videoclipes, etc. E como não acho que seja uma boa altura para lançar um disco, neste momento, quis começar a preparar a malta. Não queria lançar agora um disco de repente, e se for para lançar um, eventualmente, quero que o pessoal vá aquecendo. Por isso, achei pertinente nesta altura experimentar o conceito do pack e ver se resulta.

Era mesmo isso que te ia perguntar… Se este pack era o início de algum projecto maior.

Não tenho a certeza se vou lançar mais packs ou não, antes de lançar um novo disco. Depende de como correr este. Sinceramente, isto é uma experiência, e nunca vi ser feito algo do género cá em Portugal – não é que isto seja uma coisa espectacular. Entretanto, alterei um bocado os planos. Na quarta-feira lancei o “Rooftop”, na quinta-feira o “Só Deus Sabe” e hoje, sexta-feira, sai o “Paz”, e fica tudo disponível nas plataformas digitais

Tentei descodificar a sigla “AWM”, mas não cheguei lá. Tencionas revelar o significado?

Por acaso, ainda ninguém se questionou disso. Era para ficar no ar, mas posso revelar aqui, sem problema. Não vou é revelar por mim próprio publicamente a explicar o que quer dizer. Isso não vou fazer. Mas sim, a sigla “AWM” é o nome de uma arma de sniper do Call Of Duty, a arma mais tramada. Então, “Rooftop”, “Só Deus Sabe” e “A Gente Quer Paz” giram à volta do conceito de um sniper na guerra como alguém que mata muita gente, mas que está na sua paz, lá em cima no seu spot, tranquilo. E não quis usar o termo “sniper” de caras, além de que o próprio projecto em si já é pesado, a meu ver. Uma das faixas não tanto, mas as outras são. Assim, acaba por ser o nome mais fofinho para uma arma.

Sobre o “Rooftop”, esta faixa apresenta-te na tua melhor forma enquanto liricista, e ao mesmo tempo cimenta a tua identidade enquanto rapper. Vês-te como um artista que explora caminhos dentro do seu registo ideal, optando por não mudar de espectro só por mudar?

O mudar só por mudar, ou mudar para a sonoridade que se está a ouvir mais, esse não é o meu caminho. Não vou por aí. Mas por exemplo, drill era uma sonoridade que nunca tinha experimentado. Acaba por ser na mesma um registo pesado, que as pessoas já estão habituadas a ouvir da minha parte, mas é um estilo pelo qual nunca tinha navegado. Nesse sentido, estou sempre aberto a experimentar coisas novas. O mais importante nisto tudo é o instrumental. Quando o beat te dá aquele clique, aquele aperto no peito, não interessa se é pesado, leve, dancehall, trap ou drill. Já foi, já estás a escrever.

Nesse teu registo, conseguiste furar, mesmo sem grandes estruturas por trás. Nesta fase em que te encontras, sendo actualmente um dos rappers mais ouvidos por cá, e a figura principal da Good Fellas Good Music, como é que percepcionas este momento da tua carreira?

Neste momento, sinto-me numa fase fixe. Acho que ainda tenho muito para aprender – mesmo muito – e por explorar. A vida também te condiciona a estares com a cabeça no sítio certo. Nesta altura, a vida permite-me estar com a cabeça onde tem de estar, e isso é logo um passo para conseguir mover-me de forma mais estável do que há dois ou três anos. Claro que não quer dizer que não possa ou não tenha mais por onde subir. Ainda tenho mais para conquistar, e ainda posso andar mais para a frente, embora já tenha conquistado bastante. Como estavas a dizer, a minha voz e o meu rap não são fáceis. Ou gostas mesmo ou não gostas nada – não é uma coisa que te é indiferente. Também podes aprender a gostar, através de um concerto ou de amigos, por exemplo.

Estás no topo, mas ainda podes subir mais.

Sim, e, honestamente, quando me dizem que já estou no topo, consigo compreender que me digam isso. E apesar de já estar no circuito dos grandes shows e de ter chegado a esse mainstream em termos de concertos – porque já toquei em grandes palcos nos quais nunca pensei vir a tocar –, sinto que ainda não quebrei aquela barreira do rap para o mainstream. A minha música mais ouvida, “Pela Cidade”, que é Single de Ouro, nunca passou na rádio. Enquanto certos rappers como o Plutonio, o Bispo, o ProfJam ou o Dillaz conseguem atingir esse mainstream mesmo não fazendo música com esse objectivo, a minha música, mesmo chegando às massas, é mais de nicho.

E achas que esse registo pode não ser compatível com o mainstream?

Acho que seria mais fácil e compatível se eu realmente não fizesse este género de sons tão pesados e agressivos. Porque no que toca às rádios, e dando o exemplo do “Não Me Compares”, dei logo automaticamente uma entrevista na rádio quando lancei essa música. Se calhar, agora com o “Rooftop” já não vou dar, ou se der, será num contexto ou num programa mais direccionado ao hip hop, e não ao público geral. Basicamente, acabo por ser eu a criar essa barreira.

Se quisesse podia fazer músicas para furar nas rádios, mas eu tenho músicas com algum tempo que não tive necessidade de as soltar. Porque fiz a música num momento específico e ainda não vivi outro momento igual agora que me faça querer lançar essa música. Nestes dois meses fiz estas três músicas, e deu-me um clique que isto era para lançar, que raramente me dá. Senti que era uma coisa que tinha de dizer agora. E veio um bocado a contrariar o que tínhamos vindo a fazer até agora, cenas mais “radio-friendly”, o que acabou por impor essa barreira outra vez. Mas há coisas que eu não posso deixar de dizer, e não vou deixar de dizê-las. As outras músicas continuam na rua na mesma, e quem quiser e gostar pode continuar a passá-las. Uma coisa não deveria invalidar a outra.

É interessante manteres esse timing consoante a altura em que sentes que faz sentido acrescentar algo.

Se não for assim, deixa de fazer sentido. Claro que alguns lançamentos acabam por ser estratégicos. Há músicas que cheiram a Verão. E não vou soltá-las no Inverno, mas sim quando o ambiente estiver mais quente. Assim como também há músicas que são mais frias, por exemplo, a “Tribo”, em que filmei o vídeo no sítio mais frio – na neve.

E para terminar, o que podemos esperar daqui para a frente do Kappa Jotta e da Good Fellas Good Music?

Neste momento não dá para fazer grandes planos. Lançar música, e seja o que Deus quiser. Agora espera-nos lavar as mãos e usar máscara!


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