Kanye West: o próximo presidente da América?

Kanye West não é a primeira estrela pop a ser objecto de teses universitárias, mas provavelmente nenhuma outra figura desse campo poderá inspirar trabalhos de tantas áreas diferentes. Kanye oferece matéria para teses nos domínios da música e da crítica de arte, obviamente, mas o que ele faz e diz pode igualmente alimentar dissertações de ciência política, sociologia, psicologia, economia, gestão… Recentemente, Kanye lançou-se numa nova aventura com a Adidas, estreando uma linha de roupa na Fashion Week de Nova Iorque: o que ele faz pode até inspirar estudantes que precisem de um tema para uma dissertação final em design de moda, em marketing. Kanye é uma figura e tanto, conta a mais refinada aristocracia pop entre o seu mais próximo circulo de amigos – Jay-Z e Beyoncé, pois claro, mas também Rihanna e Paul McCartney – e poderá muito bem usar todo esse capital para voos mais altos. Poderia Kanye West ser presidente daqui a alguns anos?

Os últimos meses têm sido agitados para o homem que deu ao mundo Yeezus em 2013. Anunciou o novo álbum, So Help Me God, em Março último através da sua conta Twitter apenas para revelar, no passado dia 3 de Maio, que ia alterar o nome do álbum para SWISH, palavra essa que já tinha servido para comentar algumas reveladoras fotos da sua cara metade, Kim Kardashian, colocadas perante o olhar do mundo também através da sua conta na rede de micro-blogging. Entretanto, em Fevereiro deste ano, apresentou a sua primeira colecção de moda na famosa Fashion Week de Nova Iorque. Yeezy Season 1 foi revelada ao mundo perante uma plateia recheada de gente ilustre que só na primeira fila contava com Jay-Z e Beyoncé, Rihanna e Alexander Wang, famosíssimo designer de moda que é o director criativo da Balenciaga. E como sempre, o rapper não esteve com meias medidas, revelando ao New York Times o verdadeiro significado da sua primeira linha de roupa: “Não quero parecer duro, mas na verdade há um antes e um depois de Yeezy. Esta é a nova Roma!” Isto pode apenas soar a Yeezy a ser Yeezy, mas a verdade é que Kanye nunca soube fazer as coisas pela metade pegando no velho adágio que indica que “anything worth doing is worth overdoing”.

 


https://www.youtube.com/watch?v=ROJbduwacFY

 


O ego de Kanye West é gigantesco e ele mesmo só parece saber medir-se pela mesma escala que serviu para nos dar a percepção do tamanho real de figuras como Steve Jobs ou Jesus Cristo. Na conferência Cannes Lions dedicada a discutir o papel futuro da estética e do design, Kanye integrou um painel de discussão intitulado Technology, Culture, and Consumer Adoption: Learning to Read the Cultural Landscape. assunto sério que o levou a dizer, entre outras coisas, “depois do Steve Jobs falecer tomei como missão de vida fazer o que ele fez dentro da sua companhia. Sonho em elevar a paleta e o nível de gosto de uma geração e também em estar envolvido com a produção, distribuição e publicidade daquela coisa que toda a gente quer”. E que coisa é essa? Bem, para começar podem ser as Yeezy Boosts, um sapato concebido em colaboração com a Adidas vendido através de uma aplicação móvel e inicialmente apenas em Nova Iorque que vendeu 9 mil pares em apenas 10 minutos. Ora aí está mais um assunto para uma dissertação universitária. E depois, bem, há toda uma série de temas e títulos – de “Jesus Walks” e “I Am a God” a Yeezus em que Kanye só se esquece mesmo de se comparar ao Espírito Santo para poder riscar a Santíssima Trindade de uma lista de comparações que já se alargou de Beethoven a Picasso e de Michael Jackson a Walt Disney. Sem falar em Barack Obama…

Estas declarações de Kanye têm-lhe valido os mais cerrados ataques de diversos quadrantes, mas o que é curioso é que nenhum desses ataques parece ter sido capaz de o derrubar até agora. Pelo contrário.  “O que não me mata só me faz mais forte”, cantava ele em “Stronger“. Sabendo exactamente do que falava e não adoptando um chavão que de tanto uso até pode soar oco. Mas Kanye é de facto uma figura de uma força impressionante, um Génio com “G” maiúsculo, que não teme arriscar, o que não é propriamente coisa de somenos para quem já se encontra no topo da montanha. Quando faltavam meros 15 dias para entregar o master do que viria a ser Yeezus, Kanye levou as gravações a Rick Rubin pedindo-lhe que “desbastasse” o confuso emaranhado de gravações e que lhe desse um som mais esparso e minimal. A sua visão estava certa e Yeezus provou ser aquilo a que os americanos gostam de chamar um game changer, um disco que obrigou toda a gente a parar e a pensar muito bem no que iria fazer a seguir.

 


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[ILUSTRAÇÃO] Barry Blint

 


Dois mil e quinze está a ser um extraordinário ano para o hip hop: a dupla Run The Jewels anda na estrada (e aterra brevemente na Invicta para uma apresentação no palco principal do NOS Primavera Sound); Kendrick Lamar lançou nova obra-prima com To Pimp a Butterfly; o colectivo Odd Future toma igualmente o planeta de assalto com novas propostas de Tyler, The Creator e Earl Sweatshirt (de que falamos noutro local desta edição) que antecipam novo álbum de Frank Ocean; A$AP Rocky avança com “Everyday”, single com um sample de Rod Stewart onde brilham também os talentos de Mark Ronson e Miguel e que prepara a edição de At.Long.Last.A$AP que chega às lojas já no mês de Junho. Não há rapper nesta primeira divisão que não pense duas vezes no que tem a dizer e na forma que escolhe para o dizer sabendo que Kanye também se prepara para editar. É ele que estabelece a altura da fasquia. E com Kanye a fasquia está sempre invariavelmente alta. E desta vez nem é só ele que o diz.

Paul McCartney é o joker no novo baralho de Kanye West. “Quando eu trabalhava com o John (Lennon), ele sentava-se com uma guitarra, eu sentava-me. E as ideias saltavam de lá para cá até termos uma nova canção. Trabalhar com o Kanye West foi assim também”. As declarações do ex-Beatle ao tablóide britânico Sun são reveladoras. “O meu primeiro pensamento foi “woah, no que é que eu me vou meter? Ele é incrivelmente talentoso, mas também é controverso e capaz de alguns gestos bem excêntricos”. E, musicalmente falando, talvez nenhum tão excêntrico quanto juntar, na mesma canção, as figuras de Macca e de Rihanna. Mas “FourFiveSeconds” consegue soar clássica e estranha, carregada de força e a coisa mais frágil do mundo ao mesmo tempo. E o curioso é que não é Kanye que beneficia da presença de McCartney, mas este que consegue regressar ao topo das tabelas quase 30 anos após o seu último top 10, alcançado com “Spies Like Us” em 1986. E ainda nem se sabe em que disco vai estar este tema, se no novo de Kanye ou no próximo de Rihanna.

 


 


Mais um sinal de extravagância de Kanye West: a sua performance de “All Day” – que se acredita ser o segundo single de SWISH depois de “Wolves”, outro tema extraordinário que conta com as colaborações de Sia e do rapper de Chicago Vic Mensa – nos Brit Awards: à frente de um verdadeiro exército de MCs de hip hop e grime, incluindo Mensa, Skepta, Wiley, Novelist e vários outros, Kanye gerou controvérsia pelo uso repetido da palavra “ni**a” na música, que foi silenciada durante a emissão televisiva. Com todos os MCs vestidos de negro – negro sobre negros, para aumentar o impacto – e um lança-chamas por único efeito cénico, Kanye parece, de facto, pronto para incendiar o mundo. O que nos faz pensar sobre as palavras que canta no álbum de Tyler, The Creator: “Richer than white people with black kids/ Scarier than black people with ideas”. Kanye é negro, rico, carregado de talento, casado com uma das sex symbols mais desejadas do planeta, capaz de verbalizar aquilo em que muitos não se atrevem sequer em pensar. Kanye, em bom português, tem tomates. Tem uma coragem gigante. Incapaz de se remeter à condição de mero ídolo pop, Kanye não foge de levantar questões importantes desde que, após a tragédia de Katrina, acusou o então presidente Bush de não gostar de negros. E depois cantou “Blood on the Leaves” e “Black Skinhead”. Para isso é preciso coragem. Tal como é preciso coragem para sentar Paul McCartney ao piano e ousar reescrever “Let It Be”.

 


 


Ao Sun, McCartney recordou como um dia a sua mãe lhe apareceu em sonhos, anos após ter falecido: “Eu estava num certo estado – eram os anos 60 e eu andava a abusar. No sonho ela disse “não te preocupes, tudo vai ficar bem, just let it be”. Eu acordei, pensei “uau” e escrevi a canção. Depois de contar essa história, Kanye disse: “vou escrever uma canção com a minha mãe”. E então sentei-me ao piano e “Only One” nasceu”. A história do nascimento de uma das mais amadas canções de sempre poderia intimidar qualquer um. Mas Kanye não é qualquer um, de facto.

 


 


SWISH poderá até, já alertou Kanye, nem se chamar SWISH. O privilégio de usar os caprichos repentinos como uma ferramenta de criação não está ao alcance dos meros mortais. Mas Kanye, ele próprio já o afirmou, não é um mero mortal. Claro que há muitos que se agarram a essa grandiosidade de ego, ao discurso muitas vezes excêntrico e desprovido de qualquer auto-censura ou limite, para tentarem minimizar o que Kanye faz na música. Muitos foram aliás os fãs da velha guarda dos Beatles a indignarem-se por McCartney ter descido do Olimpo para colaborar com Kanye. E é impossível não ler nesse tipo de reacções um certo racismo: já nem é apenas uma questão de Macca e Yeezy estarem juntos, mas da pop clássica e do hip hop parecerem estar aqui em pé de igualdade.  O que para muitos será inaceitável. Mas é bom que se habituem porque Kanye não parece que vá desaparecer tão cedo. Recentemente Kanye escreveu um ensaio para a revista Paper sobre o sonho americano que ele diz que já nem é americano é global. E aí ele fala como o farol de uma geração: “Penso que é importante para mim, enquanto artista, dar o máximo de informação possível ao Drake, ao A$AP, Kendrick, à Taylor Swift, a todos estes jovens artistas, tenho que lhes dar o máximo de informação que lhes permita fazerem ainda melhor música no futuro”. Kanye poderá até nunca se candidatar, mas a verdade é que fala já como um verdadeiro presidente.

 

*Texto originalmente publicado na edição 108 da Blitz.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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