Kanye West em entrevista com Charlamagne: depressão, terapia, Jay-Z, Obama, Donald Trump e o novo álbum

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

No meio dos tweets que publicou nos últimos tempos, Kanye West revelou que tinha dado uma entrevista a Charlamagne Tha God do The Breakfast Club, programa emitido na Power 105.1. A conversa chegou ontem à Internet e Yeezy tocou em vários assuntos importantes, relacionados com o seu regresso ao Twitter, que tem sido palco para inúmeros statements, várias novidades e bastante polémica.

 



[A DEPRESSÃO]

Kanye West foi hospitalizado em 2016 devido a um esgotamento emocional. Durante a entrevista com Charlamagne, Ye passou a lupa sobre os vários motivos que o levaram à depressão.

“Medo, stress, sentir-me controlado, manipulado… Como se fosse um peão no tabuleiro de xadrez da vida. O conceito de competição e o estar em competição com tantos elementos ao mesmo tempo… Colocar a mesma quantidade de empenho naquele trabalho [The Life Of Pablo] e ficares à espera que seja como o Graduation, que foi todo tocado na rádio, é frustrante. E desde aquele momento com a Taylor Swift nada foi igual… Essa ligação à rádio. Seja lá quem a controla, ficou bem mais difícil depois disso… Mas a rádio foi apenas um dos factores. Tens também a situação da minha mulher [ter sido roubada] em Paris e todos esses elementos juntos… Sentes-te impotente.”

 


[A TERAPIA]

Após a “queda”, Kanye viu-se isolado no hospital, longe dos amigos, aqueles que considera como a principal razão para o seu bem-estar. Apesar de estar a ser medicado, o rapper e produtor recusa a psicoterapia e tem recorrido aos seus próprios métodos para se endireitar — “a medicação é uma solução imperfeita para me acalmar e há muitas outras maneiras de o fazer”, revelou.

“Eu uso o mundo enquanto meu terapeuta. Qualquer pessoa com quem falo é minha terapeuta. Falo com elas sobre o que sinto no momento para ter as suas perspectivas. Por vezes elas ficam tipo, ‘bolas, estou a falar com o Ye e não esperava estar a falar sobre isto.’ Eu vou falando sobre as coisas e faço disto um conselho para as outras pessoas: usem quem está à vossa volta enquanto vosso terapeuta, porque eles provavelmente conhecem-vos melhor. Um [verdadeiro] terapeuta entra na vida do Ye e vem tipo, ‘eu quero dar-te alguns conselhos.’ E eu não quero dizer que terapeutas são maus, apenas que eu prefiro falar com conhecidos, amigos, familia, tu sabes. Mantenho-os ao telefone por 45 minutos de cada vez enquanto falamos sobre as coisas. Pode soar a algo narcisista, estar a falar dos meus problemas, a usar a energia deles.”

 



[JAY-Z]

Em 2017, Jay-Z lançou o aclamado 4:44, disco que contém o “Kill Jay-Z”, tema no qual o veterano rapper faz referência a Yeezy, frisando que se sentiu traído pelos comportamentos do seu protegido depois de lhe ter passado para as mãos “20 milhões [de dólares] sem pestanejar”. Kanye considera que a “notícia” foi dada de forma errada.

“Os meus problemas com o Jay baseiam-se em informação. Sou super esfomeado por informação. Preciso mais de informação do que validação, mais do que financiamento… Na verdade, esse dinheiro [que é referido em ‘Kill Jay-Z’] ele obteve-o da Live Nation. Fazia parte de um contrato para a digressão. Mas o facto de ele o ter dito que veio dele… Sou um artista muito leal, emocional. Mais do que o dinheiro em si, isso fez-me sentir que estava em dívida para com ele.”

Os problemas entre ambos parecem, no entanto, estar a ser ultrapassados: “Estamos bem. Temos enviado mensagens um ao outro com energia positiva. (…) Não o tenho visto mas consigo senti-lo. Por vezes, quando tens pessoas com personalidades tão semelhantes a tentar criar a sua própria existência, o seu próprio mundo… Sabes que elas precisam de o fazer à sua maneira.”

 


[BARACK OBAMA]

O regresso de Kanye West ao Twitter tem servido para abordar todos os assuntos que pairam na cabeça do artista. Nem a política é deixada de lado nos fulminantes tweets de Ye, que apontou algumas críticas a Barack Obama. Em conversa com Charlamagne, explicou como a relação entre o artista e ex-presidente começou saudável e relembrou o momento que fez com que as coisas azedassem. Obama deu uma entrevista à CNBC em 2009, da qual escaparam algumas filmagens off the record onde chama “idiota” a Kanye West.

“O Obama veio ter comigo e com a minha mãe antes de se candidatar à presidência, para me informar sobre essa candidatura, e porque sou o artista favorito dele e o melhor de todos os tempos… O Obama disse-me ‘Ye, tu és o meu artista favorito e eu quero o teu apoio, estou a candidatar-me à presidência.’ Depois eu subi a palco. E tudo tinha sido bom se este vídeo não tivesse saído mas vocês viram o vídeo. A mesma pessoa que se sentou perante mim e a minha mãe devia ter comunicado comigo directamente.”

 



[DONALD TRUMP]

A polémica instalou-se quando Mr. West declarou apoio a Donald Trump e dedicou-lhe sucessivos tweets. Foi também pela rede social que esclareceu os seus seguidores, fazendo questão de afirmar que não concorda com todas as decisões que o presidente dos EUA toma a partir do seu escritório. A ligação entre Kanye e Trump vem de algo mais profundo do que meras questões de idealismos — Yeezy elogia o seu presidente pela determinação em alcançar o seu objectivo, demonstrado que, por vezes, até o mais inconvencional dos cenários se pode suceder.

“Não tenho todas as respostas que uma celebridade supostamente tem de ter, mas posso dizer-vos que quando ele concorreu à presidência eu senti algo. O facto de ele ter ganho a corrida tem de provar alguma coisa. Prova que qualquer coisa é possível na América, que Donald Trump é o presidente da América. Não me estou a referir ao que ele fez no seu escritório.”

Mais à frente, Kanye traça até um paralelismo com a sua situação, ele que, desde 2015, dá a entender que quer concorrer às eleições de 2020.

“Lembram-se quando disse que queria concorrer à presidência? Tive gente próxima, amigos meus, a fazer piadas, memes, a falar porcaria. E agora ficou provado que isso é possível. Quando vejo um forasteiro a tentar infiltrar-se eu ligo-me a isso. Gosto que vos façam ver que tudo é possível. O Virgil a trabalhar na Louis Vuitton, o Trump na presidência, estamos na era do inconvencional. Eu não sou um pensador tradicional, sou um não-conformista.”

 


 


[O NOVO ÁLBUM]

Parece que Turbo Grafx 16 está fora dos planos de Yeezy, naquele que pode ser um dos anos mais produtivos de sempre na sua carreira. Conclusão: música assinada por Kanye West é algo que não vai faltar durante 2018. Os álbuns de Teyana Taylor e Pusha T, pela GOOD Music, são ambos produzidos por si. Também Nas recorreu ao criador de TLOP para arquitectar o seu próximo disco. Em Junho há também rimas de Mr. West, com um projecto a solo e outro em colaboração com Kid Cudi a serem editados com uma semana de intervalo.

LOVE EVERYONE, o título do seu próximo longa-duração, terá sete temas, todos eles também produzidos pelo próprio Ye. Sobre as faixas que vamos poder encontrar em LOVE EVERYONE, Kanye esclareceu: “Eu quero criar música que seja terapêutica. Sinto-me a explorar coisas dentro do território da ‘Real Friends’.”

 



O Twitter tem reagido em massa às quase duas horas de conversa entre Kanye West e Charlamagne. O radialista colocou no YouTube um pequeno resumo, bem como a sua própria opinião acerca de tudo o que foi debatido na entrevista.

Também a indútria musical vai sentido as consequências dessa longa conversa. Americo Gazaway, reconhecido produtor pela sua vertente de remisturar temas, aproveitou uma deixa de TLOP para afirmar que tem saudades do “velho Kanye”.

E temos, claro, o próprio Kanye West a reagir a Kanye West: a entrevista com Charlamagne serviu para estrear um novo endereço digital onde não faltam memes retirados do extenso vídeo para que o “vírus” Kanye se espalhe ainda mais e tome proporções absurdas. It’s Yeezy Season, baby!

 


kanye west


 

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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