Kamasi Washington no Lisboa ao Vivo: a beleza de colorir dentro e fora das linhas

[TEXTO] Alexandre Ribeiro e Vasco Completo [FOTOS*] Pedro Mkk 

Num sábado à noite a piscar o olho ao Verão, Kamasi Washington e a sua banda mudaram-se de malas e bagagens para o Lisboa ao Vivo e foram recebidos por uma plateia entusiasmada que sabia exactamente para o que vinha e que respondeu com energia nas pausas entre músicas ou após os solos eloquentes dos músicos. E foi dessa maneira que o espaço lisboeta se transformou numa pequena bola de fogo a emanar calor e amor.

Em 2019, Kamasi é um dos nomes mais badalados do jazz, mas a sua fama vai muito para lá das paredes desse género musical, muito por culpa do disco lançado pela Brainfeeder de Flying Lotus ou das contribuições para álbuns de ilustres como Kendrick Lamar, Run The Jewels, Thundercat ou Ibeyi. Num momento particular em que existe espaço para  BadBadNotGood e Kamaal Williams tocarem em festivais tão diferentes como Vodafone Paredes de Coura, ID No Limits e EDP Cool Jazz, não ficamos admirados quando olhamos para um público com representações de diferentes faixas etárias, raças e classes sociais. Como o próprio Washington reforçaria, a diversidade tem que ser celebrada e não o contrário — o diálogo entre elementos será sempre a melhor maneira de se descobrir algo novo e fascinante, e o saxofonista sabe-o melhor que ninguém.

Grande parte dos músicos em palco pertence ao colectivo West Coast Get Down, os “Wu-Tang Clan do jazz”. Percebe-se a comparação: todos os membros lançaram sólidos trabalhos a solo sem nunca se afastarem da essência que os uniu, por exemplo. Em conjunto, a fasquia aumenta: qualquer produtor de rap adoraria ter estes nomes em estúdio para “resgatar-lhes” pedaços da sua magia.



Passemos então para o concerto. Se fechássemos os olhos, teríamos, por momentos, a sensação de que estávamos perante uma big band. A muralha sónica (com o embalo rítmico das baterias controladas por Tony Austin e Ronald Bruner Jr.; pelo contrabaixo habilmente violentado, digamos assim, por Miles Mosley; pelo trombone de Ryan Porter; pelos teclados imaginativos de Brandon Coleman; pela belíssima voz de Patrice Quinn; e, claro, pelo saxofone do musicólogo americano) era de tal forma potente que parecíamos estar frente a frente com uma incontável quantidade de pessoas. Em boa parte do concerto, o line-up teve direito a presença especial: Rickey Washington, o pai do autor de The Epic, acrescentou mais uma camada através da flauta transversal e do saxofone soprano.

Com tanto talento por metro quadrado, a invejável banda nunca se sentou à sombra do seu mestre, utilizado a improvisação como mote para a exaltação das suas qualidades, mas principalmente para exibir uma leveza e despreocupação na instrumentação. No entanto, a soberba execução do saxofonista impõe-se: mesmo em momentos de pergunta-resposta, Washington fez questão de demonstrar o porquê de todo o falatório à sua volta.

Como já foi mencionado nos parágrafos anteriores, o grupo apresentou-se em momentos individuais: uma drum battle em que os vencedores somos nós, solos de talk box de teclado à la Stevie Wonder, vocalizações que ligaram a palavra ao tema dos instrumentais e um solo assombroso do contrabaixista. Mosley toca o contrabaixo como Tom Morello toca uma guitarra ou Miles Davis tocava um trompete: sempre a testar os limites do instrumento, trazendo novas linguagens e dificultando muito as categorizações fáceis e simplistas.

No final, poucas dúvidas existiam sobre os méritos daqueles músicos. As mil possibilidades e direcções das deambulações jazzísticas nunca deixaram de cativar a audiência, independentemente da velocidade do swing ou da intensidade e impacto do instrumental — em “Truth”, uma das canções mais memoráveis do alinhamento, sentimos ambientes divergentes, tudo numa música só, mas nunca nos perdemos, pelo contrário. A versatilidade foi o pilar da narrativa que se escreveu através de dinâmicas e intensidades crescentes que procuraram uma transcendência que desafia qualquer lógica.

Mais uma vez, Kamasi Washington mostrou-nos a beleza de colorir dentro e fora das linhas.


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* As fotografias foram tiradas na actuação de Kamasi Washington pelo Porto. 


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