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Fotografia: Diana Neto

"Alice in Wonderland" sucede a "1994", o primeiro single do longa-duração de estreia de Pedro Gomes.

kamaraum: “Diria que a minha maior influência é o tipo de música que te faz sair do chão e leva para outro sítio”

Fotografia: Diana Neto
kamaraum apareceu no início de 2019 com uma adaptação refrescante do conhecido tema de Aphex Twin, “Rhubarb”. Essa primeira investida prometia e demonstrava capacidades no trabalho de sampling, mais concretamente no arranjo e na produção. Com os singles que se seguiram, a promessa foi sendo cumprida, mas a qualidade de composição melódica saltou à vista e evidenciou-se na ambiente “Half Love” e na dream pop de “1994”, que conta com a contribuição de Nana Lourdes. Em 2020, o produtor entra a pés juntos com a dançável “Alice in Wonderland”, segundo avanço do seu primeiro álbum: KRUSTÁCEO. A faixa volta a ter ajuda na produção e mistura por parte de Nana Lourdes. “The computer, an extension of the human intellect”, ouve-se no princípio da música, informando que este single, mesmo que saído dum computador, é uma parte muito humana de kamaraum. Apesar de algumas semelhanças com algum indie e electrónica desta última década – particularmente a Currents de Tame Impala – é injusto focarmo-nos em comparações. E é injusto porque, apesar da estética de sintetizadores se assemelhar, é de valorizar que em quatro músicas a solo tenha já apontado para direcções distintas. É indie psicadélico, é dream pop, mas também é electrónica french touch e downtempo, sem nunca largar a guitarra. Algum revivalismo à mistura, sim, mas o que está por vir por parte do produtor português é entusiasmante. Pedro Gomes falou ao ReB sobre as suas influências, o disco que vem aí – no qual podemos esperar mais vozes (a sua e a de outros) – e a motivação de emergir “do fundo do mar”.

Este é o teu trabalho mais upbeat até à data. O que acontece à Alice neste single tão dançável? Acho que a Alice esperava encontrar a Rainha de Copas mas acabou por se distrair com sintetizadores e guitarras. É um fenómeno que me acontece quase diariamente, confesso. Por acaso, ainda que de forma indirecta, a música só existe graças ao Jai Paul. Houve uma fase no ano passado em que estive obcecado com as músicas e produção dele e os acordes do refrão da Alice nascem precisamente daí – estava a tentar fazer algo na onda da “Jasmine” dele. Claro que depois ganhou outros contornos e um rumo diferente, mas a ideia nasceu aí. A “The Music Scene” do Blockhead também me empurrou nessa direcção (a primeira versão da Alice até tinha um solo de saxofone). Quis experimentar usar samples e tentar fazer algo orgânico, mais dançável e alegre que a “1994”. Gosto de acreditar que num universo paralelo existe o filme da Disney mas ao som desta versão. A tua música apela a um certo revivalismo estético, talvez até pelos sintetizadores que usas em muitos dos teus trabalhos. Apostas em soundscapes ambient numa estrutura pop. Quais são as tuas maiores influências? Eu cresci a ouvir música onde o elemento principal era a guitarra eléctrica, desde Jimi Hendrix a Deep Purple ou Guns N’ Roses a Megadeth, e durante muito tempo fechei-me a outros estilos por mero preconceito – achava que o único tipo verdadeiro de música era o rock e tudo o resto, por mera exclusão de partes, era “comercial”, portanto não merecia ser ouvido. Fui um desses nabos. Felizmente, os Pink Floyd acabaram por ser o meu portal para os sintetizadores e outros tipos de sonoridades mais ambientes e distantes de distorções. Comecei a ouvir electrónica lenta e contemplativa, como Sensible Soccers, Tycho, ou Boards of Canada. No entanto, algumas das minhas bandas favoritas são as que fundem essa estética ambiente e introspectiva com uma estrutura mais vincada (e talvez com esse mesmo lado “comercial” que eu antes rejeitava), como Tame Impala, Beach Boys, Air, entre muitas outras. Há algo de psicadélico que transcende muitos dos artistas que gosto de ouvir, mesmo contemporâneos. Acho que a música psicadélica, durante muito tempo, esteve exclusivamente associada à época dos anos 60 e a guitarras encharcadas em efeitos. Mas isso acaba por ser um bocado redutor – acho a “Pretty Sweet” do Frank Ocean tão psicadélica quanto a “Purple Haze” do Hendrix, por exemplo. Acaba por ser mais um estado de espírito e de te deixares levar pela música do que propriamente teres um reverb com um pre-delay de 20 milissegundos e um decay de 8000 horas. O breakdown da “Pursuit of Happiness” do Kid Cudi é mais psicadélico que muitas bandas vindas do “Flower Power”. A Grimes tem músicas mais próximas de folk espacial do que qualquer outro estilo dito tradicional. Diria que a minha maior influência é esse tipo de música, que te faz sair do chão e leva para outro sítio.  A juntar a isso, e apesar dos meus singles até agora ainda não terem explorado a fundo esse gosto, também oiço bastante hip hop e outro tipo de electrónica. Daft Punk, Flying Lotus, Justice, Kanye, Yellow Magic Orchestra, Danny Brown, A Tribe Called Quest, SebastiAn, Aphex Twin,… Estes artistas que trabalham o groove de forma tão acentuada, mesmo que de formas muito diferentes entre si, influenciaram muitas das coisas que vou lançar. Já tens trabalhado num projecto que tens em duo, o Kamaraum com Beatata, e lançaste a nostálgica “1994” com a Nana Lourdes. Podemos esperar mais colaborações para o teu próximo disco? É algo que ando a explorar. A próxima será com o João Tamura e terá mais guitarras que as minhas músicas anteriores. Tenho mais algumas à espera de voz, ando a ver se lhes encontro companhia. Se não encontrar, vão ter de levar com a minha voz de rouxinol. Em termos de produção propriamente dita, a Nana Lourdes tem-me ajudado nessa parte e também na mistura, portanto no resto do álbum também podem contar com o toque dela.  O que nos podes contar do álbum que estás a promover com este single? Em que fase do processo estás? Bem, este álbum já passou por várias fases na minha cabeça. Inicialmente quis fazer um EP. Tinha algumas músicas com o mesmo tipo de ambientes mas rapidamente me fartei e comecei a fazer outras onde a electrónica estava mais presente. Este álbum acaba por ser um conjunto dessas duas partes distintas, com a promessa de que nenhuma música soará igual à anterior. Já tenho algumas prontas e outras tantas por finalizar, hão-de ser desvendadas ao longo dos próximos meses. Vai chamar-se KRUSTÁCEO. Que planos tens além deste álbum? Tencionas passar alguma faixa para vídeo?  Já tenho um videoclipe filmado no Egipto e algumas ideias para as outras músicas. Talvez algumas delas sejam animadas e não propriamente filmadas, é uma área que quero explorar mais a sério.  Além do meu álbum, gostava de produzir para outros artistas e isso talvez venha a acontecer num futuro próximo. Seja hip hop, pop, electrónica, contem com os meus bigodes. O formato live é uma aposta possível para os próximos tempos?  Eventualmente terei de abandonar o fundo do mar. Ainda não sei bem em que contornos — se em formato banda ou DJ — mas é algo que vou fazer.  Tens interesse em estar mais dentro da cena de produzir bandas sonoras, não é? Sim, é algo que gostava de fazer com mais regularidade. Seja para filmes, publicidade, videojogos, até por jingles de podcasts eu tenho fascínio. Já fiz algumas coisas nessas áreas e o processo é sempre interessante porque são – muitas vezes – estéticas diferentes daquela que é a do meu trabalho a solo e isso desafia-me a pensar e a criar de maneira diferente. O meu objectivo é crescer enquanto produtor, portanto, quantos mais géneros e estruturas diferentes estiver exposto, melhor.

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