Ka§par: “Procurei erguer um trabalho que estudasse emocionalmente toda a introspecção que surge no meio desta situação”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

Por esta altura, músicos por todo o mundo foram forçados a arranjar soluções para contrariar muitos dos problemas que advieram da pandemia causada pelo novo coronavírus. João Pedro Gaspar da Silva Pires, mais conhecido como Ka§par, foi um deles, e a sua mais recente compilação transformou-se, pelo menos no imediato, na primeira tentativa de respirar ares menos tóxicos.

Ave De Rapina é um trabalho de reacção, de quem percebeu que teria de arranjar maneira de se virar com a incerteza de um futuro ainda muito indefinido. O alumni da classe de 2005 da Red Bull Music Academy, em Seattle, contou-nos tudo sobre o processo de selecção de canções para este projecto, os colaboradores e o equipamento e, como não poderia deixar de ser, o futuro pós-COVID-19 das pistas de dança.



Fala-nos do conceito deste Ave De Rapina. O que é que orientou a criação de todas estas faixas?

Antes de mais tenho de agradecer a prontidão com que o Rimas se disponibilizou a ajudar na divulgação deste trabalho. O material incluído em Ave de Rapina é misto: em parte é uma recolha de temas que saíram em formato físico e estavam geralmente indisponíveis em plataformas digitais até ao momento, por outro lado juntei alguns temas que estava para terminar e outros que tinham sido lançados apenas em compilações que há muito deixaram de estar disponíveis. Passei a última semana no estúdio a misturar de novo todas estas coisas para que estivessem actualizadas em relação ao “skill” técnico (principalmente a nível de mistura e masterização) que entretanto desenvolvi. Já tinha a ideia de fazer este e outros álbuns para uma página de Bandcamp, que pudessem mostrar ao mundo digital o que tenho lançado no mundo analógico mas que teve um alcance limitado dado a exclusividade do formato. A minha disponibilidade até ao surto não me permitia investir o tempo necessário para o ter realizado antes, mas esta semana de quarentena deu-me a ocasião que precisava para realizar a tarefa.

Musicalmente, como descreves os terrenos por onde navegas neste trabalho, quais foram as tuas balizas?

Quando imaginei este trabalho concluído, pensei em utilizar o meu material mais musical e menos “clubby/tracky”, ideia que se mostrou ainda mais certa quando de repente deixaram de haver pistas de dança e espaços onde partilhar uma festa. Assim, passei em revista tudo o que estava disperso por vários trabalhos, pedi autorização ou notifiquei as editoras e colaboradores que me tinham lançado essas tracks e tentei compatibilizar tudo isso numa mensagem coerente, embora variada. Procurei erguer um trabalho que estudasse emocionalmente todo o aspecto introspectivo e de questionamento individual que é tão evidente que surge no meio desta situação.

O álbum foi criado, segundo percebo, num curto espaço de tempo, certo? Será por isso mesmo marcado pela incerteza dos tempos em que vivemos?

Foi feito em pouco tempo, sim, embora não tenha sido composto nem gravado apenas durante esta semana porque seria impossível apresentar tracks maduras nesse cenário. Podia (e pensei em…) apenas fazer 10 tracks inéditas… mas isso teria duas consequências necessárias: seriam composições previsivelmente simples e com pouca exploração — porque o tempo não permitiria o tipo de pesquisa que gosto de fazer nas ideias que me surgem. Marca certamente a incerteza dos tempos que vivemos, porque me dediquei a ele antes que me veja impedido de tal (por motivos de liquidez ou simples sobrevivência). Assim, se no pior cenário me vir forçado a pedir ajuda, poderei oferecer algo e não apenas “cravar” o próximo. Disse isto com algum humor, mas a situação não tem muita piada.

Que ferramentas utilizaste na criação deste álbum?

Sou capaz de gravar qualquer coisa… há muitas tracks com instrumentação ao vivo mas também com elementos improváveis! O clap do tema “Blood Moon” (que, por exemplo, já havia sido usado numa versão anterior, no EP digital An Entry Granted que lancei com o nome Fidelio na editora Con+ainer do Ludovic), é na verdade o folhear de um livro bem gordo para cima do microfone (a saber, Encontro Magick de Miguel Roza). Há inúmeros sons que parecem naturais e simples instrumentos, mas são fruto de alguma imaginação e descaramento na produção. Muitos dos “snares” são sobrepostos ao som de pacotes de esparguete a cair em cima da bancada de mármore da cozinha! Eu gosto sempre de trazer à minha palete acústica um toque de exclusividade e autoria. Este álbum usa synths analógicos, FM e digitais, tanto físicos como em VST, vários samplers diferentes (Pioneer DJS-1000 que me foi emprestado pela escola onde dou aulas — a Centro i4DJ — ou o Electribe SX que é um pesadelo de configurar). Compus e arranjei no Ableton Live, misturei em três plataformas: Live, Reaper e Pro Tools.

Há também um par de colaborações pontuais neste trabalho, certo?

Certo! O lendário músico de Detroit radicado em Lisboa, Jerrald James, canta no tema “Let Me Be” (que saiu no trabalho Sysiphean Rage, editado pela Midnight Shift com uma remix do Kirk DeGiorgio). É mais conhecido no meio como Jerry The Cat, o mesmo que lançou a sua música em labels de culto underground do house da Motor City — como a Sound Signature, Planet E ou a Soirée – e que na sua juventude chegou a integrar o outfit live dos Parliament/Funkadelic. Em “Coastal Soarings” (editado previamente em vinil na label Finale Sessions de Michael Zucker, radicada em Orlando) é Daniele Labbate que toca o baixo e ajuda com a percussão de djembé. Dani é conhecido como Daniele Monaco, e foi stage musician do Bob Sinclair, é o produtor da banda Umeme Afrorave e um grande amigo. No tema “Azazel”, ouve-se o meu sócio e melhor amigo DJ Kronic, produtor lendário do hip hop nacional, a tocar guitarra. Os meus amigos da Percebes: a Sheri Vari, o Hélder Russo, o Daino e outros foram sempre contribuindo com sugestões e ajudas diversas ao longo do processo.

Quem te conhece sabe que és um criador que nunca se demite de pensar sobre a arte. O que pensas que o futuro imediato reserva para a cena musical em geral e para as correntes electrónicas em que te moves em particular?

Aquilo que me pareceu evidente é a volatilidade do mercado físico. As lojas não podem estar abertas e eu tive de fechar o meu bar no Bairro Alto na sexta passada, sem ter feito um tostão desde esse momento. A questão do vinil VS digital voltou a surgir. Pretendo sempre editar fisicamente a minha música mas com isto não pude senão concluir que isso me estava a criar problemas, porque de repente ninguém tinha como ouvir a minha música em streaming ou ajudar-me comprando os meus discos porque já estão esgotados. De todas as editoras que me venderam a música, não consegui qualquer tipo de remuneração que não fosse o sentimento de ter trazido um artefacto ao mundo, e de repente isso já não basta. A música precisa de ser difundida e tornada algo que se partilhe e consuma, e contra factos não pode haver argumentos, mesmo que hajam paixões pessoais (porque fui e serei sempre um coleccionador e comprador de discos). Acho que o futuro vai-se desenhar muito a partir deste momento, na forma como os artistas falam e se relacionam com as pessoas que os seguem. Actualmente, um músico que crie conteúdos originais de forma independente como eu terá de ser tudo: compositor, produtor, intérprete, engenheiro de som, e business man plenamente informado e capacitado para divulgar a sua música.

A música electrónica de dança foi sempre muito baseada no espírito de partilha comunal, nos clubes, nas pistas de dança, nas cenas distintas que se construíram ao longo dos anos em cada cidade. Será capaz de voltar a construir essa ideia de comunidade em tempos de isolamento? Vão aparecer pistas, comunidades, novas cidades digitais?

Foi talvez em 2000 que eu uma vez, a passar férias em Aveiro, bebendo copos com amigos, propus que considerassem uma realidade virtual em que, de capacete, as pessoas pagassem dinheiro virtual para ir a um club virtual onde consumissem o DJ set que queriam, como uma rede social (na altura usava o mIRC como referência, hoje é o Instagram ou o Facebook). A ideia é divertida e eu acho a sua realização inevitável (aliás, o último Grand Theft Auto já funciona assim), mas não há nada como uma experiência em primeira mão… rappar por cima do “Fuck The Police”, abraçar os amigos no refrão do “Doctor Love”, ranger os dentes quando entram os pratos de choque da 909 numa track do Omar S, fechar os olhos quando o DJ toca aquele mellow soul do Leon Ware ou bater palmas quando a última track que o Rui toca no Lux é o “Heroes” do David Bowie… isso é impagável e é para isso que eu vivo. No limite esta cena precisará sempre de uma realidade tangível para se encontrar e validar, como precisa que se cortem discos para estabelecer um certo status quo de qualidade que não sendo vital é muito útil para separar o trigo do joio. Agora, que isto vai mudar, vai de certeza… mas não se pode perder de onde vem porque essa origem é perene.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu