Justin Hopper, Sharron Kraus & Belbury Poly // Chanctonbury Rings

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

E, de repente, passaram 15 anos. É assim o tempo, certo? Passa, independentemente de tudo o resto. Gasta-se e renova-se em simultâneo, interminável e inexorável. Mas há uma forma de capturar o tempo. “Record“, em inglês, (tão perto da palavra portuguesa “recorde”, do verbo recordar, que é, afinal, lembrar o que já aconteceu) significa não apenas “disco”, mas também “registo”, “documento”, “arquivo” ou “gravação”. Tudo formas de capturar o tempo, de o preservar, de o guardar para memória futura. E é exactamente isso que a Ghost Box de Jim Jupp e Julian House tem feito desde 1984: preservar uma ideia — tão real quanto construída — de um passado particular ao mesmo tempo que vai erguendo uma possibilidade alternativa de futuro.

No dia em que o Verão arranca, data de um solstício que traduz uma ancestralidade pagã que parecemos já todos ter esquecido (embora a nossa natureza mais funda ainda esteja em ténue sintonia com o seu poder magnético), sai Chanctonbury Rings, registo (lá está…) que reúne a voz de Justin Hopper lendo textos do seu The Old Weird Albion (ed. Penned in the Margins), a música da artista folk Sharron Kraus e ainda o véu electrónico de Belbury Poly, o projecto de Jim Jupp que tem estado presente desde os alvores do catálogo da Ghost Box.

O álbum parte de uma performance de 2017 em que Hopper leu excertos do seu livro, tendo, para tal, convidado Sharron Kraus inicialmente apenas para criar uma banda sonora de 10 minutos, mas a ideia evoluiu até se consolidar em Chanctonbury Rings, trabalho que mereceu ainda o input de Belbury Poly. E o álbum acaba, afinal de contas, por ser uma delicada tapeçaria de leituras (numa voz muito expressiva, situada algures no meio da “encruzilhada” que se poderia desenhar entre um actor, um declamador e um locutor que narra documentários), canções e ambiências de Sharron Kraus com produção electrónica adicional de Jim Jupp, artista que parece interpretar as histórias aqui contadas (que falam de druidas e templos romanos, de pagãos e de primeiros cristãos, de fantasmas, de neblinas, de caminhos, paisagens, árvores e de memórias) com melodias evocativas de alguma tensão cinematográfica a que junta também gravações de campo, com sons dos elementos e da própria natureza.

Essa é a beleza, afinal de contas, do particular universo proposto pela Ghost Box. Partindo da ideia de hauntologia, a noção de que parecemos viver rodeados de fantasmas e memórias do passado (e o que são as vozes registadas em velhos documentos — discos, arquivos de rádios, documentários de televisão, etc — senão fantasmas com que nos encontramos todos os dias?), esta pequena etiqueta britânica construiu um universo musical muito próprio em que a electrónica pioneira do Radiophonic Workshop, as técnicas e os sons da música concreta, a folk de recorte mais psicadélico, os primórdios brutalistas da cena synth pop, o krautrock e a library music mais abstracta se cruzam com as lições recolhidas junto de projectos como Broadcast, Boards of Canada ou Aphex Twin. Com diferentes nuances, a exploração de todas estas possibilidades por parte de projectos como o já citado Belbury Poly, mas também Focus Group (Julian House), Advisory Circle (Jon Brooks) e, mais recentemente, Pye Corner Audio (Martin Jenkins) ou os portugueses Beautify Junkyards rendeu um dos mais originais e entusiasmantes catálogos de música das últimas duas décadas. Cerca de meia centena de edições, entre álbuns e séries temáticas de singles, embaladas em objectos com sólida identidade gráfica (trabalho incrível de Julian House) contribuem igualmente para que se encare o universo da Ghost Box como uma entidade muito bem definida, imediatamente reconhecível e profundamente original.

Essas qualidades encontram-se todas em Chanctonbury Rings, um álbum que se pode escutar de olhos fechados ou, de preferência, de olhos perdidos algures numa paisagem natural, com um bom par de auscultadores que facilitem a imersão nos sons, nas palavras, nas canções, nas texturas. Quase certo que de repente seremos transportados para uma outra dimensão, paralela, em que não perceberemos muito bem se as ruínas tomadas pelo avanço da natureza que poderemos vislumbrar no meio dessa paisagem são de um tempo passado ou do futuro que hoje vivemos. Porque o tempo, passa mesmo. Até o que ainda não chegou já é passado na memória futura de alguém…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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