Jungle Brown // Full Circle

[TEXTO] Manuel Rodrigues 

Para quem aprecia construções de uma textura apenas, Full Circle, o recentemente editado álbum dos londrinos Jungle Brown, não será provavelmente a audição mais indicada, principalmente se comparado com Flight 314, a estreia do colectivo, lançada em 2016 — na altura muito aplaudida pela crítica. Flight 314 é um trabalho que sobrevoa na sua esmagadora maioria os terrenos do boom bap, por vezes polvilhado com apontamentos jazzísticos, como em “Same Old Same”, outras vezes totalmente imerso na vibração dos anos 90, como em “In the City”, que recupera a célebre frase “it’s like a jungle sometimes, it makes me wonder how I keep from going under” do clássico “The Message”, de Grandmaster Flash & The Furious Five. Digamos que é um documento com uma linguagem muito própria.

Apesar de também beliscar aqui e ali os campos do boom bap, exemplificado pelos singles “Keep it Movin’” e “We On” — lá chegaremos aos dois —, Full Circle não se priva de visitar outros universos, do jazz ao house e do trap à soul. O álbum, editado pelo policromático selo Mr. Bongo, emerge numa altura em que Londres, o grande caldeirão de povos e culturas, se mostra cada vez mais plural e mestiço no que diz respeito a géneros musicais, com muitos colectivos a cruzarem a cultura de clubbing com as aprendizagens do jazz e a trazerem as suas raízes — africanas, sul-americanas, etc. — para o produto final. Não é que isto seja algo de totalmente novo nas comunidades britânicas, contudo, o boom destes últimos anos é inegável: basta olhar para a quantidade de discos que nasceram dessa saudável mistura.

Partindo do princípio que Full Circle não foi pensado e gravado num cubículo estanque às interacções do meio que o rodeia, é normal que MAEAR, Tony Bones e Ric Flo, os membros que constituem os Jungle Brown, tenham respirado essa contagiante atmosfera. “Keep it Movin’”, o tema de abertura que aborda o lado positivo da mudança, seja ela geográfica (nova casa, cidade ou país) ou económica (da escassez à oportunidade), pede emprestado o saxofone de Ayo the Yung Afrika Pioneer para uma melodia que não se contenta em ser uma mera base instrumental, assumindo, por isso, um papel quase tão importante quanto as vozes de MAEAR e Ric Flo (na canção ouvem-se ainda os backvocals do produtor Tony Bones). O mesmo saxofone volta a ser escutado no final do disco, em “Custom Made”, como forma de encerrar o ciclo da obra



“Ikoja”, que se segue a uma compassada “Wicked” (destaque para os versos de Fliptrix), é a primeira a apontar a mira para a pista de dança, numa toada afrohouse, com a voz de Eldé a tomar conta do refrão. A vibração repete-se na magnetizante “Sometimes”, menos afro e mais house, pensada para incendiar os palcos onde o álbum for apresentado (não é nada difícil imaginar o nervoso bombo do instrumental a rasgar os altifalantes dos clubes espalhados por esse mundo fora), sendo o exercício de vocalização desta vez entregue a Ruby.

“Wayside” e “Situationships” pautam a inclinação mais trap do disco. A primeira entende a passadeira para um exercício de dinâmica e flows, com MAEAR (mais médio agudo; maior ideia de agitação) e Ric Flow (mais gravalhão; maior ideia de serenidade) a não se deixarem intimidar pelo instrumental — atente-se também aos apontamentos de sintetizador (os mesmos voltam a evidenciar-se em “Time Ticks”, construção r&b com alma ne-yoesca). A segunda, de coração nas mãos, conta com a ajuda de K. Waltz, cantor e compositor que, numa oscilação vocal entre o som limpo e o processado, concede à canção a aura pretendida.

A qualidade dos instrumentais de Full Circle é também digna de destaque. Não sendo, numa primeira análise, uma residência abundante em matéria de instrumentos — não existem grandes “orquestrações” —, é um disco que se faz valer de uma boa articulação da simplicidade. Tome-se como objecto de estudo “We On”, que tem na participação de Sampa The Great um importante ponto de interesse (uma vénia à forma descontraída com que a artista de origem zambiana despeja rimas). O esqueleto da música não comporta grande complexidade — loop de bombo e tarola acompanhado por um sintetizador em crescendo que simula uma sirene, quase como se se tratasse de um “Shook Ones Part III”, prontamente substituído por um conjunto de acordes de teclas que serve de cama para os percursos líricos dos MCs — e deixa margem mais do que suficiente para outros instrumentos intervirem. Todavia, uma das grandes virtudes de um bom produtor é, muitas vezes, perceber se há realmente essa necessidade ou se a canção vive bem nas condições em que se encontra. Descomplicar também é uma dádiva.


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