Joseph Jarman dos Art Ensemble of Chicago morre aos 81 anos

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

A imprensa internacional deu ontem conta do desaparecimento de Joseph Jarman, multi-instrumentista que, sublinhava o New York Times no seu obituário, “ajudou a expandir os parâmetros da performance no jazz de vanguarda, sobretudo enquanto membro dos Art Ensemble of Chicago”.

Membro fundador do histórico colectivo AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), Jarman juntou-se a Roscoe Mitchell, Lester Bowie e Malachi Favors em 1967 num grupo que viria a consolidar-se no Art Ensemble of Chicago, em finais dos anos 60, entidade exploratória que cruzou jazz libertário, estudo de tradições africanas e uma presença teatral e ritualística em palco e que assinou uma incrível discografia.

Na Europa, os Art Ensemble of Chicago gravaram para importantes editoras como a BYG Actuel e colaboraram com artistas como Brigitte Fontaine ou Fontella Bass com quem gravaram o histórico álbum Les Stances à Sophie que recentemente mereceu reedição através da Soul Jazz Records a que o ReB deu a devida atenção:

“Este extraordinário álbum de 1970 dos Art Ensemble of Chicago foi pela primeira vez reeditado pela Soul Jazz em 2000, como parte da série Universal Sound com que a editora de Stuart Baker explorou algum do jazz mais libertário que a América produziu no auge do movimento dos direitos civis (compilações dedicadas à Strata East, álbuns de Marcus Belgrave ou Hannibal Marvin Peterson e Nathan Davis foram carimbados com o mesmo selo). Aliás essa actividade da Soul Jazz conferiu-lhes a autoridade para se envolverem na exposição que a Tate Modern montou o ano passado e que cobria arte produzida no mesmo período — Soul of a Nation – Art in The Age of Black Power.

Este álbum do colectivo de Roscoe Mitchell, Joseph Jarman ou Malachi Favors e Lester Bowie (todos participam nesta gravação) foi durante anos um segredo bem guardado no seio da cena de rare grooves que precedeu a explosão acid jazz dos anos 90 e de onde, aliás, se originou a ideia da Soul Jazz. Muito graças ao enorme “Theme de Yoyo” a que Fontella Bass dá voz (e que os portugueses Cool Hipnoise incluíram durante algum tempo no seu explosivo reportório de palco), este tornou-se um verdadeiro registo de culto. Agora, 18 anos depois da primeira reedição, a Soul Jazz, que tem uma  apurada gestão do seu fundo de catálogo, volta a relançar este clássico em CD e vinil. Relançamento mais do que bem-vindo, pois claro.”

Joseph Jarman deixou também vasta discografia como líder, assinou colaborações com outros visionários como Anthony Braxton ou Don Pullen e afirmou-se igualmente através do seu sacerdócio budista e como instrutor de aikido.

O músico, que residia num lar de artistas em Nova Jérsia, foi vítima de paragem cardíaca após problemas de ordem respiratória, de acordo com declarações da sua ex-mulher, a escritora e investigadora Thulani Davis.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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