LP / Digital

John Legend

Bigger Love

Columbia Records / 2020

Texto de João Daniel Marques

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Para quem conhece o artista, mas não a obra, John Legend pode parecer muito diferente neste último álbum. Bigger Love sucede ao disco de Natal da voz que nos trouxe “All Of Me” e soa, talvez por isso, mais atrevido e ecléctico — o que até pode ser considerado um bom truque de ilusionismo… Ainda assim, para os mais atentos, o novo trabalho não vai muito contra aquilo que sabemos ser Legend – um músico, com cerca de 20 anos de carreira, que já colaborou com artistas das mais diferentes praias, desde Kanye West a Alice Cooper.

O seu mais recente longa-duração foi escrito antes da pandemia e editado no seu decorrer e, por isso, poderia não fazer sentido escutá-lo nesta altura. Mas não é bem assim. Entre as baladas mais pop e r&b que podem arrecadar os lugares de destaque, também existem fortes vestígios de hip hop e rock através das presenças de Rapsody e Gary Clark Jr, reclamando a ideia, mesmo que tal não seja assumido, que todos os géneros têm uma raiz negra. No fundo, este disco é um brainstorm para a banda sonora leve do movimento Black Lives Matter pós-COVID-19 e pós-George Floyd.

“Ooh Laa” (bem menos abrasivo do que o “ooh la la” dos RTJ) abre o disco com um tema forte e de fortes influências r&b (no groove) e soul (na voz) que deixa água na boca para o que aí vem. É daqueles temas que se estabelece à primeira e só cresce dentro de nós. Com uma cadência lenta mas estupidamente catchy, o refrão entranha-se e custa a sair. Do mesmo mal, mas por razões estritamente diferentes, sofre “I Do”. Mais rápida de cadência, mais groovy e com um refrão simples de cinco palavras que pode ser encaixado em praticamente qualquer verso, o tema torna-se dançável e pode bem ser introduzido em playlists de fins de tarde à beira da piscina.



Os fãs de hip hop certamente reconhecerão a introdução de “Actions”, já que é retirada do tema de David McCallum que o grande David Axelrod compôs e produziu, “The Edge”. Para quem isto soar estranho, talvez ajude saber que é o mesmo sample utilizado em “The Next Episode”, de Dr. Dre. Também para eles, recomenda-se “Remember Us”, uma homenagem orquestral a grandes personagens negras dos últimos anos que invoca, entre outros, Kobe Bryant, Shaquille O’Neal ou Nipsey Hussle. Um tema que, dado o historial que os Estados Unidos apresenta, pode bem ficar imortalizado ou gravado na história do movimento.

Ainda de referir o ecletismo conferido por Koffee em “Don’t Walk Way”, que nos leva Verão fora até à Jamaica atrás de praia, piñas-coladas e mais refrões dos que ficam no ouvido. Ou Jhené Aiko, de quem esperávamos mais num discreto “U Move, I Move”.

Este é um disco para todos e que dá para todas as ocasiões, dependendo da faixa que escolherem. Muito ao jeito da interpretação de Legend, é uma obra sem pontos fracos evidentes, em que nada salta à vista pela negativa, mas que também peca por não trazer risco. Ficam os momentos bons em “Remember US” e “Ooh Laa”, ou a diferente (a tentar puxar um cruzamento com D’Angelo) “Slow Cooker”. O LP serve bem para uma viagem de carro tranquila a cantar, ou para ouvir à refeição, tudo sem nunca deixar de ser relevante para o que se passa hoje no mundo. Em tempos conturbados, também são necessários espaços de contemplação e recuperação. Pode ser que encontrem o vosso aqui.


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