Foi aparecendo no game de soslaio, primeiro enquanto Arauto, em showcases desenvolvidos por páginas de rap nas redes sociais, e depois enquanto John Do$, em projetos de produtores da zona de Lisboa. Sushi e Champanhe é, no entanto, o primeiro projeto e a apresentação de John Dough, agora com um novo e definitivo cognome.
Oriundo da Figueira da Foz e radicado na mina de ouro etimológica que é Almada, João Rico, nome verdadeiro de John Dough, parece ter feito escala na Nova Iorque de Roc Marciano e ter trazido de lá alguns flavors — pun intended — para trazer ao rap nacional.
Mordaz, refinado e assertivo são adjetivos que podem definir tanto o rapper quanto o projeto que hoje dissecamos. A produção, maioritariamente a cargo de RakimBadu, é sempre bem complementada pelas rimas e conceitos que a caneta de John Dough cria. Ao longo das 9 faixas que compõem o disco, somos convidados a entrar no universo pessoal do rapper, recheado de referências cinematográficas, humor e, acima de tudo, muita personalidade.
John Dough nunca quis ser John Doe e, por isso, hoje damos a conhecer um pouco mais do artista e do processo criativo por detrás de Sushi e Champanhe, disco de estreia do MC de Almada que conta com selo MS TV e Old Dreams Rec.
De onde é que surge este nome Sushi e Champanhe para o álbum?
Eu, o B.ifes e o RakimBadu estávamos em estúdio a ouvir o beat para o som com o mesmo nome, já depois de eu ter escrito o refrão para a cena, e o Rakim disse: “Pá, este beat soa mesmo a sushi e a champanhe”. E eu curti bué da cena, da sonoridade, a forma como as palavras soavam juntas. Achei que ficaria um título interessante e, a partir daí, tentei desenvolver algo nesse universo. Basicamente, o RakimBadu diz cenas engraçadas, eu fico com aquilo que é fixe e depois tento dar-lhes um significado [risos].
Mantendo aqui a toada dos nomes, John Dough também desperta alguma curiosidade. Consegues explicar-nos, também, a origem desse nome?
Olha, essa história também é gira. Tenho estado a trabalhar com um producer mega dope da Margem Sul, o Ducer, a primeira pessoa com quem trabalhei e alguém com quem também estou a fazer um projeto neste momento, e pá, naquela altura ainda não tinha um nome. Então virei-me para ele e disse que precisava de um. E ele sugeriu John Doe, que soa igual ao meu nome atual, mas é o nome que dás, por exemplo, a cadáveres não identificados. E eu disse-lhe: “Epá, ainda nem comecei e tu já me estás a matar” [risos]. Depois percebi que Dough, que significa massa, também soa igual, e como o meu último nome é Rico, fui um bocado por aí. A cena da massa de dinheiro, também tens a cena da massa cinzenta, tem aí várias layers.
E este é o primeiro projeto que lanças, certo?
Sim, é o primeiro projeto que lanço oficialmente. Já tinha aparecido antes enquanto rapper noutros formatos, por exemplo na Hip-Hop a La Carte, na altura com outro nome. Também participei na OPA em 2023 e, antes disso, saiu um primeiro som meu para a net no álbum Livre do saraiva, também com outro nome. O som é o “2020”. Depois entrei com um som no Em Cada Esquina um Amigo, também do saraiva, e participo num EP de três faixas do RakimBadu. Até à data, são as cenas que tenho cá fora enquanto MC.
E a tua relação com o companheiro deste disco, o RakimBadu, como é que surge?
Antes de morar aqui na Margem já curtia bué os Soul Providers, que é a dupla dele com o Crate Diggs. Curtia a cena toda à volta: MS TV, Ray DLC, essa malta toda. Conheci-o no Festival da Liberdade, no Seixal. Eu ia atuar, cruzámo-nos, ele disse que curtia a minha cena e que me ia mandar uns beats. Acabou por me mandar uma pasta inteira, o que nunca me tinha acontecido. E foi uma pasta mesmo pensada para mim. Mandou uns 12 ou 13 beats e grande parte deles acabou por ser usada. Isso deu-me logo confiança, porque acertou mesmo na minha estética. Este álbum tem 9 faixas e os beats que não entraram, daqueles 12 ou 13 que me enviou inicialmente, só não estão neste projeto porque já têm outro destino. Entretanto, um bocado no seguimento desta relação, juntei-me ao projeto da MS TV Records, que é uma casa criativa onde me sinto muito bem. Este disco já saiu por lá, em colaboração com a Old Dreams Rec, a editora do B.ifes. Ele tem, aliás, um papel muito importante na concepção deste disco, principalmente a nível da produção executiva. E o beat d’”O Conflito” também é dele.
Falando agora da estética que mencionaste: que influências é que tu tens quando estás a fazer som?
Diria o MF DOOM, obviamente. Mas também o Ka e o Roc Marciano. O Common também é uma influência, mesmo que não seja tão óbvia. A faixa “Sushi e Champanhe” é um bocado inspirado no “I Used to Love H.E.R.”, em termos de conceito. Mas, mais do que dizer nomes, acho que o que mais influenciou o meu estilo foi mesmo uma estética específica: a escola de Nova Iorque. A escrita, os esquemas, as rimas internas, as multisilábicas… e, acima de tudo, dizer alguma coisa com isso. O objetivo é sempre esse: dizer alguma coisa. É como cozinhar. Podes cozinhar só para te alimentares ou podes transformar isso numa experiência agradável. Se fosse só mensagem, escrevia uma crónica. Aqui o desafio é dizer exatamente o que queres, mas de forma criativa.
Então essa abordagem mais conceptual às músicas que crias é bastante consciente e intencional?
Sim. Há sons mais diretos, como o “Bourbon Mel”, que abre o projeto e é mais um “cheguei, estou aqui”. Mas, mesmo assim, tem um propósito. Eu não tenho ainda maturidade artística para um álbum totalmente conceptual, mas consigo fazer uma narrativa silenciosa ou um mini-conceito para dar coerência ao projeto.
O Sushi e Champagne também é isso, então: algo refinado, pensado.
Sim, exatamente. Eu curto bué o título. Não gosto muito de champanhe, por acaso, mas de sushi gosto bué [risos]. Gosto de cozinhar, gosto desse imaginário da comida. Sushi e Champanhe também é celebração. Sinto falta, enquanto ouvinte, de coisas mais pessoais e tangíveis na música. Parece que hoje está tudo ou em modo festa ou em modo super duro. A cena do meio perdeu-se um bocado. E sinto que isso vem da falta de diálogo entre esses dois lados. De um lado, estamos aqui todos mega rijos e a carregar uma bandeira qualquer; do outro, estamos só a tentar fazer música para ter uma carreira e fazer uma guita e whatever. A razão ou está de um lado ou está do outro, está tudo extremado e não deixa espaço no meio para o diálogo. Tentámos com este projeto trazer algo diferente, acrescentar qualquer coisa, trazer algo fresco que ficasse um bocadinho nesse espaço do meio.
Neste momento e nesse “meio”, como é que definirias a tua identidade enquanto artista?
É difícil falar sobre mim assim, mas o que eu quero é que seja consensual que eu sou um bom rapper. É isso que eu quero que fique. Quando pensarem em mim, quero que pensem: “Este gajo é um ganda rapper”. Sinto um bocado que alguma malta aqui de Portugal que ganhou mais tração se afastou um bocadinho dessa cena e se colou mais ao “ah, eu não sou rapper, sou artista”, como se fossem duas coisas diferentes. E eu gostava que as pessoas me vissem, acima de tudo, como um bom rapper. Em termos de persona, acho que a minha música tem sentido de humor apurado, alguma acidez e assertividade. Isto são características com as quais me identifico enquanto pessoa, pelo menos, e acho que, de certa forma, acabam por se traduzir na música. Isto porque, pronto, sou eu a escrevê-la [risos].
E dicas para o futuro? O que é que podemos esperar mais depois desta apresentação do John Dough?
O Sushi e Champanhe foi mesmo um “olá, eu sou o John Dough, eu estou aqui, isto é o que eu consigo fazer, este é o meu espectro”. Funcionou mesmo como uma apresentação nesse sentido, até porque é o meu primeiro projeto. Mas vem aí mais música, isso é certo. Vai sair outro projeto, isso posso garantir desde já. É um EP com o Ducer, chama-se Mise-en-Scène, deve sair por volta de abril, mas não me quero comprometer com datas. Aqui o nome escolhido também tem propósito. Nos meus projetos, gosto de trazer as pessoas para o meu universo pessoal e eu sou um grande apreciador de cinema. Chegámos a este nome de forma muito orgânica também e acho que faz sentido por ser associado a algo de que gosto.
E ainda no ciclo de Sushi e Champanhe, vem aí mais alguma coisa?
Vem mais um videoclipe, brevemente, e vai sair também o formato físico, a partir da primeira semana de janeiro, por isso está para breve.