Joey Purp // QUARTERTHING

[TEXTO] Miguel Santos

“Uh, I done been on both sides of the burner
I done witness both sides of the murder”

Assim começa a mixtape iiiDrops do rapper Joey Purp. O artista de Chicago nunca esquece o factor “honestidade” nas suas barras: é sincero ao contar a história do que viu, do que vê e do que gostaria de ver. E é isso que transparece na sua música: um jovem energético, inspirado e verdadeiro. Com participações dos seus parceiros do colectivo Savemoney, Chance The Rapper e Vic Mensa, ou em expressivas canções a solo, iiiDrops colocou Purp no radar de muitos e provou que o MC consegue caminhar com sucesso por dois mundos, seja a festa, o glamour e o braggadocio ou a ferocidade da vida e os perigos das ruas. Em QUARTERTHING, o músico continua a demonstrar essa polivalência, ainda que o faça de maneira menos acertada.

No novo projecto, vemo-lo pronto para abraçar uma nova etapa do seu percurso. “24k Gold/ Sanctified” introduz-nos a este momento do rapper com a sua batida lustrosa e letras de celebração de um presente mais sereno depois de um passado conturbado. É clara a tranquilidade de Purp, mesmo quando discute verdades agridoces:

“I just paid my mama rent, then I paid my homie bond
He got out, fucked my baby moms, loyalty is hard to find”

No entanto, o artista revela que está disposto a perdoar mesmo os que se viraram contra ele. “Same ones that changed on us, that’s the ones I’m praying for”, diz em “Hallelujah”, que, com um arranjo de sopros e palavras positivas, mostra, mais uma vez, o lado optimista do rapper. Os temas relatam as peripécias de alguém que já viveu mais do que os seus vinte e cinco anos aparentam, e que está em paz com as turbulências que experienciou durante a caminhada.

Purp traz dois mundos para a equação, equilibrando sensibilidade social com momentos mais descontraídos — tanto nos pode deixar a mexer o corpo como a remoer a mente. Em “Elastic”, o rapper deixa um baixo “sujo” e dançável embalar o seu relato sobre uma mulher que o deixa fora de si e em “Aw Sh*t!” emula o footwork da sua terra natal, afastando-se da sonoridade convencional do hip hop e mostrando uma fusão curiosa entre dois géneros musicais. Também há espaço para Purp se gabar do seu sucesso como em “QUARTERTHING” e no possante single “Bag Talk”, cujo piano corrido e beat trap fazem com que as barras do rapper surjam requintadas e ameaçadoras ao mesmo tempo. No espectro oposto, temos músicas como “2012”, um dos momentos mais pessoais do projecto. É uma canção que fala sobre outros tempos, a morte de um amigo, e em que a voz de Purp aparece camuflada, uma forma de manifestar maior vulnerabilidade.

Em QUARTERTHING, o autor percorre o seu caminho sem esquecer o que o rodeia. Porém, essa influência é tratada com honestidade: a onda consumista e de glorificação de drogas que permeia o hip hop de hoje em dia também está presente, como em “Karl Malone”, um tema reminiscente da música de Young Thug com a sua entrega exacerbada e flow irrequieto, ou “Look at My Wrist”, que tem uma batida abrasiva e um refrão que soa propositadamente repetitivo, especialmente tendo em conta as palavras de Purp no final do seu verso:

“Dreaming about the problems money bring
When you used to not having shit
Young niggas brag about everything”

A faixa soa a uma crítica do estado de luxúria e de riqueza que é descrita em muitas das músicas de hip hop que estão na berra, e Purp constrói temas que bebem desse movimento musical e que se esforçam para o exporem. No entanto, isso não resulta da melhor maneira. Em “Fessional/Diamonds Dancing” vai demasiado longe: a música é aborrecida e pobre, com um flow comatoso da parte do rapper. É um tema unidimensional e pouco conciso, e isso é algo que se repete um pouco por todo o projecto — o que mais brilha são mesmo as barras de Purp, e há vários exemplos desse talento, como em “Godbody Pt.2”:

“I dream of Porsches and families that don’t know divorces
Wake up to warring and niggas dying and buying Jordans”

Ou em “Hallelujah”:

“They say I went Hollywood and I can’t believe them cause
Every morning I wake up to something from a movie role”

No final do projecto, GZA, um dos membros dos lendários Wu-Tang Clan, recita um pequeno poema sobre o início de um novo dia. De facto, há uma intensidade renovada em QUARTERTHING: Joey Purp está mais confiante e pronto para tudo, nunca esquecendo o que o trouxe à ribalta. O projecto é uma extensão do que veio antes sem nunca o suplantar, ganhando abrangência mas perdendo definição.

 


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