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Joey Bada$$

The Light Pack

Pro Era / Cinematic Music Group / Columbia Records / 2020

Texto de Paulo Pena

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A era do consumo rápido torna anos em décadas, ainda que tudo se desenrole à velocidade da luz. Aos artistas exigem-se projectos a cada ano; urge a necessidade de estar constantemente presente, visível, notável, relevante. Se em tempos um álbum tinha um prazo de validade longo o suficiente para aguentar até ao seu sucessor, hoje a realidade é que a esperança média de vida de um disco tende a variar entre cerca de um mês e um ano (na melhor das hipóteses). Este fenómeno não é novidade, e o debate em torno da idade do digital dificilmente terá novas perspectivas sobre a mesa tão cedo. No entanto, serve esta recorrente constatação para contextualizar o tão aguardado regresso de Joey Bada$$ a solo, ao fim de (apenas) três anos. 

Esta era em que vivemos dista dos primeiros anos da Pro Era, numa altura em que a Internet começava a ganhar os contornos que se verificam incontornáveis na actualidade. Por esta altura, Jo-Vaughn Virginie Scott, de apenas 17 anos, estreava-se (em 2012, precisamente) com 1999, a mixtape que fixou o patamar do rapper de Brooklyn no topo da cidade, e da sua respectiva história. Seguiram-se, então, dois álbuns a solo: B4DA$$, em 2015, que certificou o potencial de um diamante em bruto, e ALL-AMERIKKKAN BADA$$, em 2017, como um dos discos mais politicamente corajosos dos últimos anos no hip hop de grande exposição, mesmo depois de um To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar em 2015. 

Aqui chegados, a legião de fãs que se juntou a Joey – numa feliz mistura entre miúdos que vêem no rapper um exemplo a seguir em vários aspectos, e graúdos consumidores de uma velha escola de rap, desencontrados com as novas gerações do hip hop – aguardava incessantemente por este regresso com as expectativas em altitude cruzeiro. Assim, vindo de uma viagem espiritual lá de cima, Joey voltou com um The Light Pack, que antecede o seu terceiro álbum a caminho, ao que tudo indica, em breve. E lá de cima, arranca com “Mic check of the gods”. 

O título dita o formato, e como o próprio artista deixou bem claro na sua conta de Twitter, este é um pack e não um EP (como vimos acontecer por cá com o Pack AWM de Kappa Jotta, embalado no mês de Maio deste ano). Dividido em três faixas, The Light Pack triparte-se em temas que correspondem às partes que compõem o Badmon. Por isso, temos “The Light” ligada à sua alma; “No Explanation” (com Pusha T) conectada com a sua mente; “Shine” na forma do seu corpo. 



“The shinin’ represents the light that’s in the darkness”, começa por explicar Jozif. O rapper desde sempre habituou o seu público a projectos carregados de conceitos e mensagens extremamente fortes, proclamados por uma voz que teima em não se deixar silenciar, seja por quem for. Tendo este ponto bem assente, a revolução espiritual anunciada pelo MC poucos dias antes da revelação do pack luminoso afigurava-se ainda mais intrigante, entre o entusiasmo e a relutância, dado o estatuto categórico conquistado pelo rapper de Nova Iorque. E a fazer jus a esse estatuto, Joey atira no primeiro conjunto de versos nada menos que “This is mumble rap extermination/ This is Godly interpolation/ This is that ‘Who your top five?’ conversation/ Type of rap that fuck a Grammy nomination”. Se era o Bada$$ que queriam, aqui está ele… 

Da alma à mente, o ritmo acelera à velocidade do pensamento enquanto Joey confessa, “Been in my mind lately/ So harder to find lately”. Tanto chamaram pelo Bada$$ que ele veio tirar proveito dessa fama. Na mesma continua a disparar a quem sirva a carapuça mas não o colete à prova de bala: “I been a G livin’ life the way I please/ Came from the middle of the East like I’m Lebanese/ Bottom line, these MCs lobotomized a thousand times/ If we talkin’ ‘bout their rhyme for rhyme (Yeah)/ My stats combined got stocks and bonds”. 

“No Explanation” serviu de convite inédito a Pusha T, peso pesado para um embate digno com Badmon. Ainda assim, Joey não se ficou pela repartição equitativa dos versos e quis acabar aquilo que tinha começado. E depois de alguns golpes de Pusha T, tais como “Cold cases, murder niggas on a daily basis/ Luminol flow, no traces”, Joey tratou de finalizar a matança com “Comin’ for the biggest cats in the food chain/ Kill ‘em all, the only thing left the foolschain”. 

No meio das vítimas, apenas um corpo se mantém de pé, e brilha de forma incandescente em “Shine”. Terceiro acto desta trilogia sagrada que volta ao bounce do passado – “This be them young OG vibes” – para ver o futuro através dos olhos de quem sempre viu mais à frente – “see the world all through STEEZ eyes”. Afinal, é através do passado que se projecta o futuro, e é esse processo que Joey cumpre sistematicamente na sua música, e em particular neste “pacote” – “Had to flashback, I got a lot upon my mind”. 

Deste modo, fecha-se o ciclo, cumprem-se os estágios multidimensionais e tudo volta ao normal com música nova de Joey Bada$$. Ainda é cedo para se perceber o que aí vem. Porém, a última grande tomada de posição de Joey culminou num disco musicalmente viciante e politicamente gritante. É, sem dúvida, um dos rappers mais importantes desta “nova geração” da qual tanto se duvida no que a valores diz respeito. The Light Pack promete mais uma revolução de quem voa tão alto com os pés bem assentes no chão. Se vai cumprir? Não sabemos; é apenas uma projecção do futuro, e por aqui não há visão que chegue tão longe. Para já, o que fica é a reputação intacta de um artista de mão, alma, mente e corpo cheios, que tem transparecido uma constante evolução a nível musical e pessoal. Por enquanto, isso chega-nos. Mas um fã de Joey Bada$$ quer sempre mais…


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