Joe Meek // I Hear A New World

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

No início dos anos 90, a Cherry Red relançou o obscuro clássico de culto I Hear A New World de Joe Meek, recolocando na modernidade aquela que era uma impressionante visão de futuro de um homem que esteve, literalmente, à frente do seu tempo graças a ideias de som que não tinham ainda tradução prática na tecnologia disponível em finais dos anos 50 e inícios dos anos 60. As gravações originais, que nunca chegaram a ser formal e integralmente editadas, datam de 1960, mas só em 1991 é que a RPM, subsidiária da Cherry Red, restaurou as fitas e as lançou, ajudando a enquadrar a visão de gente como os Stereolab, então a dar igualmente os seus primeiros passos. Essa primeira edição de I Hear A New World mereceu depois sucessivas relançamentos, mantendo-se assim relevante a visão de futuro de um homem que tragicamente se suicidou em 1967, após assassinar a senhoria da casa em que habitava, em Londres.

Genial mas marcado por profundas desordens mentais, Meek sofria de bipolaridade, era um utilizador frequente de drogas que lhe alimentavam a paranóia — acusou Phil Spector de lhe roubar as ideias após o produtor americano lhe ter feito um telefonema… — e vivia com um tremendo sentimento de culpa devido à sua homossexualidade, à época ilegal no Reino Unido. Um complexo conjunto de factores que lhe vincava a diferença e que talvez ajude a explicar a singularidade dos seus feitos musicais: foi ele que criou a eterna “Telstar”, peça que deu fama e sucesso aos Tornados e que com ela chegaram mesmo ao primeiro lugar da Billboard nos Estados Unidos, em 1962, um bom par de anos antes da chamada “invasão britânica”.

Agora, em 2019, a Cherry Red apresenta uma nova reedição de I Hear A New World numa caixa de 3 CDs que enquadra a visão do lendário produtor britânico na sua era. Subtitulada The Pioneers of Electronic Music – An Outerspace Music Fantasy By Joe Meek, esta nova antologia alinha no primeiro CD o material recuperado pela RPM em 1991, as peças contidas nas fitas de 1960 que nunca chegaram a ser integralmente lançadas e ainda uma série de obras contemporâneas assinadas por membros do Radiophonic Music Workshop. No segundo CD, espraia-se a exploração pelas visionárias peças criadas por uma série de pioneiros da electrónica, de Tom Dissevelt e Vladimir Ussachevsky a Pierre Boulez, Edgar Varèse, Darius Milhaud e Karlheinz Stockhausen. No terceiro e último CD da caixa há espaço para obras importantes de John Cage (a sua incrível colagem concreta Fontana Mix é aqui incluída), Luc Ferrari (Visage V), Iannis Xenakis ou Luciano Berio.

A obra pop de Joe Meek é assim enquadrada num mais vasto panorama que se estende da academia e do seu rigor de investigação nos campos da electrónica defendido por verdadeiros estudiosos da história da música e que daí se alarga ainda ao campo mais “informal” dos exploradores que entendiam existir em gravadores de fita, osciladores electrónicos e efeitos de estúdio primitivos possibilidades de transportar a música até ao futuro. Toda a música, não apenas a erudita. Será duvidoso pensar que Meek pudesse estar a par de todos os desenvolvimentos que então se ensaiavam nos mais avançados estúdios de música electrónica de Paris, Colónia, Milão ou Eindhoven, mas não será assim tão displicente assumir que teria escutado pelo menos parte do trabalho desenvolvido por conterrâneos como Daphne Oram, Maddalena Fagandini ou Delia Derbyshire que bem perto de si, em Maida Vale, nos estúdios londrinos da BBC, criavam, a partir da manipulação de sons gravados em fita magnética, os sons que eram depois usados como genéricos de programas de televisão, marcas identificadoras de estações regionais de rádio ou efeitos sonoros em peças radiofónicas e visões televisivas de futuro como Quartermass and the Pit (que estreou em 1958) ou, um pouco mais tarde, Doctor Who (que surgiu em 1963).

E o que se escuta, então, nesse novo mundo imaginado por Joe Meek, quase uma década antes do homem deixar a primeira pegada na lua? “Globbots”, “Bribcots” e “Saroos”, “space boats”, “magnetic fields” e “orbits”… só pelas palavras usadas nos títulos já dá para perceber que, de facto, Joe Meek ouvia um mundo novo quando a década de 60 ainda não tinha oferecido à eternidade os Beatles e George Martin ainda não tinha entendido plenamente as potencialidades do estúdio. Joe Meek estava, definitivamente, muito à frente. Fascinado pela promessa do espaço que os primeiros foguetões e satélites anunciavam, Meek usou a imaginação e uma normalíssima banda de skiffle para no seu apartamento criar uma obra que ajuda a explicar muita coisa na pop – dos Broadcast e Stereolab aos Saint Etienne, por exemplo. Reverbs, delays e loops ao serviço de uma visão excêntrica que transforma ecos de country e de easy listening havaiano numa pop literalmente extraterrestre, arrancada a “geringonças” que o próprio criava no seu estúdio caseiro.

Meek teria um fim trágico depois de recusar trabalhar com os Beatles e David Bowie e a sua vida deu mesmo um filme, Telstar: The Joe Meek Story.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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