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Fotografia: Direitos Reservados

Uma nova arquitectura para um novo mundo.

João Pedro Fonseca: “A INTERCEPÇÃO não é uma máquina que nos envolve automaticamente; requer esforço e atenção”

Fotografia: Direitos Reservados

No segundo aniversário da editora portuguesa ZABRA, João Pedro Fonseca congeminou uma compilação fora do comum. Com a intenção declarada do colectivo em colocar os artistas fora da sua zona de conforto, INTERCEPÇÃO leva essa motivação a um novo patamar, com um formato de galeria imaginária virtual.

A estrutura do projecto já estava pensada desde o princípio do ano, segundo o mentor da ideia, assentando perfeitamente a esta fase de estado de calamidade. Num período em que o digital ganha relevo, uma galeria em plataformas online ocupa um lugar diferente para os consumidores das várias artes. INTERCEPÇÃO é pensada para um diálogo entre os músicos — Aires, Bliss Currency, Cucina Povera, Evitceles, Galtier, Mr. Herbert Quain, i-ne-s, KuTHi JiN, Lachrin and VVTNSS (alter-ego do criador da galeria) – e as peças, não-materializadas. Os artistas foram abordados para comporem directamente para a porção da galeria que lhes é dedicada.

Tal como com as emoções, os sentimentos ou as memórias, “falta” a fisicalidade; vive sem que se possa tocar-lhe: “Esta compilação ou exposição é algo que na realidade eu nunca teria capacidade de materializar, seja pela actual situação financeira ou pela falta de espaços disponíveis. Convocar estes 10 músicos foi como erguer todo este imaginário para uma outra realidade, uma realidade mais presente e ao alcance de todos, já não só viva somente no meu âmago”, conta-nos João Pedro. A imaterialidade característica da compilação não lhe retira o peso, e “o site da ZABRA ganha uma maior expressão, deixa de ser apenas um aglomerado de informação para dar força a um universo particular”.

A partir do primeiro dia de Junho, a compilação pode ser escutada nas várias plataformas digitais. Até lá, o acesso é feito pela galeria no site da editora.



Esta não é o tipo de compilação mais convencional. Como surgiu este formato de galeria imaginária? Como chegaste ao conceito da intercepção?

Foi no início do ano que tive esta ideia, tal e qual como hoje está apresentada. O lançamento foi estipulado para 15 de Maio para coincidir com o aniversário da editora. O conceito da compilação da INTERCEPÇÃO surgiu devido à necessidade da ZABRA se afirmar cada vez mais como uma plataforma multidisciplinar, não só ligada à música, mas também às artes plásticas, performativas e audiovisuais. Sendo o meu percurso artístico todo ele desenvolvido numa pluralidade de expressões, não tendo só uma como base, a necessidade de reinventar o que se diz já firmado é muito grande. Esta compilação ou exposição é algo que na realidade eu nunca teria capacidade de materializar, seja pela actual situação financeira ou pela falta de espaços disponíveis. Convocar estes 10 músicos foi como erguer todo este imaginário para uma outra realidade, uma realidade mais presente e ao alcance de todos, já não só viva somente no meu âmago. Cada interpretação musical não se reduz meramente a uma faixa, mas compreende uma ponte para quem visita a galeria, ligando o lugar hermético ao comum. O conceito INTERCEPÇÃO nasce daí; do cruzamento dos fluxos, dos ritmos e da resistência entre os objectos, o ser-humano e a natureza. Cada sala foca-se nesta relação apresentando uma peça não-materializada, mas viva no seu estado mais puro de potência.

Nenhum destes artistas tinha colaborado com a ZABRA até aqui, certo? Fala-nos um pouco desta curadoria.

Todos os artistas da compilação são artistas que me foram inspirando ao longo dos últimos tempos. Cada um possui uma diferente particularidade em abordar a música que me fez sentido convocar: desde a abordagem mais erudita à experimental, da desconstrução ao spoken-word. As peças e as salas que lhes atribuí foram pensadas já no diálogo – na forma como iriam interpretar a peça. Entre várias trocas de e-mails e textos desafiei muitos dos convidados a saírem da sua zona de confronto e a mergulharem neste universo. A contextualização da pandemia e as suas reproduções também estiveram envolvidas e consequentemente temas como a vida e a morte foram muito presentes. O Lachrin, por exemplo, praticamente que fez um EP em torno da peça Postene Me Audire, um tríptico: “Conspiracy / Tragedy / Sacrifice”, três faixas que só podem ser ouvidas exclusivamente na sala dele. O Aires e o Currency Bliss foram duas pessoas com quem fui convivendo mais nos últimos tempos e essa proximidade revelou várias perspectivas artísticas em comum. O Galtier, o Evitceles, o KuTHi JiN e a Cucina Povera são artistas que admiro e faz já algum tempo que acompanho o trabalho deles. São muito diferentes entre si, mas abordam a música de uma forma não muito convencional e isso foi um dos principais factores para terem sido convidados. A i-ne-s foi um encontro conspirado pelo acaso. “Cruzei-me” com ela no SoundCloud, achei a voz maravilhosa e lancei de imediato o convite para desenvolver um spoken-word baseado numa peça para uma das salas. O Herbert Quain é um alter-ego do Manuel Bogalheiro, um dos fundadores da ZABRA, e tinha esta faixa guardada para um registo deste género, porque a tinha desenvolvido no âmbito da minha performance Anatomia da Extinção em 2019; aqui acabou por ver esse contexto inicial expandido. O VVTNSS é o meu primeiro alter-ego na exploração do mundo da música.

Neste formato, curiosamente, os músicos deixam de ser o foco principal, não é? Se abrirmos a galeria não escolhemos ouvir a música de um ou do outro, mas seguimos o raciocínio lógico, como se estivéssemos verdadeiramente numa galeria.

O dispositivo que é a galeria apreende em si a relação que temos com o mundo, com as coisas, com uma presença obstinada das coisas – a galeria coloca-nos frente a frente com uma dimensão material do mundo. Esta compilação não é excepção. Todas as faixas foram criadas ou estão aqui presentes com o propósito de dialogar com a peça. Há todo um contexto por experienciar. Não diria que os músicos deixam de ser o foco, mas ganham uma outra dimensão: ocupam um espaço. Em cada casa/sala há imagens, palavras soltas, mas articuladas, e uma música. São diferentes dimensões que suportam uma estrutura, uma estrutura que é assinada pelo músico. Mal entramos numa sala há uma invasão, um primeiro contacto que transforma a nossa percepção. Seria impossível esta compilação ter outro formato. Há ideias que pertencem a um determinado lugar e espaço, a contextualização da apresentação formal é tão importante quanto a ideia da peça em si. O site da ZABRA ganha uma maior expressão, deixa de ser apenas um aglomerado de informação para dar força a um universo particular, estendido a todo o campo de possibilidades e imaginários. A ZABRA é um lugar construído pela particularidade dos artistas serem desafiados a romperem com as fórmulas sedimentadas, não há uma regra em como apresentar ou estruturar uma ideia (neste caso um álbum). O objectivo da ZABRA é potenciar a experiência do não-comum, multiplicar a criação para o maior número de expressões possíveis.

As referências do projecto (Alfred North Whitehead, John Dewey, Michel Serres) surgem como? E com que importância?

A maioria dessas referências surgiu numa última fase do processo em que o Manuel Bogalheiro acrescentou uma espécie de segunda camada de sentido às várias constelações de ideias e de objectos que se formaram. No fundo, foi como ancorar cada um dos encontros promovidos em cada sala a um conjunto de questões que podem formar uma história alternativa dos processos de intercepção – históricos, humanos, não-humanos, técnicos, geológicos, etc. Os autores indicados, por influência directa ou indirecta, apropriados mais ou menos livremente, constituem pontos dessa segunda cartografia conceptual.

Como tem sido o feedback relativamente ao visionamento/à escuta em plataforma digital neste molde característico? Primeiro estranha-se depois entranha-se, ou sentes que tem havido uma reacção muito unânime?

O feedback tem sido bastante bom. Não é comum este tipo de formato, contudo, o site tem recebido imensas visitas. Acima de tudo, há pessoas que escrevem e colocam questões e ideias sobre o que sentiram ao visitar. É preciso tempo e espaço, não é como um álbum que podemos ouvir de uma ponta à outra devido ao alinhamento que o software nos proporciona. Temos que saltar de sala em sala, executar uma acção para que nos façamos chegar à peça e não ao contrário – ela não está ali para nós. Esta compilação requer um esforço e uma atenção, algo que talvez já não nos é pedido numa época tão hiper-estimulada onde tudo é automaticamente consumido. A INTERCEPÇÃO não é uma máquina que nos envolve automaticamente, o visitante é a peça fundamental para criar esse compromisso e mergulhar num universo no qual se confronta com a liberdade de escolha.


INTERCEPÇÃO, by ZABRA

INTERCEPÇÃO by ZABRA, releases 01 June 2020 1. Lachrin – Potesne Me Audire 2. Aires – Faith Thirst Glitter Alone 3. Cucina Povera – Resin 4. Galtier – Fog Containers 5. Evitceles – Coil Dialogue 6. VVTNSS – Regression 7. i-ne-s – Oxidized 8. Kuthi Jin – Foreign Crate 9.

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