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Fotografia: Inês Aleixo
Publicado a: 02/02/2026

Está prestes a arrancar uma nova edição do principal certame de um dos mais importantes ecossistemas musicais do Porto.

João Pedro Brandão sobre o 16º Festival Porta-Jazz: “Isto é um gesto de resistência cultural”

Fotografia: Inês Aleixo
Publicado a: 02/02/2026

Esta celebração da vida e do trabalho da Associação Porta-Jazz arranca já no dia 5 de Fevereiro, com concertos na sede, e estende-se depois ao longo dos dias 6, 7 e 8 com um programa alargado a todos os espaços do icónico Rivoli – Teatro Municipal do Porto.

Há músicos que acabam por se tornar, quase sem dar por isso, arquitectos invisíveis do lugar onde vivem. João Pedro Brandão é um desses casos raros em que a biografia individual se entrelaça de tal forma com a vida cultural de uma cidade que já não é possível separar uma coisa da outra. Saxofonista, flautista, compositor, improvisador, professor e agitador paciente de vontades colectivas, Brandão tem sido, ao longo de mais de duas décadas, uma presença constante na construção de um ecossistema para a música improvisada no Porto. Não apenas pela obra que foi criando enquanto músico, mas sobretudo pela insistência em criar condições para que outros pudessem também criar.

A Porta-Jazz nasce desse gesto insistente. Não como um projecto pensado em gabinete, mas como resposta directa a uma necessidade muito concreta: a de existir um lugar, físico e simbólico, onde uma comunidade de músicos pudesse tocar regularmente, experimentar, falhar, crescer, encontrar público e, sobretudo, encontrar-se uns aos outros. O que começou como um movimento quase de sobrevivência transformou-se, ao longo de 16 anos, numa das experiências associativas mais singulares da cultura portuguesa contemporânea, com um espaço próprio, uma editora de referência e um festival que é, hoje, ponto de encontro de dezenas de músicos de várias geografias e gerações.

A 16ª edição do Festival Porta-Jazz, que regressa ao Teatro Municipal do Porto Rivoli sob o tema A Terra vista do ar, não surge como uma ruptura, mas como a continuação coerente dessa forma de pensar a música e a comunidade. A imagem escolhida é reveladora: ver a terra de cima é recusar a hierarquia que decorre do olhar próximo e analítico, é procurar a relação entre os pontos, é perceber que o sentido não está numa figura isolada, mas na rede que se desenha entre todas. O cartaz reflete precisamente isso: não há cabeças de cartaz, não há nomes que se imponham aos outros, há uma massa diversa, multigeracional e multinacional de músicos que existem porque existe uma comunidade que os alimenta e impulsiona. Ao longo de três dias, mais do que um desfile de concertos, o festival propõe uma experiência intensiva de convivência artística, quase uma maratona de escuta e descoberta.

É essa lógica que atravessa toda a conversa com João Pedro Brandão. A ideia de resistência cultural num tempo de individualismo acelerado, o impacto que um espaço físico pode ter na fixação de músicos na cidade, a transformação do público, a importância de tocar ao vivo num mundo cada vez mais mediado por ecrãs, o reconhecimento institucional conquistado lentamente, a recusa em transformar a editora num selo comercial desligado da comunidade real, e a convicção de que nenhum artista existe verdadeiramente sozinho.

Ao falar do festival, Brandão fala sempre do ano inteiro. Ao falar da editora, fala da associação. Ao falar dos músicos, fala do público. E ao falar do Porto, fala inevitavelmente da Porta-Jazz. Esta entrevista percorre essa teia de relações, mostrando como um projecto colectivo, sustentado por persistência, voluntariado e uma ideia muito clara de cooperação, pode alterar silenciosamente a paisagem cultural de uma cidade. Não por via de grandes gestos, mas através de uma prática continuada, quase teimosa, de fazer acontecer porque o inverso é impensável.



Fazendo um balanço de 15 edições, o que é que sentes hoje quando olhas para o percurso do Festival Porta-Jazz?

A sensação, neste momento, é muito clara: tudo valeu a pena. Foi um caminho de luta, como quase tudo o que se faz na cultura, sempre na procura de sustentabilidade para o projecto. Mas a grande validação não está apenas aí, está sobretudo na comunidade de músicos que se foi unindo à Porta-Jazz ao longo destes anos e que foi ultrapassando fronteiras. Para mim, isso é o mais importante. De repente, tens uma nova geração envolvida, que hoje forma um colectivo com mais de 40 músicos efetivamente activos na associação, pessoas que pegam nas coisas, que garantem que o espaço funciona, que há concertos constantes, produção constante, esta activação artística permanente. Isso é uma validação enorme. Eu olho para o festival, e para toda a actividade da Porta-Jazz, quase como um gesto de resistência. Também política, mas sobretudo cultural. Num tempo de muito individualismo, de gratificação instantânea, de superficialidade, esta ideia de comunidade, de trabalho continuado, de fazer acontecer juntos, tem um valor muito grande.

Sentes que essa resistência teve impacto na cidade? O Porto é hoje diferente também por causa da Porta-Jazz?

Eu não consigo dissociar o festival do que fazemos ao longo do ano inteiro. O festival, para mim, é apenas um momento que resume tudo o que foi feito ao longo do ano. A programação é construída dessa forma: não há um director artístico a impor os seus gostos, há um movimento colectivo que se reflecte ali. No início da associação sentíamo-nos muito mais sozinhos do que agora. O tipo de movimento associativo cultural que estávamos a cultivar, com uma acção muito concreta, muito próxima da rua, parecia bastante isolado. Hoje isso já não é assim. Eu acredito mesmo que o nosso exemplo deu força a outros. Sei de casos concretos em que isso aconteceu. E isto funciona como uma bola de neve: quanto maior for, melhor. Não éramos o único colectivo no Porto, claro, tens a Sonoscopia, gente a fazer coisas semelhantes no Teatro, na Dança e nas Artes Plásticas, mas sinto que este modelo se reproduziu bastante nos últimos anos. A nossa afirmação ajuda outras associações e outros colectivos a não perderem essa energia.

Sentiste reconhecimento por parte da Câmara ao longo destes anos?

Sem dúvida. Claro que os apoios são sempre discutíveis, porque a pergunta é sempre: qual é o valor real do nosso trabalho? Mas o reconhecimento existiu. Nós começámos há 16 anos numa altura em que nem sequer havia Pelouro da Cultura, no tempo em que o Rui Rio estava na Câmara. Fazíamos isto porque não havia espaço para nós, sentíamo-nos completamente sufocados na cidade. Mesmo assim, a Porto Lazer acolheu o nosso projecto na sua programação, o que já era uma forma de reconhecimento. Os apoios foram sendo reforçados ao longo do tempo, muito lentamente, com muita paciência. A verdade é que nós estamos sempre a fazer muito mais do que os nossos orçamentos permitem. Há uma dose gigantesca de voluntariado e de amor à camisola. É quase uma estrutura milagre. A entrada no Teatro Municipal foi uma validação muito forte. O festival tornou-se um ponto de afirmação essencial para a Porta-Jazz.

Que impacto teve a mudança para a nova sede, no final de 2022?

Foi uma decisão comunitária. Durante anos estivemos em espaços cedidos, mudávamos quase anualmente. Isso era muito frágil para nós e para o público. Tínhamos de adaptar os espaços, transportar tudo, recomeçar sempre. A decisão de alugar um espaço foi tomada em conjunto com este novo colectivo de músicos que se juntou à associação. Foi uma aposta de grupo. E isso tem um resultado muito claro: estas 40 e tal pessoas vivem aquele espaço, criam ali, sentem-se responsáveis por ele. O público sente isso, e os músicos que passam por lá também. Este espaço é absolutamente vital para a cidade. Não há outro sítio onde exista esta oferta musical com esta regularidade e estas condições. Isso é muito claro. Depois da pandemia, houve um momento em que ficámos sem espaço durante algum tempo. E percebemos imediatamente que músicos mais novos, que ainda não estavam totalmente ligados ao projeto, começaram a refugiar-se em Lisboa, porque não encontravam aqui um sítio onde se exprimir e sentir ligação a uma comunidade. Isso foi muito evidente para nós.

A transformação social recente da cidade reflecte-se no público da Porta-Jazz?

A nossa máquina de comunicação não chega assim tão facilmente ao público turístico. Isso nota-se sobretudo numa jam session mais tradicional que começámos a ter neste espaço, onde aparece um público mais de passagem. De resto, o nosso público é muito local. Mas esse público local também mudou. Há muitas pessoas estrangeiras a viver na cidade que encontraram ali um espaço habitual. E há também uma mudança geracional muito clara, porque os músicos são mais novos e trazem o seu público. Nós estamos a falar de dois a três concertos por semana, o que é uma actividade muito intensa para esta música. O público habitual é pequeno, mas há sempre muita circulação. E é muito interessante ver pessoas de várias nacionalidades que ficam no fim a falar com os músicos, a interagir. Isso é muito importante. Também nos desafiamos muito na programação. O Eureka, que é um microfestival que fazemos de dois em dois meses, com cruzamentos artísticos e um tema extramusical, trouxe artistas de outras áreas, gente da academia, outro tipo de público. Estamos sempre a pôr em causa o que fazemos.

O tema deste ano, Terra Vista do Ar, reforça a ideia de um cartaz sem hierarquias. O que distingue esta edição?

É uma continuação natural do trabalho, mas em permanente evolução. Nós escolhemos estes temas porque acreditamos mesmo na ideia de cooperação. Não existe a figura do artista isolado. Pode haver alguém que a imprensa destaque mais, mas ele só existe porque esta comunidade existe. Nós suportamo-nos uns aos outros. A diversidade estética é tão grande que não faz sentido falar em cabeças de cartaz. Este deve ser dos poucos festivais onde isso realmente não existe. É uma massa grande, muito colorida, e queremos que seja cada vez mais colorida. Tudo o que está no cartaz vem de actividade real da associação. Estes músicos estão ali porque estão efectivamente ligados à Porta-Jazz. Este ano temos músicos de 18 países. Muitos projectos internacionais, muitos projectos do Porto com músicos estrangeiros. Há aqui uma rede colaborativa real. E é fundamental defender a experiência da música ao vivo. Não é a mesma coisa ouvir um disco ou ver um vídeo. Estar ali, ao vivo, a ver o que o outro faz, confrontar ideias em tempo real, isso é muito mais impactante.

O que podemos esperar do regresso do projeto Ursa Maior, que se estreou no festival o ano passado?

É mais uma oportunidade de reunir este colectivo, mas desta vez vamos trabalhar sobre as vozes. Vai ser um coro de mais de trinta pessoas em palco. É um desafio enorme e está a ser muito interessante construir este espectáculo.

A editora ultrapassa já as 120 edições. Como vês o futuro desta vertente da associaçao?

São muitas edições, mas hoje editar é tecnicamente mais fácil. Ainda assim, nós fazemos questão de não editar em excesso. Mantemos um ritmo de cerca de 10 a 12 discos por ano, que é o que conseguimos acompanhar com atenção real. Nós não somos uma editora no sentido comercial ou tradicional. Continuamos a ser uma associação e um colectivo. Estas edições resultam da dinâmica da comunidade. Recebemos muitas propostas de fora, de músicos que se identificam com o que fazemos, mas que ainda estão muito distantes da nossa dinâmica. O que preferimos é que essas pessoas se aproximem, colaborem, e que as edições surjam dessa ligação real, de forma orgânica. Não se trata de fechar portas, mas de sermos coerentes com o que somos.

Como são estes últimos dias que antecedem o festival. A azáfama intensifica-se?

Se fosse só uma semana não era nada. Isto já vem de muito antes. É muito intenso, porque há uma responsabilidade grande em ocupar uma sala icónica, muito grande, durante três dias seguidos, com mais de vinte concertos. Conseguir salas cheias durante este período é uma verdadeira loucura, mas esta maratona é a forma mais bonita de reunir toda a gente: músicos, público, pessoas ligadas à música. Poderia durar três semanas, mas não teria metade da graça. Esta intensidade faz parte da identidade do festival.


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