Ao lado de Fritz Escovão e Nereu Gargalo, o músico João Parahyba criou em 1968 o Trio Mocotó. O nome de batismo foi dado por Jorge Ben Jor, que naquela época ainda era Jorge Ben. Acompanhando ele gravaram os álbuns Jorge Ben (1969), Força Bruta(1970) e Negro É Lindo (1971). Entre o Trio (agora com Melvin Santana no lugar de Skowa, falecido em 2024), parcerias (que inclui um álbum com Kizzy Gillespie e dava uma conversa para um artigo à parte) e pesquisas, João se juntou ao DJ Eb (Eduardo Barreto) para fazerem um álbum instrumental que faz uma mistura entre a música brasileira e ritmos universais.
Essa junção de elementos e temperos, ele a nomeou de Mangundi, uma palavra usada, principalmente no interior, para caracterizar um tipo de comida que é preparada através da mistura de alimentos que sobraram do que foi feito no dia anterior. O álbum resulta assim numa fusão de ritmos que ele não considera ser jazz, mesmo estando presente na base, mas sim world music porque possui elementos de diferentes culturas.
Fora da caixinha, como gosta de ressaltar, João é um septuagenário com espírito jovem. Acompanha de perto os avanços tecnológicos, sendo até um entusiasta da Inteligência Artificial, mantém boa proximidade com os DJs e produtores, principalmente de rap, e está sempre na busca de novas sonoridades. Sobre essas e outras coisas mais relacionadas à música, conversámos pouco mais de 30 minutos por videochamada.
Você faz jazz, MPB, samba, forró, baião… se fosse colocar sua música numa caixa, qual seria, ou ela não se encaixa em nenhuma delas?
A minha caixa é redonda. Chama-se caixa mundo. As minhas raízes são brasileiras, e eu faço questão de as seguir desde que eu comecei na música, mas eu sou aberto a ouvir qualquer tipo de música. Não tenho preconceito musical nenhum, desde música monocórdica indígena até músicas malucas eletrônicas de John Cage e companhia. Mas eu sempre coloquei a minha raiz brasileira. Mesmo nos trabalhos que eu fiz fora do Brasil, sempre fiz questão de colocar um pinguinho da nossa história rítmica, que é muito grande e que pode ser representada pela palavra que veio na minha cabeça há muito tempo: mangundi. Quer dizer, é a mistura de tudo, especialmente de ritmos do Brasil.
Queria entender como foi a escolha desse título, Mangundi.
Olha, essa palavra vem junto comigo há 50 anos, porque eu ouvia do pessoal que estava na roça ou mesmo na cidade, gente da minha família, quando chegava em casa de noite, e estava com preguiça de cozinhar alguma coisa. Abria a geladeira, pegava o que tinha lá de sobra de feijão, arroz, o resto de couve e jogava tudo dentro da panela, misturava tudo e fazia um mangundi. E isso ficou na minha cabeça, porque a música brasileira é sobre isso. A gente é uma nação de imigrantes. Os povos originários estavam aqui, mas depois vieram os negros, entendeu? E a gente sempre foi um povo muito acolhedor, que sempre recebeu muita coisa. Foi assim que o Brasil aprendeu a ser um caldeirão de novas ideias, pegando o jazz, a música africana, a indiana, a portuguesa e europeia. Os nossos DJs são famosos por fazer uma mistura diferente do que o europeu ou americano faz na discotecagem. E isso é uma mistura, o mangundi. É uma mistura de raça, uma mistura de cultura, uma mistura de gosto. Quando veio na minha cabeça essa palavra, eu falei assim: poxa, é tão atual, a gente precisar salientar a mistura de culturas, a mistura de povos, em vez de ficar brigando com o imigrante. Todo mundo é imigrante nessa terra, sabe? A gente é um grãozinho de pó cósmico que se juntou com outro, fez a terra, a natureza, fez o ser humano. O nosso universo é a terra, a nossa casa é a terra. E isso é importante pra me colocar como um mangundi. A gente tem que misturar isso e a gente sempre cria no Brasil uma coisa nova.
Esse é o diferencial do nosso jazz também, de ter essa riqueza musical?
Eu acho que atualmente já se entende diferente o que é jass, ou jazz. Já virou uma palavra universal. Assim como o samba também virou uma palavra universal.
Já não se nomeia mais world music, agora o jazz já faz parte dessa nomeação do que era o world music antes?
Não, acho que a world music é a palavra do momento. O jazz faz parte da world music. Toda raiz que influencia a planta é parte da planta. E a planta é world music. Como eu disse: nossa casa é a terra. E tudo que está na terra e que cresce faz parte da terra. O Trio Mocotó, quando viajou nos últimos 10-12 anos para a Europa, fazia os maiores festivais de world music. Eu sou considerado world music, não sou considerado sambista. Eu gosto disso porque eu não sou sambista, não sou roqueiro, não sou da música eletrônica. Eu sou músico, eu faço música, eu faço som, eu crio, sou um criador de sons. Esse disco é mais ou menos a síntese de João Parahyba.
É que sempre querem colocar algo em alguma caixa, né? “Ah, esse aqui é jazz, esse aqui é outra coisa…“
A mídia sempre quer catalogar você, né? Mas eu sou meio fora da caixinha.
Seu trabalho mostra isso. Você vai para vários caminhos. Isso reflete na produção desse álbum. Às vezes em uma música tem diferentes ritmos e variações… Como foi essa arquitetura e o desenvolvimento dela?
Olha, tudo começou com o maluco do Eduardo Barrteto, o DJ Eb, que um dia me convidou para ir no bar dele e me perguntou: “João, estou com umas ideias aqui, você tem algumas músicas?” Aí pegamos umas 30-40 músicas que eu tinha na minha caixinha, mostrei para ele que disse: “Pô, meu, isso aqui dá para fazer 10 discos, vamos escolher 8 músicas aí pra fazer um vinil”. Falei: “Poxa, meu, que vontade de fazer isso”. Me deixou louco, porque o Eb tem 31 anos de idade, eu estou com 75. Como é que o cara foi me buscar pra dizer: “Vamos fazer um vinil”. Isso eu não fazia há muito tempo, né? Eu já fiz CDs, fiz streamings, vários, mas vinil… Aí escolhemos 8 músicas que eu gostava e que ele achava que eram interessantes. A gente convidou outro maluco que é o Jota P, saxofonista, que tocava com Hermeto Pascoal, que tinha uma cabeça também extremamente aberta. Aliás, eu sou meio filho de Hermeto Pascoal, nesse sentido. E ele, o Eb, mudou a maior parte das músicas, colocou a visão dele do que ouvia da minha música e eu coloquei a minha visão junto com a dele. Foi assim que surgiu uma coisa que era exatamente o que eu queria: fora da caixinha. Não é nem jazz, não é nem música instrumental só. É uma música dançante, sabe? Tem grooves, que era o que o Eb queria. E no começo foi difícil. A gente lutou durante quase um ano pra conseguir chegar a uma definição, porque era muita informação junta. Mas quando a gente entrou no estúdio, foi quase uma gravação ao vivo. A gente já entrou tocando… Os músicos eu escolhi a dedo, que são músicos que se dão para as músicas, são amigos que ouviram e curtiram… todos eles curtiram muito o disco. Então, esse é um disco de um grupo, sabe? É um mangundi. Eu peguei o Carrapicho Rangel, que mora lá em Araraquara, interior de São Paulo, que é um super bandolinista, o Cleber Almeida, que também é baterista de jazz, mas tem disco de forró, toca zabumba como ninguém. Tem especiarias de cada um dos músicos que participaram. O Jorginho do Trombone, o Dinho Nascimento, que é um amigo meu há 50 anos e eu sempre tive vontade de ter ele num disco comigo. Eu fiz capoeira, já toquei atabaque em capoeira no centro de Candomblé e Umbanda. Então existe uma similaridade muito grande minha com eles. Por exemplo, a música “Caramujo” é de Igbin, dos quimbundos de Oxalá, entendeu? O que você quer mais? Oxalá é o pai de todos… Tem sempre uma especiaria de cada um deles. Eu não considero esse disco do João Parahyba, é o disco do grupo João Parahyba, do Mangundi.
Como é feita a composição de uma música instrumental? Eu entrevisto artistas, cantores e compositores e sempre há uma diferença na forma de compor. Mas a música instrumental tem suas particularidades. Como surgem as ideias e como passar para o papel e depois trazê-la para a vida?
Falando como percussionista, é meio difícil de explicar, porque… vou te dar uma ideia: muitos anos atrás, eu fui convidado para ser intérprete do George Benson, quando ele veio num festival de jazz em São Paulo. E a gente estava conversando no hall do hotel e um jornalista perguntou: “Como é que vocês ouvem música?” E o George falou pra mim responder. Eu falei assim: “Eu ouço sons.” Um exemplo: a gente está conversando aqui, mas tem um carro passando ali na porta, tem essa cascata aqui atrás fazendo barulho, tem um cara batendo um copo no outro lá no restaurante, eu escuto isso tudo. A grande mistura é você cozinhar esses sons e transformar isso numa música. Normalmente o que eu faço é ouvir sons. Às vezes eu gravo no meu celular até o passarinho que fica aqui na janela. Gostei do som desse passarinho e já começo a criar alguma coisa na cabeça. Como a gente tem as ferramentas do computador hoje, sem falar na IA que está chegando, você tem condições de criar uma orquestra dentro da sua casa, dentro do seu computador, ou processar sons e transformar aquilo em alguma coisa mais parecida com música. Eu vou fazendo as coisas, mostrando para os amigos. De vez em quando eu toco um baixo, mostro para outro amigo e ele fala: “Coloca isso aqui”. E a gente vai aumentando o mosaico, crio o meu Frankenstein até ele virar uma moça bonita.
Para o percussionista ou para o baterista é mais difícil compor do que quem toca um piano ou um violão, por exemplo?
Fala isso para o Phil Collins [risadas]. Músico é músico, vai de cada um. Tem músico que só toca música caipira, não ouve outra coisa e não quer ouvir. Encurtou o mundinho dele para aquele foco e só faz aquilo. Respeito muito. O percussionista talvez seja uma caixinha muito mais aberta, né? A gente não tem ideias fixas. Estamos sempre construindo alguma coisa ou para você ou para outro músico.
Eu falo isso porque toquei percussão e bateria por um bom tempo também, então me identifico muito. Geralmente acham que a bateria é só o complemento do restante…
E que o percussionista é amigo do batera.
Sim, que está ali só para fazer os efeitos.
Aquela velha história de tocar o ovinho [ganzá]?
É sempre a coisa dos chocalhos: traz o ovinho, traz o caxixi…
Eu fiz um show como convidado do Al Di Meola uma vez em São Paulo, era eu e Ulisses Rocha, um outro violonista, e a gente foi para o hotel conversar com ele, três, quatro dias antes para ver o que ia tocar. Aí o Al Di Meola falou assim: “Você tem um ovinho?” Eu olhei pra cara dele e falei assim: “Eu não acredito que o cara vem lá de fora e quer que eu como convidado toque um ovinho, né?” [risadas].
Você é muito aberto à música, muito aberto a novas experiências e novos experimentos, digamos assim, e falou muito de estar conectado com os DJs e com os produtores. Como é essa relação com a música?
Não sou culpado, o culpado é o DJ Mark, o DJ Patife, o DJ Nuts, principalmente. Teve uma época que falavam assim: “Você é tão igual que parece filho do João Parahyba”. Até ele adotou essa brincadeira. Mas por quê? Porque os DJs são um bando de pardais curiosos, e eu me incluo nessa turma. Eu tô sempre cutucando a Internet… Tem esses sites de divulgação, eu entro lá e vejo quem tá sendo divulgado, que tipo de música é. Eu adoro experimentar as coisas. Eu sou meio ferramenteiro, vou lá mexer com a ferramenta. Não deu certo? Vou usar outra ferramenta. Eu tô sempre procurando, caçando coisas novas pra minha cabeça. E isso pode ser em sites históricos de música antiga. Tem muita coisa antiga que ninguém conhece. A música brasileira tem um pé muito maior na África do que na Europa. Quem trouxe a música europeia foram os europeus, mas a gente tem a música indígena, a música sul-americana e a música africana muito forte. Isso é o que eu tô sempre buscando. Eu ouço músicas de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde. Ouço o DJ Mark toda hora, ouço o que o Nuts fala, porque ele é muito pesquisador. Eu também sou folclorista, então fico procurando as coisas mais antigas e estou sempre olhando as coisas fora da caixinha. Sabe, tem muito DJ aí fazendo música maluca. Muito funk maluco que não é esse funk que está aí comercial, pop… Agora tudo virou pop. A diferença de world music pra pop é que a world music não tem cantor, o pop tem. A gente vive dentro de um universo tão grande que você pode pegar um pedaço desse universo, que é instrumental, fazer como Hermeto fez, criar um mundo imaginário dele onde cabe tudo, sabe? O Madlib é assim, o J-Roc é assim, entendeu? Eu tenho essa relação com esses caras, porque eles também são fora da caixinha. Os músicos que a gente chamaria de careta, que é uma palavra muito antiga já, não tem espaço. Eles não conseguem entender. Eu sou completamente aberto, assim, não tenho regra nenhuma.
Você citou vários produtores e DJs dessa geração atual que os próprios contemporâneos não conhecem…
Pois é, tem muito DJ novo que nem sabe quem é o DJ Mark.
Sim, e também tem essa resistência de buscar coisas novas. Por outro lado, muitos DJs também foram responsáveis por resgatar artistas que estavam esquecidos na música brasileira.
Uma boa parte dos DJs vêm da revolta da periferia, sabe? Você pega o Marcelo D2 e esse povo mais engajado. Foi quem deu muita força para os DJs, porque eles começaram a procurar e pesquisar. Foi aí que descobriram que tinha muita gente que a periferia gostava e que ninguém conhecia, vamos dizer, no mainstream da cidade urbana, da classe média… Os bailes ainda existem na periferia e não tem na cidade mais. Você não encontra aqui dentro de São Paulo grandes bailes, grandes orquestras… E os DJs puseram isso no ar, desde 2000, um pouco antes até. Isso está acontecendo. E eu acho que eles têm um papel importantíssimo no renovar e refazer a ideia de música boa e música ruim, no Brasil e no mundo também.
O que você considera ser essa música ruim?
Essa é a grande pergunta. Eu vou falar pra você, sinceramente, o que eu falo há 50 anos: só existem dois tipos de música, a música boa e música ruim. O que é música boa pra mim? Aquela que eu gosto. O que é música ruim pra mim? Aquela que eu não gosto. Isso vale pra qualquer pessoa no mundo. Existe a música que me toca, a música que eu gosto, a música que me representa politicamente, a música que me faz ir contra guerra, a música que me faz ter amores, ter paz. Eu costumo brincar que o músico é um pastor, sabe? Um pastor da religião da música. A música é nossa religião. E o altar que a gente sobe para fazer a consagração é o palco. É aonde a gente transmite energia boa, a gente transmite sentimento para a alma das pessoas. Essa é a palavra do pastor musical. A nossa fé é em transmitir exatamente isso. Música para as pessoas se tocarem. Seja para chorar, seja para rir, seja para amar, seja para unir pessoas. Eu acho que a música é uma linguagem… a instrumental, especialmente, é uma linguagem universal. Você não precisa falar chinês, nem russo, nem brasileiro. Entendeu? Você ouve aquela música, se ela te toca, pronto. Já falei o que eu tinha que falar para você. Já foi um grãozinho de energia positiva, de amor para você.
Eu estava num festival de jazz e a Sintia Piccin (saxofonista) falou o nome da música que ia tocar e uma pessoa falou: mas se é instrumental porque a música tem nome?
Porque é o nome dela. Quer dizer, por isso mesmo chama-se instrumental. Ela não tem a letra formal. Você mesmo falou: “O teu disco tem forró, tem jazz, tem passarinho, tá tudo lá”. Cada um na sua caixinha tem um jeito de ouvir isso. As pessoas têm que entender um pouco a canção. Quando falo que sou músico, a pessoa pergunta: “O que você canta?” Eu respondo: “Eu canto por obrigação, mas eu não sou cantor. A minha linguagem, as minhas palavras são notas musicais, são os sons…” Urutau é um som, pra mim, triste. É uma figura folclórica, é algo que é mágico, sabe? Eu acho que a música que a gente faz tem tudo isso. Canção é música com letra, e música instrumental é a música sem letra. Mas ambas transmitem a mesma coisa.
E como você observa hoje essa apreciação da música ou o consumo da música, tendo vivido vários momentos da nossa indústria da música, desde o vinil, depois o cassete, CD e hoje no streaming… As pessoas hoje estão mais a consumir ou a apreciar?
Olha, eu acho que não mudou muito não. Mudaram as ferramentas. Hoje em dia, se eu quiser ouvir música chinesa, eu dou um clique aqui e vou ouvir música chinesa. O que eu acho que mudou não é a música, mas o mundo mudou. E quando o mundo muda, a natureza muda. Você tem problemas como falta de água, desertificação… a música está dentro disso. O ser humano nesse novo século, que eu posso chamar assim, é o século da tecnologia, então é tudo mais rápido. Você mora em Campinas, eu moro em São Paulo, é uma vida muito mais tensionada, muito mais corrida do que morar em Cunha, morar em Paraty [no interior e litoral, respectivamente]. O relógio é bem diferente. O nosso relógio urbano da civilização corre muito mais rápido hoje. Então, as pessoas ouvem música muito mais rápido. Está havendo esse problema de um cara pegar um disco pra ouvir 30 segundos só. Se gostou, continua. Se não gostou, aí ele vai pra segunda faixa, mais 30 segundos. E tem a questão de ouvir no celular. Eu brinco com meu filho que tinha estúdio até pouco tempo, o Janja, que é engenheiro de som. Eu brinco com ele porque uma coisa que eu não entendo é que eu entro com ele nesses mega estúdios, com microfone de 10 mil, 20 mil dólares, caixa de som não sei o quê, uma mesa de som de última geração, gastam 200 pau [mil reais] pra fazer um disco. Aí ele é tocado no streaming, num Samsung de 500 conto [reais] com fone de ouvido comprado no camelô [vendedor ambulante]. Você gasta um milhão pra ouvir num negocinho de 10 reais. Então é assim que funciona hoje. Mas mesmo assim a música não morre. Ela vai evoluindo junto com o ser humano. Se o ser humano começar a fazer música agora na Inteligência Artificial, vai ser música da Inteligência Artificial, mas não vai deixar de ser feita por um ser humano. É exatamente como veio o streaming, o vídeo… as redes de TV ficam loucas atrás de conteúdo. E quem dá o conteúdo para isso tudo? Somos nós, seres humanos. Ela não vai deixar de existir, ela vai mudar o tipo, entendeu? O gosto musical, a maneira de você ouvir, mas não vai deixar de ser feita.
Mas você concorda em se fazer música com a Inteligência Artificial?
Eu não tenho esse preconceito, não. Exatamente porque eu sei qual é o conceito da IA. Ela é uma máquina, é uma ferramenta…
Mas tem um ser humano ali por trás.
É, ela vai absorvendo, e é lógico que vai chegar um ponto que ela absorveu tanto que as pessoas terão pouco pra falar. “Ah, mas o ser humano é uma caixinha de surpresa.” Todo ser humano é uma caixinha de surpresa. Não existe computador no mundo que se iguale. O dia em que inventarem um robô que é igual a um ser humano, aí muda. Aí é um cyborg. Mas ele só vai tocar e quem só vai gostar da música dele vai ser outro cyborg. Porque vai ser tanta informação… enquanto existir ser humano, a IA não manda.
Como é que é o João Parahyba solo e João no Trio Mocotó? É a mesma pessoa fazendo coisas diferentes?
É a mesma pessoa fazendo coisas diferentes. Eu sou um multi cozinheiro, aqui na minha casa eu sou cozinheiro. Eu gosto de cozinhar um monte de coisa ao mesmo tempo. Às vezes dá errado, mas…
Também sou desses.
Eu gosto disso, sabe? Exatamente por ser multifacetado é que é fácil pra mim mexer com isso. Muitas pessoas focam demais numa coisa e aí não consegue sair da gangorra ou do balanço porque acha que vai cair. Você tem que descer e subir de novo no balanço. E você tem que fazer isso pra crescer. Tem que estar sempre se informando, sempre estudando. Mas sempre sendo você. Nunca querendo imitar ninguém. Imitou, já virou IA.
Tem que ter personalidade, né?
Tem que ter personalidade.
Pretende fazer concertos desse disco?
Pretendemos. É meio difícil atualmente, mas a gente vai conseguir fazer. Porque é uma banda, né? Pra você ter uma ideia, o Trio Mocotó sempre foi um sexteto. A gente sempre teve piano, baixo e guitarra junto com a gente. Nós só conseguimos fazer um show com banda completa recentemente em 2025. Se não fosse o Sesc, ninguém chamava. Imagina você viajar pra fora com 10, 12 pessoas, só sertanejo e o pop consegue porque tem uma mega estrutura, entendeu? Mas eu acho que existe cada dia mais um lugar especial para música instrumental e o Brasil está voltando a ter grandes grupos de música instrumental. Você pega a Mantiqueira que está aí… tem várias bandas acontecendo em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Sul ou no Nordeste. Tem bandas de pífano lá modernas. Gente misturando o rock com forró, assim como eu faço. Isso vai abrindo mais espaço. O nosso problema é todo econômico, não é musical. Se o país vai bem, investe em cultura. E nós estamos num século que não é um século da cultura. O século da cultura foi o século passado, onde tinha muito investimento musical. Hoje você tem grandes marcas e nem elas estão investindo tanto em shows e música. Tem os bancos fazendo festivais [como o C6 Festival], mas são poucos. E trazem muita gente estrangeira, mas mesmo assim hoje você pega o The Town, você pega festivais como a gente fez em Belém [Psica], a mistura é muito grande. Já não é mais um festival de rock ou um festival de jazz. Você vê o Rock in Rio, virou um World Music Festival, né? Eu acho que a gente vai em frente. Eu sou um cara que nem o Ariano Suassuna falava: “Eu não sou otimista. Eu sou um realista esperançoso”. Tenho muita esperança, especialmente tendo garotos como você interessados na música.