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Texto: Vera Brito
Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 30/11/2020

Prioridade ao sampler.

João Gomes (MadFaces): “Fazer beats e pensar em política é a minha cena hoje em dia”

Texto: Vera Brito
Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 30/11/2020

João Gomes e Karlon juntaram forças e Ismos é o resultado desta colaboração, cinco temas que cruzam hip hop e música tradicional cabo-verdiana, e que trazem alertas para o perigo que os “ismos” representam na nossa sociedade, criando lacunas, dividindo povos.

João Gomes, músico já bem nosso conhecido de projectos como Fogo Fogo, Orelha Negra ou Cool Hipnoise, assumiu a produção deste EP, que assina como MadFaces, e revelou-nos como este ano de confinamento acabou por ser terreno fértil para navegar pela sua invejável colecção de discos, que samplou exaustivamente, criando inúmeros beats — é bem possível que deem novos frutos e colaborações em breve…

Conversámos com o músico e produtor sobre este seu EP com Karlon, produção, música e “ismos” que assolam a sociedade actual e que não deixam ninguém indiferente.



Comecemos por este teu EP Ismos, que lançaste juntamente com o Karlon. Como é que surgiu a ideia desta colaboração?

A ideia da colaboração não foi bem uma ideia, foi mais um resultado de algo não planeado. Aconteceu no meio deste ano de loucos e de muito tempo livre. Eu, da minha parte, no meu confinamento e na minha quarentena, estive a explorar e a desenvolver mais o meu lado de produção de hip hop. No ano passado comprei uma MPC, que era algo que há anos que tencionava fazer mas nunca tinha feito, ou seja, eu não trabalhava com um sampler. Desde os anos do terceiro álbum dos Cool Hipnoise, que saiu em 2000 [risos], nessa altura tinha um sampler, era o responsável por essa parte da produção dos Cool e gostava muito. Depois dediquei-me mais ao meu lado instrumentista e não tanto ao lado produtor, até porque entretanto com os Orelha [Negra] comecei a trabalhar com o Samuel, que tem esse posto, e se isso por um lado me deixou livre para fazer outras coisas, por outro lado provavelmente também me terá influenciado muito o facto de trabalhar com ele, vê-lo a mexer na MPC, e voltou-me a abrir o apetite de ter um sampler e algo para trabalhar assim. Comprei isso no ano passado e principalmente com a quarentena fartei-me de fazer beats — tenho imensos beats [risos].

Às tantas comecei a pensar no que fazer com eles e um dia em conversa com o Karlon ele disse-me para lhe enviar alguns. Eu já tinha trabalhado com ele algumas vezes, desde há muitos anos que somos amigos, com os Fogo Fogo, que é uma banda de funaná, chegámos uma vez a convidá-lo para tocar connosco, a propósito do álbum dele [Passaporti], daquele single do “Pó di Terra” [“Nha Cultura”], que era muito baseado em samples de música cabo-verdiana antigos, fizemos um tema com ele também, para uma banda sonora de um filme, e apercebi-me que ele é o rapper mais rápido a trabalhar que conheço. Chego a enviar um beat à noite e no dia seguinte, quando acordo, já tenho um WeTransfer com 10 pistas de voz, tudo já feito, uma cena super complexa e montada. E quase todos estes temas do Ismos foram assim que aconteceram. E no meio destes beats todos e com as minhas influências, entre as quais, música de Cabo Verde, estar a trabalhar no álbum dos Fogo Fogo, foi algo mais ou menos natural começar também a experimentar com samples de funaná e de música cabo-verdiana, e esses beats que eu tinha mais virados para esse mundo, pareceu-me que fazia sentido mandá-los para o Karlon. E ele, claro, identificou-se imenso com eles e estes cinco temas foram mesmo muito rápidos de fazer. Foram quase este processo de: eu mandar-lhe um beat já feito e ele responder-me logo com as vozes todas, e depois foram só pormenores de pós-produção. Entretanto até já podíamos ter lançado mais [risos], mas quisemos lançar estes. 

Muita gente já te conhece desses muitos outros projectos, de que falaste agora, Fogo Fogo, Orelha Negra, Cool Hipnoise, mas este é então o primeiro trabalho em que tiveste a cargo toda a produção, que assinas como MadFaces. Como foi para ti esse desafio?

Pá, ainda não um grande desafio… ainda não vi a cena assim. Basicamente foram instrumentais que já tinha feito. Claro que há aqui um marco — para quem gosta de história da música [risos] — que é: “a primeira vez que este artista português faz um trabalho a solo” ou que “assina o seu nome como responsável pelo instrumental todo”, mas não foi minimamente planeado, foi tudo muito natural e não fugi muito às minhas rotinas normais. Quer dizer, fugi no sentido de que, por exemplo, quem misturou, o Ary, eu nunca tinha trabalhado com ele. Apesar de ser amigo dele há muitos anos, ele, tal como eu, também é uma pessoa com várias facetas: além de engenheiro de som e de ter um estúdio, também é músico, baixista dos Blasted Mechanism e é mais por aí que o conheço. Mas ele é quem costuma misturar muitos trabalhos do Karlon e foi o Karlon quem liderou um bocado o processo de mandar as coisas para o estúdio para misturar — isto no fundo é um trabalho do Karlon comigo, mas ele é que é o rapper e a pessoa que encabeça um bocado a cena, acho eu.

Falaste, então, que já tinhas estes beats preparados, que são uma mistura de hip hop e música tradicional cabo-verdiana. Quais foram as tuas maiores referências para este EP?

Hum.. não sei dizer. Tudo o que seja bom hip hop influencia-me, bons produtores de hip hop, acho que são as minhas influências quando estou a fazer beats, sei lá… Sam The Kid, Q-Tip… estou sempre a ouvir cenas antigas e novas, gosto de toda a música boa. E também não acho que aquelas pessoas que tu samplas são obrigatoriamente as referências, não é? Neste caso, epá sim, são referências, porque eu também toco e gosto de funaná, e samplei [Os] Tubarões, Zezé e Zeca di Nha Reinalda, Boy Gé Mendes – tudo artistas que admiro. Mas acho que neste contexto sou mais influenciado por produtores de hip hop do que por bandas de música africana. Epá mas não sei… [risos] É música boa o que me influencia. A cena dos rótulos é cada vez mais irritante e é cada vez mais uma cena para vender e para comerciantes, para quem faz packs de loops e essas cenas, ’tás a ver? Querem impingir a quem não se preocupa em aprofundar muito o conhecimento sobre as coisas e os rótulos facilitam isso. Mas acho que no final resume-se tudo um pouco a boa música e a má música, música original e música não original, ou pouco original.

Como produtor, procuro, por exemplo, usar os meus sons. Tudo o que samplei vem da minha colecção de discos, que já é muito vasta. Desde os anos 90 que colecciono vinis, primeiro de funk e de jazz, depois de reggae, pelo meio sempre de hip hop, depois comecei a coleccionar mais música africana, mas também tenho muitos discos que compro só para samplar, de bandas sonoras, aquelas cenas baratas dos anos 70 e 80 de medleys de músicas conhecidas, tenho também muita música portuguesa. Tenho bué, bué vinis e ’tou sempre a samplá-los, e só por isso tenho a certeza que nenhum outro produtor vai sair com os mesmos samples que eu. Porque os outros produtores, 90% vão ao YouTube para sacar samples — e isto são os melhores, porque os outros vão a packs de loops e compram, ou vão ao Splice ou a sites que vendem samples legalizados. E basta duas pessoas irem ao mesmo site que é muito possível já estarem a usar sons iguais nas suas músicas, e acho que não há necessidade disso. Para mim é muito mais simples não gastar dinheiro em samples e em packs feitos por alguém, já que tenho essa ferramenta à minha disposição — uma colecção de discos e é isso que gosto de fazer: músicas através de samples da minha colecção de discos.

Para além de todas essas referências, vocês também contaram com as colaborações do Freddy Locks e da Maria Tavares, como é que surgiram?

Foi o Karlon, a parte das vozes foi toda conduzida por ele. O Freddy Locks não sei bem como é que aconteceu, o Karlon já tinha feito a parte dele e depois não sei se estiveram juntos e ele lhe mostrou e o Freddy teve aquela ideia de fazer aquele refrão. Isso por acaso até é uma história engraçada, porque quando o Freddy cantou aquela melodia, que é inspirada numa melodia dos Simply Red, do refrão do “Holding Back The Years”, o Karlon não se apercebeu e depois eu é que lhe disse, mas ele ficou naquela “epá, mas será que foi de propósito?”. Ele não ‘tava a perceber que era uma citação, que é uma coisa que se faz muito e que todos nós fazemos e depois ficou assim meio inseguro, até que lhe disse, “é na boa, desde que seja consciente e assumido”, e é. Depois até completei um bocado do beat, em que toquei uma parte já com a harmonia também do “Holding Back The Years”, para mostrar que é uma cena consciente e propositada, e que sabemos o que estamos a fazer. E acho que correu muito bem, até porque esse som é o único que tem um sample de reggae, que acho que não é óbvio, é uma cena de um bocado de um dub de uma música, mas eu não tinha falado nada disso com o Karlon e foi logo esse som em que ele se lembrou de ir buscar um cantor de reggae, que mostra que ele estava a entender tudo o que eu estava a fazer.

Em relação à Maria [Tavares], nós sentíamos falta ali de uma voz que furasse mais. O Karlon tinha feito as vozes todas e foi até uma questão mais prática, em que ela basicamente foi cantar o mesmo que o Karlon tinha cantado, mas só para dar um bocado mais de sustento. E foram os únicos convidados.

Por acaso, antes de ouvir o EP, quando vi o nome do Freddy Locks, reggae…

Mas o Karlon sempre teve uma grande ligação ao reggae e eu também. Além de ter tocado vários anos com os Mercado Negro, com os Cool Hipnoise também tivemos um disco que era quase todo reggae. Tive uma das primeiras crews de reggae de Lisboa, que eram os Dubadelic Soundsystem, ainda nos anos 90, com o [Selecta] Lexo e o [Prince] Wadada, e por vezes o Karlon também aparecia. Portanto, o reggae tem tudo a ver connosco.

Em relação à temática deste EP: “Ismos” que são sufixos usados para definir ideologias e movimentos sociais, penso que aqui neste vosso trabalho se centra sobretudo nos perigos dos “ismos” que cada vez mais dividem as sociedades e as culturas. Perguntava-te quais são para ti os “ismos” que mais te preocupam actualmente?

Eu sou o produtor da música e isto tem muito a ver com a parte das letras, que é totalmente do Karlon. Claro que concordo com a maior parte das coisas que ele diz, ou não estava a fazer as coisas com ele, mas eu sou uma pessoa que não é assim muito politicamente correcta… Posso-te logo dizer que há um “ismo” que é super importante, e que só divide o trigo do joio, que é o feminismo. Claro que há outros “ismos” que dividem, mas temos que ter coragem e cabeça para os discutir, conseguir chegar a termos e evoluir, perceber que há coisas que já não fazem sentido, que há coisas que têm de ser proibidas, e há coisas que precisam de ser proibidas. E que para haver liberdade tem que se proibir coisas. Por exemplo, vários “ismos”, como o fascismo, o racismo, essas coisas têm que ser proibidas! Ou seja, liberdade total é ter liberdade até também para proibir certas coisas, para nos acautelarmos delas. Porque se dás liberdade ao teu vizinho para ele ser fascista ou xenófobo, tu não vais ter liberdade de existir se fores, por exemplo, de outro país ou de outra raça. Portanto, isto é um fundamento básico da democracia e da sociedade em que vivemos, que toda a gente devia ter mais que claro na sua cabeça e que pelos vistos — e foi bem claro este ano — há imensa gente que o não tem.

Concordo e acho que toda a gente consegue perceber que um dos “ismos” que mais marcaram este ano foi o racismo, que se sentiu por todo o lado, nos Estados Unidos e também em Portugal, em várias situações. Como é que tens visto tudo isto? 

Vejo como o um problema que os brancos têm que resolver urgentemente, quer dizer… se quiserem evoluir. Mas não é um problema meu, não é um problema do Karlon, não é um problema de nenhum negro ou descendente de negro. Não somos nós que somos racistas, não somos nós que temos atitudes racistas de uma forma geral. Esse problema só quem o tem é que o pode resolver. Acho que nós, como vítimas desse problema, já devíamos há muito tempo ter cagado nesse problema. Ou seja, esse problema é de quem o tem, não é de quem é alvo dele. Quem é alvo dele só tem que ser abençoado, porque ao longo destes 500 anos teve muita paciência e poucas vezes, ou muito raras, se revoltou com isso, com essa ridicularidade que é: achar que há povos dentro dos humanos que têm mais importância do que outros. E quem foi alvo disso e não se revoltou tem que ser abençoado, na minha opinião. Estou aqui fechado há seis meses a fazer beats e a pensar em política — fazer beats e pensar em política é a minha cena hoje em dia. 

Já que tocaste no tema da política, não sei se é algo de que estás disposto a falar ou dar a tua opinião…

Eu acho que toda a gente devia falar de política. Nunca fui afiliado a nenhum partido e nunca da minha boca saiu nenhuma palavra contra os partidos, genericamente falando, porque acho que é uma coisa ridícula, ser-se contra partidos ou ser-se contra política. A política é o que faz avançar as sociedades — é o pensamento político, é a organização, é termos uma estrutura, é interessarmos-nos em como é que o nosso Estado está organizado, não é? E as pessoas não têm muitas vezes a noção disso, não sei porquê, há preconceitos, há populismos… Mas posso falar do que quiseres sobre política, embora eu não seja um especialista. 

Perguntei porque tocaste no tema, e porque acabámos de falar dos “ismos” do racismo e do fascismo, e queria saber como tens vivido estas últimas semanas, em que temos assistido a esta espécie de legitimação da extrema direita…

Olha, para a semana faço 47 anos, ou seja, quando morreu o Sá Carneiro, eu devia ter uns 10 ou 8 anos, no início dos anos 80, e nessa altura o Sá Carneiro para mim — que fui educado por um pai comunista e uma mãe de esquerda — era tipo uma figura… até te posso contar que eu, criança, estava num centro comercial com a minha mãe, quando vi a notícia de que ele tinha morrido e disse em voz alta. “bem feita!” e a minha mãe deu-me uma palmada por ter dito aquilo  [risos]. E hoje em dia, adulto, e depois de tudo o que se passou, esta semana tenho pensado bué vezes no Sá Carneiro, no pobre do Sá Carneiro, que era um social democrata, fundador do Partido Social Democrata (que é mais ou menos equivalente ao partido do Obama e do Biden) e que agora de repente está a fazer coisas incríveis, está a abrir a porta aos skinheads, aos xenófobos, e acho inadmissível como é que o Rui Rio, primeiro, vem branquear o racismo, e depois vem branquear o fascismo – porque ele também já disse que antes do 25 de Abril não havia fascismo nenhum, que havia apenas uma ditadura de direita. Se ver pessoas a fazer saudação nazi para ele não é serem fascistas… E tenho pena pelo Partido Social Democrata, que tem pessoas liberais e de direita, mas intelectuais, com trabalho feito, que eu admiro, e que de repente estão ali um bocado envolvidas com pessoas que eu abomino e que acho que são criminosos. Há muitos deles até que têm histórico disso, pessoas que [estão] ligadas ao Chega, não é? Epá e tenho muito pouca esperança de que o Chega não chegue ao poder muito rapidamente. 

Esperemos que isso não aconteça…

Só depende de nós, mas eu não acredito que não vá acontecer.

Estamos novamente nesta incerteza do confinamento, por isso talvez esta pergunta possa ser ingrata, mas que outras coisas e projectos tens para breve que possas partilhar connosco? 

Olha, tenho algumas coisas. O principal é o disco novo dos Fogo Fogo, que acabámos de gravar no dia 20 de Fevereiro de 2020, que ficou espectacular, estávamos maravilhados e a quarentena e este ano tirou-nos a pica toda, mas estamos lentamente a tentar encontrar o melhor timing para o lançar e da melhor forma — é uma coisa que ’tá super pendente e que tem de acontecer nos próximos seis meses. Entretanto tenho produzido imenso [risos], tenho imensos beats ali na minha MPC e no meu computador, que ainda não sei muito bem o que vou fazer com eles, ’tou à procura de colaborações, alguns o Karlon já ficou com eles, mas os outros ainda ’tou aqui a pensar. Depois tenho tocado piano, tenho cantado em casa [risos] e tenho saudades de… pá, [de] me encostar a um desconhecido.

Já confessaste ser um grande melómano e porque estamos também a chegar àquela altura do ano de listas e balanços, que artistas e lançamentos é que destacavas para 2020, ou que coisas tens andado a ouvir, que nos possas recomendar para este confinamento?

Tenho andado a ouvir Busta Rhymes, o concerto de Budapeste do Keith Jarrett, que foi o último da sua vida sem ele saber. Tenho ouvido Bandé-Gamboa — o Horizonte, um disco novo também. Tenho ouvido muito jazz, a Nubya Garcia, o último álbum, ouvi o Miles: [From an Interlude Called Life] dos Blu & Exile, esse ouvi muito. Jazz is Dead do Ali Shaheed Muhammad e do Adrian Younge, acho que eles lançaram dois volumes este ano. Mais coisas… já te falei nos SAULT? Eu estou também sempre a ouvir várias músicas de pessoal que já morreu, Bill Withers, Tony Allen, Manu Dibango, rest in peace a eles todos e é isso.


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