Jimmy P: “Há espaço para toda a gente e é fixe quando há diversidade”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Arlindo Camacho

Em Março deste ano, Jimmy P lançou uma nova mixtape. Alcateia não é um exercício novo na carreira do rapper, que tem colaborado regularmente com novos talentos desde as mixtapes Illegal Promo. Ainda à procura de ideias para um próximo disco, Jimmy regressa a um formato em que goza de maior descontracção artística, aproveitando o período mais experimental para criar novas químicas em estúdio e absorver um pouco daquilo que os outros músicos transmitem.

Alcateia é também uma montra para nomes que estão à procura do seu lugar ao sol. A DOMI, Wet Bed Gang, Phoenix RDC, Loreta Kba e Sílvia Barros juntam-se Mantra, James Gold, Agir, Prodlem, The Beat Plug e Suaveyouknow — produtor anteriormente conhecido como J-Cool que tem acompanhado o MC no seu trajecto de sucesso.

Numa esplanada lisboeta, o Rimas e Batidas sentou-se à conversa com o rapper, que veio acompanhado pelo seu manager e Carolina Deslandes. “Antes de começarmos a entrevista, eu preciso de fazer um anúncio”, avisou Jimmy. “Eu e a Carolina estamos neste momento a fazer um disco juntos”. Tudo não passava de uma brincadeira, mas, mais tarde, revelaram que têm partilhado sessões de estúdio.

 



Vamos começar pelo título que escolheste para a tua mixtape: porquê Alcateia?

Alcateia é tipo um upgrade ao nosso selo — Family F1rst. E em vez de trabalharmos sempre com as mesmas pessoas chamámos também pessoal que gravita à nossa volta. Artistas que eu curto, pessoal com quem já me dou há algum tempo… Artistas cuja música eu gosto de consumir — como é o caso do Phoenix ou do Loreta. Pessoas com quem ainda não tinha tido oportunidade de colaborar e, no fundo, a dica é puxarmos uns pelos outros. Muitas destas músicas são coisas que não podes fazer num álbum, porque há determinados cuidados que tens de ter, determinadas “regras”. E aqui foi puxar o pessoal nesse sentido, para explorar outros territórios e outras sonoridades que eu habitualmente não exploro.

E o teu papel acaba por ser o do lobo alfa.

Ya [risos]. Isto para mim faz sentido. E para o pessoal que acompanha a minha carreira desde início, conhecem-me pelas colaborações e pelo trabalho de estúdio com outros artistas. É uma cena saudável para toda a gente. Estar em estúdio com alguém com quem nunca colaboraste é uma oportunidade para aprender coisas novas, para crescer, ver com os outros vivem a música também. Acho que é enriquecedor para toda a gente. No fundo, é um bocado nesse sentido.

Este é o primeiro projecto de muitos. Eu antes tinha uma cena — antes de editar os meus álbuns — que era o Illegal Promo. Puxava sempre bué artistas que muitas pessoas não conheciam. Aqui é um bocado isso, puxar todo o pessoal que eu curto. Artistas que eu descubro e dos quais gosto. O caso do DOMI, por exemplo. É um artista que eu adoro. Acho que é um puto com imenso potencial. A Sílvia Barros, que também está a começar agora. É bom para eles, terem uma plataforma onde se podem mostrar.

Alguma coisa em específico te chamou à atenção nesses artistas? Indo ao exemplo do DOMI, houve alguma faixa dele que te fizesse pensar: “eu tenho de ter este miúdo comigo numa faixa”?

Há vários factores no DOMI. Ouvi uma cena dele bué antiga que me mostraram. O pessoal da minha agência também quis pegar nele. Então comecei a descobri-lo mais. É um gajo que tem aquilo que tu não encontras em muitos artistas: escreve bem, tem flow, tem musicalidade, tem tudo. Em alguns momentos ele faz até lembrar o Sam The Kid de antigamente. É a maior influência dele provavelmente. É um puto super completo. E estamos a falar de um miúdo que tem 19 ou 20 anos… Tem uma margem de progressão enorme. Para mim, é um dos maiores talentos que andam por aí. Acho que é uma questão de tempo até ele explodir, como fizeram os Wet Bed Gang há uns tempos atrás.

Acabaste por ser o tipo de artista que lhes abriu portas — és um dos pioneiros em Portugal a abordar o hip hop com uma postura assumidamente pop, sem qualquer tipo de preconceito, tal como eles estão a fazer agora.

Ainda há bocado nós estávamos a falar disso. Não sei se sabes mas dois deles são meus primos — o Zizzy e o Fábio, que não canta mas faz parte da crew. Na altura, quando apareceram, eu já conhecia o trabalho deles e aquilo que eu fiz foi dar-lhes aquele empurrão que eles precisavam, porque lhes reconheci o potencial. Eles a partir daí levantaram voo e são aquilo que são hoje. Estão no top 3 do hip hop nacional actualmente. Eu acho, pelo menos.

E tens noção que qualquer uma dessas colaborações que fazer com outros artistas já são uma espécie de co-sign?

Eles não são os primeiros artistas com quem faço isto. Eu funciono muito assim. Vou muito pela música e pela empatia que há com o artista. Nos meus primeiros álbuns convidei um puto que é o D-Ro, que é da Nazaré e fazia um r&b incrível, convidei uma miúda que é a Kyara… Apoiei sempre algum pessoal que eu considerava talentoso.

E tudo malta newcomer.

Sim. Não sei se te lembras do DEAU. Também era um gajo que ninguém conhecia na altura e eu vi-o a dar um freestyle e pensei, “tenho de gravar uma cena com ele.” Portanto, sempre fiz isso porque acho que é saudável. No tempo em que eu comecei ninguém fez isso comigo e eu gostava que tivesse aparecido alguém que me convidasse para algo. É sempre bom para o pessoal que ‘tá a começar, porque é uma motivação extra. Então, se eu puder utilizar a minha exposição para fazer alguém atingir mais pessoas, é óptimo. Há espaço para toda a gente e é fixe quando há diversidade. Para mim, pelo menos, isto faz sentido. Haver partilha.

O hip hop nasceu disso mesmo, da partilha.

Exactamente. É algo característico do hip hop. Há pessoal um bocado defensivo em relação a umas algumas coisas e tenta sempre proteger o seu própio buzz e hype… Mas no final do dia eu acho que isto vive muito da partilha. Até porque se eu fizer carreira a cantar sempre sozinho acho que o pessoal se cansa de mim [risos]. Então, se puder trazer sangue novo e malta que acrescenta coisas fixes à minha música, porque não fazê-lo?

Referiste que ninguém fez o mesmo contigo quando eras tu o novato. Achas que essa atitude ainda se reflecte no movimento actual? Principalmente em relação à velha guarda.

Honestamente, eu não vejo isso. Assim de repente, não ‘tou a ver ninguém em concreto.

Vem-me à cabeça o Sam The Kid, por exemplo. Tem produzido temas para algum pessoal mais novo.

Ok, é verdade. Mas não falava tanto nesse sentido. Infelizmente não acontecem muito as colaborações. E eu gostava que isso mudasse. Eu ouço tudo o que se faz e descubro sempre gajos aqui e ali que me surpreendem. O que é bom. Há por aí pessoal com muito talento e só precisa é de uma oportunidade.

Fala-me das temáticas que abordas neste Alcateia: consegues ir do romance ao egotrip, por exemplo.

Nas entrevistas as pessoas têm-me abordado como se isto fosse um álbum, mas isto é uma mixtape. Foi feita de forma bué espontânea. Tenho o meu estúdio e chamei o pessoal para estar comigo e sentir umas vibes. Uns foram entrando nos sons, fomos desenvolvendo até ficar algo fixe. Mas não houve a preocupação nem houve o cuidado que há quando queres fazer um álbum — não tens de preocupar em construir uma canção, sabes que há sons que tens de ter temas com potencial para ser singles. Aqui não. Apareceu um beat bacano, “era fixe cuspir umas barras nisto”, então pronto, vamos lá. Há uma cena mais trap, outra mais soul. Para mim, aquilo que realmente importou foi poder explorar sonoridades e territórios que eu habitualmente não faço nos álbuns. São cenas que gosto de fazer — e que eu consigo fazer — e por isso queria mostrar esse lado aos meus ouvintes. Tens aqui um bocado de tudo.

Mas, além de ser uma oportunidade para te mostrares noutros registos, também pode ser visto como um tubo de ensaio para algumas sonoridades que queiras abordar num novo disco.

É uma boa dica. O Essência foi o meu melhor álbum até ao momento. Foi o pico da minha carreira. Fiz quase tudo o que havia para fazer — fartei-me de tocar, ganhei prémios. Nesta altura não sentia a necessidade de fazer um álbum. Então pensei, “vou fazer uma cena mais descomprometida e experimentar”. Acho que sim, tem de ser visto mais como um projecto experimental. Este foi o primeiro. Criei o conceito com a ideia de ter uma continuidade. Quero fazer o Alcateia 2, Alcateia 3… Puxar sempre mais pessoal, de todos os universos e depois, quando sentir que já experimentei muito, fazer um álbum. Já vou saber que caminho quero seguir, porque de momento não sei, sou-te sincero. Acho que é normal sentir essa pressão. Quando as coisas te correm muito bem tu vais querer superar aquilo que já fizeste. Então, para não cair no erro de tentar replicar uma fórmula que sei que funciona, resguardo-me um bocado, experimento outras coisas e vamos ver daqui para a frente.

Gostava de focar também um pouco no J-Cool, agora conhecido como Suaveyouknow. É também um daqueles casos de jovens que foste buscar e acabou por fazer parte do teu percurso desde então. Como tens acompanhado a evolução dele?

É brutal, man. É mais um bom exemplo do que estávamos a falar, de puxar pessoas. Eu conheci-o na altura em que lancei para a Internet o Momento da Verdade e vim apresentar esse projecto ao Musicbox. Ele foi lá ter comigo, com um CD, e disse-me “estão aqui uns beats, ouve isto”. E foi assim que tudo começou. Eu ouvi os beats dele, curti, e um desses beats viria a usar no meu primeiro álbum — no single “Story Tellers”. Ele já faz parte da equipa. É um gajo que faz parte da Alcateia. Eu posso conseguir um instrumental de outro produtor, mas vou mandar sempre para ele para que possa opinar e tentar construir mais algo, caso fuja um bocado da minha sonoridade. O percurso dele é um exemplo de que vale a pena fazer este tipo de coisas. Ninguém o conhecia e hoje em dia já faz músicas para o David Carreira, Diogo Piçarra… Até já saiu do espectro do hip hop, o que é muito bom. Neste momento consegue fazer vida disto, que acho que é o grande objectivo de quem está na música.

Eu também trabalhei com outro produtor tuga, o Prodlem. E fiz uma coisa que não tinha feito até agora, comprei leases de beats. Há meia dúzia de produtores que acompanho no YouTube e fui à caça de beats. Pelo menos metade desta mixtape, se não me engano, é feita com leases e pós-produzida pelo J-Cool. Não sei se no futuro volto a fazer isso, porque isso também representa alguns riscos. Aconteceu-nos uma cena, eu comprei um lease a um gajo, o Beats by Mantra, desenvolvi o tema e era para ser um single do meu álbum. Entretanto o Future comprou o mesmo instrumental e usou-o no “Fresh Air”. Eu queria ter comprado a exclusividade do beat mas ele não vendeu, fiquei apenas com a licença máxima antes do exclusivo. Ao Future ele vendeu todo. Foi engraçado. Nós estávamos prontos para lançar o som e íamos filmar o vídeo. Na semana a seguir disseram-me “olha aqui este rapper que está a rimar no teu beat“. Pensámos que fosse um gajo qualquer, nada a ver, e era o Future, no ano em que ele ‘tava super quente. Retraímos-nos em lançar o tema, porque ia sair depois do tema do Future e o pessoal podia pensar que a minha versão não era a original… Mas esse som está tão bom que, se calhar, ainda sai numa das Alcateias.

Fizeste menção ao facto de passares todos esses beats que usas de outros produtores ao J-Cool na mesma. Ele assume-se como uma espécie de produtor executivo para ti, neste momento?

Nós pensamos sempre nas cenas em conjunto. Quando chegamos à conclusão que o beat precisa de algo, ele dá a roupagem dele, até ficar no ponto que queremos. Ele tenta ligar os pontinhos todos. Mas claro, ele tem sido uma peça fundamental. Não te vou dizer que não. Desenvolvemos um cunho sonoro e grande parte disso vem do cunho dele.

Nesses leases que tu fizeste, foi tudo a produtores internacional? Excepto o Prodlem, claro.

Houve também o James Gold, que é um puto que ninguém conhece ainda mas com grande potencial.

Ele e o Prodlem foram para o estúdio contigo?

O James Gold não, porque já estávamos apertados com os timings. Foi ele quem produziu o tema com o Phoenix e o Loreta, que começou por ser noutro beat. Como eu não gostei desse resultado, enviei-lhe as pistas e ele montou a batida em cima do acapella.

Há algum artista com quem ainda não tenhas trabalhado que já tenhas em mente para os tais sucessores do Alcateia?

Estou a fazer uma cena com a Carolina Deslandes. Provavelmente para entrar nesse mesmo projecto. Sou mega fã dela, como letrista, como cantora. Temos vindo a experimentar umas coisas, já gravámos material que não saiu. E em princípio vamos fazer qualquer coisa para entrar neste projecto. Há um gajo que eu curto bué, desde sempre, o Kosmo Da Gun. Temos uma malha juntos também. Para já, esses são garantidos. Mas até lá pode acontecer muita coisa. Tem muito a ver com a química que se cria quando o pessoal aparece no estúdio.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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