Jessy Lanza: juntos em sonhos electrónicos

[TEXTO] Nuno Afonso [FOTO] Alex Welsh

2013. A sempre imparável e influente Hyperdub dava a conhecer mais um disco de Burial, enquanto fazia chegar os esperados regressos de DJ Rashad ou Laurel Halo. Doze meses especialmente agitados com alguma da prata da casa que nem por isso tirou tempo e atenção para o álbum de estreia da canadiana Jessy Lanza. A aposta foi imediatamente ganha e, quatro anos depois, sente-se a sua dimensão. Pull My Hair Back reunia de modo quase ingénuo um conjunto de segredos para uma boa entrada: soava enigmático, trazia ideias sólidas e abordava um entendimento de pop tão complexo quanto fascinante. Em suma, um objecto encantatório, pleno de possibilidades e dando a apresentar uma artista naturalmente transgressora (sem o peso de um academismo por vezes associado ao termo).

 



O modo como cria espaço e faz fluir detalhes é uma arte que a própria aprimorou com a passagem do tempo. No que respeita aos seus elementos, Lanza trabalha com tantas linguagens quanto possível; se se encontram alguns alicerces no r&b, é igualmente certo que as experimentações urbanas mais radicais confluem com uma almejada estética de canção. Um difícil e valioso equilíbrio em constante estado de maturação que tem encontrado um público cada vez mais amplo. Nomeada por duas ocasiões para o cobiçado Polaris Music Award, distinguindo anualmente as melhores edições discográficas canadianas, o feito é revelador de um reconhecimento que só tem a crescer num futuro próximo. Em simultâneo, busca rodear-se de outros criadores, gente ligada aos meandros do footwork como DJ Spinn e Taso, ou  Jeremy Greenspan, do duo Junior Boys – cuja colaboração já tinha ficado registada no álbum de estreia.

Para alguém que um dia quis adquirir uma MPC só pelo gozo de se aproximar à sonoridade pujante e nervosa do mestre DJ Rashad, fica patente a vontade de operar numa esfera situada na música de dança urbana (a miúda é igualmente fã do rapper Drake). O single “It Means I Love You” traz esse frenesim rítmico feito de uma maravilhosa sobreposição de percussões em jeito de baile dub onde alguém se esqueceu, a dada altura, de diminuir o pitch. Do espectro sónico à delicadeza multicolor, Lanza faz questão de explorar a ambiguidade de ambientes  e de experiências pessoais. As palavras que dão corpo às suas letras captam uma certa ansiedade digna da vida moderna por sua vez canalizadas num escapismo sonoro, paradoxalmente, feito de extensão e languidez.

 



Em comparação a algumas contemporâneas suas minimamente próximas como FKA Twigs ou Grimes, há a salientar um interesse estético quase sociológico, ou por outras palavras, de teor global, abrangente e transversal. Entenda-se isso por um rastreio de sons mestiços, vindos quer dos subúrbios de Londres (onde o grime ecoa), quer pelas ruas de Durban (celebrando as recontextualizações house). Lanza é assim um satélite, a transmitir e a receber uma música de palpitações múltiplas e sensibilidade à flor da pele; assim mesmo, mão a mão.

A escassos dias de Jessy Lanza se apresentar no Lisboa Dance Festival, e ao lado de Marcel Dettmann, Mount Kimbie ou Hercules & The Love Affair, projectam-se as melhores expectativas nesta vinda; pelo brilhante percurso que tem feito, mas sobretudo pelo timing com que aterra cá, ou seja, ainda na recolha justa dos louros de Oh No que terá um destaque mais que natural nesta actuação. Puxando a razão à equação, não abundarão assim tantas oportunidades para presenciar este pequeno vulcão diante de nós – e desde logo tão bem acompanhada ao longo da noite.

 


Nuno Afonso

Nuno Afonso

Com GANDULAGEM e Falésia, explora a (re)criação musical. Após um passado ligado às publicações Kling Klang, Mescla Sonora e Vice, actualmente encontra-se na ZDBmüsique.
Nuno Afonso