LP / CD / Digital

Jessy Lanza

All The Time

Hyperdub / 2020

Texto de Pedro João Santos

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Jessy Lanza nunca vai ser uma diva. Talvez nos corações mais melódicos do mundo electrónico possa estar perto de sê-lo, mas a canadiana não tem voz nem presença para encarnar esse papel. O seu tom agudo não tem a potência de uma Minnie Riperton, os seus olhos raramente cruzam os de quem a vê na plateia. Nos videoclipes, que podiam ser exercícios espampanantes de estilo, anda de bicicleta pelo cinzento dos subúrbios. É cantora, compositora e produtora tal como poderia ser uma excelente canalizadora: faz um trabalho de louvar, discreto, sem pedir louros.

A música, resplandecente e frenética, é o que atraiçoa essa postura. Nas encantações de Pull My Hair Back, a estreia em longa-duração, Lanza fundiu o r&b mais magnético com sintetizadores latejantes de desejo; em Oh No, o eléctrico sucessor, abriu um portal para uma galáxia de pop bizarra, entre o vácuo existencial e os nervos à flor da pele. Mesmo às portas do terceiro disco, deu-nos “Face”, onde sufoca o corte-e-costura de vozes com um polirritmo (na continuação do seu maior êxito, “It Means I Love You”). Era a esperada simbiose entre as bases do seu som: um ideal cada vez mais torcido e sintético da pop, e a afinidade com o footwork, um delírio fabricado em Chicago (melhor que ninguém pelo mestre DJ Rashad) a partir de samples e pancadas de 808s. Mas parecia contrafacção: nunca Lanza nos tinha oferecido música sem núcleo emocional.

É certo que “Lick in Heaven”, o single anterior, também não era transparente. Por debaixo da batida implacável e a chispa de cada melodia, estava a imagem – embora maquilhada – do que é perder-se numa espiral de impaciência e bílis. A ideia não precisava de ser descodificada (e martelada) em entrevistas promocionais como foi. Percebe-se com um par de repetições, mais facilmente ainda se se conhecer o padrão de escrita de Lanza: um sentimento alberga sempre duas forças antagónicas, uma ao volante e outra ainda sem tomar forma – como ectoplasma a assombrar um refrão cristalino. O problema com “Face”, contudo, não era ser uma incógnita: sob a teia de samples cruzados, baralhada ad nauseam, não sobrou quase nada. O drama, a tragédia, o horror… nem vê-los. Talvez por isso um single seja uma pista tão errática: afinal, o disco completo, All The Time, é a maior odisseia emocional de Lanza até hoje. 



Os grooves não esmurram tanto como antes, preferem soprar como ventos da madrugada; o que parece monótono, só por não agarrar imediatamente, tem o maior potencial de longevidade. Porque é mais profundo e, atenção, não porque queira aniquilar os limites da experimentação. Antes deste disco, Lanza nunca tinha soado tão fria – e simultaneamente absorta nas assimetrias de si mesma, principalmente na secção tríplice de “Badly”, “Alexander” e “Ice Creamy”. Onde há amor, não é correspondido, ou reverte para uma metáfora de autodestruição. É impassível, como uma Aaliyah do futuro, na primeira canção; provocadora triste e confusa na segunda; irreconhecível na última, uma carta de amor a analgésicos. Já se escreveu que o seu primeiro álbum tinha uma natureza estupefaciente; All The Time amplia essa inclinação para se perder no tempo e no espaço sonoro. Fá-lo, ao mais alto nível, na cançoneta que encerra o álbum, como uma paixão musicada para um Verão nado-morto.

Sabe bem essa contraluz, todos os recantos e franjas de emoções à espreita. Sempre foi assim: nunca se recusa uma malha de Lanza, mas é do lado mais temperamental da barricada que fica o ouro (ouvir também: “5785021”, “Begins”, “Strange Emotion”). Ter o bailarico como única meta, à semelhança de “Like Fire”, é uma abordagem menos produtiva e que, ainda assim, epitomiza a mestria de Lanza e o seu colega Jeremy Greenspan dos Junior Boys: deixar que os sintetizadores – alguns herdados do pai da artista – contem uma história. Seja de deslumbramento ou perdição, com igual tolerância pela beleza irascível e o terror menos bonito, falam uma linguagem do vivo: soluçam durante “Anyone Around”, pintam aguarelas em “Over and Over”, compõem a beleza intangível de “Baby Love” (que pode lembrar Jessie Ware e Sampha de algo). 

All The Time só faz sentido se, respeitando o título, vos conseguir abrandar. É o momento certo para um mergulho na psique, ou uma ginga aí dentro – tanto melhor se, por milagre, inspirar um surto criativo em todos os canalizadores.


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