O jazz e a electrónica casam-se em Hai

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Tiago Pinho

Hai pode remeter para o Japão, mas na verdade Pedro Ricardo foi encontrar o nome na música de Hailu Mergia, músico etíope que o presente redescobriu em boa hora e que injectou alguma electrónica na tradição. Hai procura fazer o mesmo, agarrando no jazz e moldando-o às suas visões para a pista de dança sem esquecer a tensão e a imprevisibilidade sempre geradas em estúdio quando músicos reais são igualmente convocados.

Esta é uma estreia auspiciosa que a 1980 apadrinha: seis temas que revelam um autor com ideias avançadas e arranjos respeitadores da tradição, mas capazes de abraçar o presente electrónico. O EP de seis temas sai primeiro em versão digital, já a 14 de Fevereiro próximo, e deverá ter uma edição física posterior. “Especial”, garantem os responsáveis da 1980. Enquanto aguardamos pela edição, uma antestreia em exclusivo para o Rimas e Batidas.

 


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Hai é o teu primeiro projecto? Qual o teu percurso musical até chegares a este Going Somewhere?

O primeiro EP que compus foi com o pseudónimo Bababa e foi lançado na Extended Records em 2015. É um EP de house/techno que pouco tem a ver com Hai. Antes disso, estudei guitarra na Escola de Jazz do Porto, estive envolvido em algumas bandas e pequenos projectos, mas nada com grande relevância.

Há algo de japonês no nome escolhido, Hai, mas a sonoridade tem muito de french touch… concordas?

Na verdade não é japonês, é etíope: Hailu Mergia. A reedição do 7inch – Musicawi Silt coincidiu com a altura em que comecei a escrever o EP, foi algo que nunca tinha ouvido e de certa forma inspirou-me a fazer música do género. É certo que artistas como St.Germain são sempre referências para alguém que quer cruzar jazz e electrónica, mas, neste caso, não foram uma influência directa no EP.

Estes loops de jazz: vêm de alguma colecção de vinil? São o resultado de pesquisas online?

Para além dos recursos habituais dos discos, YouTube ou documentários, a produção passou por fazer jams com os músicos convidados, gravar novas partes por cima dos samples originais, etc…

Tens algum período favorito na história do jazz? Instrumentos? Músicos?

É difícil eleger um período favorito. No entanto, standards de bebop ou cool jazz como Donna Lee, Oleo e Take Five acabaram por ser bases importantes, também pela altura em que me foram apresentados. Escolher instrumentos e músicos é muito difícil. Mas vá lá, não sei como seria a minha vida sem o Herbie e o seu piano.

O jazz é a música do momento e do improviso, mas a produção electrónica é o resultado de uma abordagem mais solitária e analítica, menos espontânea, mais calculada. Sentes isso?

Claro, parte do desafio de cruzar estes dois géneros é tentar arranjar formas de tornar o que tem que ser programado, orgânico. Gravar takes longos e fazer loops compridos são truques simples que tornam o resultado final menos mecânico.

 


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Falas-nos dos músicos que colaboram neste projecto? Há intenção de fazer isto ao vivo?

O Marco Duarte (percussão) e o Leonel Patricio (saxofone) foram parte essencial do projecto. Para além de serem músicos excepcionais, conseguiram perceber perfeitamente qual era o objectivo das faixas. Os solos e os momentos gravados ao vivo são a vertente mais humana do projecto e a de que estou mais orgulhoso. Quanto a actuações ao vivo: há vontade, mas o mais provável é que não aconteça. Estamos todos a estudar e encontrar tempo para ensaiar e preparar um espectáculo é complicado.

Quais são as tuas referências no universo da electrónica? As que sentes que guiaram mais este trabalho?

Enquanto produtor e DJ, existem dois mundos que são realmente importantes. O house de Detroit: Theo Parrish, Moodyman; toda a cena inglesa de Broken Beat: 4Hero, Bugz In The Attic, são nomes que influenciam tudo o que eu faço. O projecto demorou cerca de um ano a ser produzido, portanto as influencias iniciais acabaram por ser diferentes das finais. Se no início foi o Hailu, no fim foi o Chick Corea.

 


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Como aconteceu esta ligação à 1980?

Foi há cerca de 2 anos. Na altura, eu tinha umas faixas no SoundCloud e o Fred (Nave Mãe) enviou-me uma mensagem a perguntar se eu queria fazer parte da Lyfers vol. II, acabei por participar com duas faixas uma de Bababa e outra de Hai.

Já projectas mais passos para Hai?

Sinceramente não pensei muito nisso ainda, neste momento quero desfrutar este EP.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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