James Brandon Lewis prepara-se para, na companhia do baterista Warren Crudup III e do baixista Josh Werner, apresentar Apple Cores ao vivo no Auditório de Espinho Academia, já esta sexta-feira, dia 27 de fevereiro, passando depois pelo Jazz ao Largo, em Barcelos, no dia seguinte. O álbum é um dos melhores registos de 2025 e a confirmação — mais uma… — do estatuto cada vez mais incontornável de um músico altamente criativo e totalmente comprometido com o avanço da sua arte.
Em Maio do ano passado, escrevi sobre Apple Cores no Expresso, sublinhando que Brandon Lewis conseguiu dominar o som da utopia:
“Músicos a tocarem para músicos e a tocarem exactamente aquilo que lhes apetecesse, eis a verdadeira utopia”. O desejo pertencia a LeRoi Jones (mais tarde Amiri Baraka), ensaísta e poeta que em 1968 editou o livro Black Music, uma crónica das revoluções do jazz (esse livro foi alvo de uma belíssima tradução de João Berhan que mereceu uma edição na Orfeu Negro em 2021 prefaciada por Kalaf Epalanga). A frase rematava “Apple Cores # 1”, a primeira crónica que o escritor assinou na revista DownBeat (e que, juntamente com outros textos, foi depois integrada em Black Music). Nesse texto, Jones media o pulso dos subterrâneos jazz de Nova Iorque em 1964 dando conta de alguns novos espaços onde músicos como Don Cherry iam empurrando esta música criativa para o futuro. Foi a leitura dessas crónicas, precisamente, que enformou este registo do prolífico James Brandon Lewis, saxofonista tenor que tem brilhado consistentemente em contextos muito diversos (além deste trio dirige um quarteto que grava para a Intakt, encabeça o fantástico Red Lilly Quintet e tem exercitado o seu músculo criativo com bandas como os The Messthethics ou os Mendoza Hoff Revels, percorrendo sem dificuldade a distância entre o mais abrasivo rock e o mais libertário jazz). Neste álbum, Apple Cores, com Chad Taylor e Josh Werner a secundarem-no na bateria e baixo, respectivamente, Brandon Lewis cumpre a utopia de LeRoi Jones ao tocar para os seus companheiros exactamente aquilo que lhe apetece: uma música viva, enérgica, espontânea e orgânica onde faz sobressair as influências de músicos como Don Cherry, Joe Henderson ou Ornette Coleman (o único tema não improvisado deste álbum é uma versão de “Broken Shadows” que Coleman registou em álbuns de 1972 e 1982), exibindo um som gigante, de riffs vincados, sustentados por grooves tão fluídos que quase nos fazem acreditar que o que aqui se escuta foi previamente escrito. Nada disso. É apenas o som da utopia.
Há algumas semanas, aproveitando uma pausa no trabalho de preparação de mais um lançamento na Intakt, James Brandon Lewis saiu do estúdio e respondeu a algumas perguntas sobre a sua relação com a música, a música apresentada em Apple Cores e a vida na estrada.
Na minha crítica ao álbum citei uma frase de Amiri Baraka sobre músicos a tocarem para outros múicos exactamente aquilo que sentem. De que forma essa ideia influenciou o método de trabalho do trio?
Gravámos o álbum em dois dias, em duas sessões distintas, totalmente improvisadas. Embora seja creditado a The James Brandon Lewis Trio, neste Apple Cores houve uma contribuição colectiva. Não foi algo em que, apesar de eu ter um forte sentido melódico que é claro no material criado, eu pudesse assumir o crédito total. Houve uma colaboração comunal clara na construção das melodias e harmonias. Portanto, sim, definitivamente: somos músicos a tocarem uns para os outros, músicos que se escutam e respeitam mutuamente.
O álbum soa notavelmente orgânico. Apesar de ser totalmente improvisado, há a sensação de uma arquitetura subjacente. Como conseguem — você, Chad e Josh — construir esse sentido de forma dentro de um contexto de liberdade total?
Um dos papéis da improvisação é abraçar o mistério. Estabelecemos uma relação há muito tempo. Conheci o Chad em 2014. Conheci o Josh por volta de 2017, a tocar com o Marc Ribot. Com o tempo, constrói-se vocabulário e intuição, marcadores que se sentem como uma resposta visceral. Depois de algum tempo, sentimos que surgiu uma melodia, que podemos entrar numa improvisação. É uma intuição treinada, em que não é necessário escrever a forma. É como estar num carro, a viajar, e o GPS falhar, mas já termos feito aquele percurso antes e reconhecermos marcos à nossa volta. O mesmo acontece musicalmente: ouvimos uma mudança e percebemos que talvez seja altura de terminar o solo, que o baterista deve assumir algo, que o baixista tem uma ideia. Procuramos esses marcadores como se estivéssemos a conduzir. Para mim, neste ponto da vida, a música é menos sobre os formalismos do material e mais sobre o que o material deve incorporar. Qualquer pessoa consegue ouvir o peso de uma progressão que vai do cinco para o um. Tal como numa igreja, todos reconhecem um “amém”. Não é preciso ser músico para sentir essa gravidade do movimento. Tocámos juntos em muitos contextos e sabemos naturalmente para onde a música deve ir. Às vezes, escrever a forma seria uma perda de tempo. Cada músico trabalha a sua personalidade musical individualmente, e isso manifesta-se no coletivo. Gravámos uma sessão antes da digressão e outra depois. Com o tempo, passa-se a conhecer os músicos como conhecemos um familiar. Se observarmos a nossa avó a atravessar uma sala, reconhecemos imediatamente o ritmo da sua caminhada. O mesmo acontece musicalmente. Reconhecemos quem cada um é através do som. Tudo o que o trio toca nesse disco é completamente espontâneo. Houve apenas duas músicas previamente tocadas. Uma delas não entrou no disco. A outra foi “Broken Shadows”.
Num contexto tão espontâneo, por que razão decidiram incluir “Broken Shadows”, de Ornette Coleman, no alinhamento de Apple Cores?
Ao pensar nos títulos e nas experiências partilhadas entre os músicos, lembrei-me de como Amiri Baraka falava dos músicos nas margens — Cecil Taylor, Ornette… Esse texto está no livro Black Music. Ornette foi uma influência enorme no meu trabalho e no trabalho das pessoas do grupo. Tocámos essa peça na estrada. Quando penso no legado das pessoas com quem Ornette trabalhou e nas pessoas com quem nós trabalhámos, vejo uma linhagem comum. Josh teve mentores como Bill Osborne, Reggie Workman e Richard Davis. Chad tocou com Fred Anderson, Pharoah Sanders e com o Chicago Underground de Rob Mazurek. Existe uma influência colectiva de uma certa era de músicos. Ao longo do meu trabalho, sempre prestei homenagem a Ornette e Don Cherry. Tenho uma grande reverência pelos músicos curiosos.
Amiri Baraka descrevia os espaços underground de Nova Iorque como lugares onde a música era projectada para o futuro, noite após noite. Sente que o trio vive hoje um processo semelhante na estrada, tocando noite após noite?
A música está constantemente a mudar porque não quero ser complacente. Trabalho com músicos que também não querem ser complacentes. Suamos em palco, como operários. Não encaro isto como uma arte distante, mas como algo que exige entrega total. Penso muitas vezes no William Parker e no nome do seu grupo, In Order to Survive. Tocar como se a vida dependesse disso não deixa espaço para complacência. A circunstância obriga a música a crescer. Temos de honrar a música e quem veio antes. A minha ligação a Amiri Baraka é também pessoal. Toquei antes de uma sessão de leitura protagonizada por ele, em 2013, na St. Mark’s Church. Estudei na mesma universidade que ele, e Blues People foi leitura obrigatória no nosso programa académico. Nada disto é aleatório.
De que maneira os contextos muito distintos em que tem tocado — como o quarteto ou a colaboração com The Messthetics — influenciam depois o trabalho do trio?
Cada projecto é um problema musical diferente, uma equação diferente. Não misturo essas equações. Tento ser eu mesmo em todos os contextos, mas cada um exige uma abordagem própria. O fio condutor é o meu pensamento melódico e motívico. Isso é reforçado nessas diferentes formações. Essas experiências reafirmam quem sou musicalmente, em vez de misturar linguagens.
Está actualmente na Suíça a trabalhar em estúdio. Pode revelar um pouco do que se encontra a preparar para o futuro mais próximo?
Estou a misturar e a masterizar um novo disco de quarteto, que será lançado em junho, intitulado Omni. É uma continuação do meu sistema de composição, a que chamo música molecular sistemática, influenciada pela música dodecafónica, mas reinterpretada à minha maneira. Gosto muito do trabalho em estúdio. Ao vivo, tudo é imediato e desaparece assim que sai do instrumento. Como diz William Parker, ninguém possui a música. Talvez por isso estejamos sempre a tentar capturá-la. Isso é mágico e misterioso.