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Fotografia: Auditório de Espinho
Publicado a: 03/03/2026

Um tenor de autoridade expressiva.

James Brandon Lewis no Auditório de Espinho: comunhão completa

Fotografia: Auditório de Espinho
Publicado a: 03/03/2026

James Brandon Lewis dirigiu o seu ultra-oleado trio numa intensa viagem a um entusiasmante território de invenção pura, uma jornada em que tanto o baixista Josh Werner como o baterista Warren “Trae” Crudup III comungaram da mesma entrega incondicional às forças do espírito. Sobre Lewis, o reverenciado guitarrista Marc Ribot disse o seguinte: “Os solos de James Brandon Lewis são como um avião de transporte de grandes dimensões: é preciso dar-lhe bastante espaço na pista para descolar e aterrar. Porque são enormes, não apenas em termos de som, técnica, alma, ideias, energia e originalidade (embora tenham tudo isso em abundância), mas porque transportam uma carga preciosa: o legado vivo de John Coltrane. Não estou a falar da reprodução habilidosa de um som jazzístico histórico por parte de um ‘jovem leão’, mas da coragem de um jovem artista para aceitar o desafio espiritual — canalizar o que precisa de ser canalizado agora”. Verdade irrefutável: perante uma sala esgotada, James Brandon Lewis, sem dizer uma única palavra sobre o assunto, tocou para o momento conturbado que atravessamos, elevou-nos o espírito quando mencionou a sua avó e deixou claro que a energia que se desprende da sua música tem poder suficiente para iluminar muitos corações.

A abertura do concerto no Auditório de Espinho fez-se com “Alicia”, composição de Eddie Harris, apresentada quase como um oratório. Desde o primeiro sopro instalou-se um ambiente de recolhimento atento. A secção rítmica afirmou-se como fundação sólida para os discursos do líder. Josh Werner desenhou linhas profundas e elásticas, com um sentido melódico sempre presente. Warren Trae Crudup III estabeleceu um pulso firme e detalhado, sustentando cada inflexão com precisão orgânica. O tenor de Lewis soou amplo, centrado, com projecção natural e autoridade expressiva. A soma de todas estas partes resultou incomensurável, com o trio a soar como coesa unidade, mesmo com Crudup a substituir Chad Taylor, o baterista que gravou o álbum que foi o centro da performance da passada sexta-feira.

“Apple Cores #1”, peça que abre o álbum Apple Cores, confirmou a vitalidade de um dos discos mais marcantes do último ano. Em palco, a composição expandiu-se. A arquitectura rítmica ganhou elasticidade e os solos desenvolveram-se com fôlego largo, seguindo trajectórias longas e narrativas. Cada frase parecia carregar memória e urgência, numa construção que exigia espaço e tempo para atingir plena forma. “Prince Eugene” introduziu um balanço próximo do reggae, com o baixo em modo dub (Werner, afinal de contas, tocou bastante com o mestre Lee Perry) a conduzir o pulso com firmeza hipnótica. A evocação de Donald Eugene Cherry, aka Don Cherry, trouxe consigo a ideia de que a música deve ser mente e sentimento, como Brandon Lewis explicou citando o lendário trompetista. Essa máxima encontrou expressão imediata em “Of Mind and Feeling”, também de Apple Cores, onde a escrita orgânica permitiu ao trio trabalhar dinâmica e respiração colectiva oferecendo ao público presente uma verdadeira massagem aural imersiva. O som expandia-se e recolhia-se com naturalidade, como um organismo vivo em movimento contínuo.

Em “Five Spots to Caravan”, Werner voltou a assumir protagonismo com intensidade luminosa. As suas linhas abriram novas perspectivas harmónicas enquanto Crudup III mantinha um comando absoluto do groove. A sua bateria revelou a assimilação profunda das cadências do hip hop integradas numa linguagem jazzística aberta e contemporânea. A comunicação entre os três músicos revelou-se constante e intuitiva, resultado de uma escuta partilhada que alimentava cada desenvolvimento.

“Broken Shadows”, um original de Ornette Coleman que é a única peça no alinhamento de Apple Cores que Lewis, Taylor e Werner não assinaram, voltou a oferecer amplo espaço ao baterista. Alternando entre as duas tarolas do seu kit expandido, construiu um discurso rítmico subtil e firme, com pulsação estável e invenção tímbrica. A sala permaneceu concentrada, absorvida pela densidade do momento e pela clareza do desenho rítmico exposto num solo de cortar a respiração. “Left Alone”, de Mal Waldron, trouxe uma evocação intensa da tradição. A interpretação manteve a carga emocional da composição e abriu espaço para novas inflexões. Em “Within You Are Answers”, do álbum Eye of I, surgiu um dos instantes mais tocantes da noite. Lewis partilhou a pergunta da avó sobre a possibilidade de voltar a tocar música calma. O tema iniciou-se como balada introspectiva e ganhou progressivamente ímpeto, como se a resposta estivesse na própria expansão da energia.

A homenagem a Abdullah Ibrahim e a Pharoah Sanders antecedeu um solo de particular intensidade. Lewis citou melodias reconhecíveis, entre elas “Somewhere Over the Rainbow”, reorganizando-as com recurso a um efeito que fazia o saxofone soar quase em sentido inverso. A impressão era a de ouvir memórias reconfiguradas no instante. O público respondeu com entusiasmo contido e admiração evidente. O fecho com “Someday We’ll All Be Free”, clássico de Donny Hathaway, encerrou a noite num registo de esperança partilhada. A interpretação foi directa, emotiva e luminosa, com ressonâncias gospel evidentes. Na despedida, Lewis deixou um apelo claro à defesa da música ao vivo e à preservação da experiência humana que ela convoca. Depois de terminado o concerto, já no foyer do Auditório, depois de esgotar o stock de discos que trouxe para a sua merch table e de distribuir autógrafos e pousar para fotos, James Brandon Lewis ainda reservou tempo para falar longamente com alguns alunos que buscaram o seu conselho, sinal de uma generosidade sem limites. Uma comunhão completa, de facto.

Em Espinho confirmou-se a consistência de uma linguagem que une espiritualidade activa, intensidade física e consciência histórica. Em Brandon Lewis, o legado de John Coltrane manifesta-se como impulso vital inscrito no presente. O que se viveu no Auditório foi música tocada com entrega total, música feita para o agora, música capaz de iluminar muitos corações e de elevar outros tantos espíritos.


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