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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

“Rollie wrist i’m the shit /21 with no kids / Bouta rain on a bitch”. Condenável? A jovem sensação Jacquees deixa as coisas em pratos muito limpos: “I know you wanna love / but I just wanna fuck”. “B.E.D.” é um hino alimentado a hormonas adolescentes, com o novo prodígio da Cash Money a dizer ao mundo que tem algum dinheiro no bolso (o Rollex no pulso deixa isso claro) e que não é nenhum “baby daddy” e que quer gozar a sua independência. E só aí, nessa simples constatação, Jacquees coloca-se acima da média estatística dos jovens como ele das “inner cities” que têm que lidar com a parentalidade quando ainda deveriam estar a usufruir dela…

Jacquees tem o típico percurso de um artista negro e talentoso da América contemporânea: uns quantos anos a servir nos subterrâneos, a lançar mixtapes, a assinar colaborações em projectos de nomes mais visíveis, até que alguém da primeira divisão repara nos seus skills. Mood é já a sua quinta mixtape desde que em 2011 lançou Round of Applause. O mundo fora do seu bairro de Decatur, Georgia, há-de ter começado a reparar em si com as duas Quemix que lançou, repletas de revisões de matéria alheia, a última das quais em Janeiro de 2015, já depois de ser agarrado pela poderosa Cash Money. Essa mixtape seguiu-se ao EP 19, trabalho com 11 faixas e colaborações de gente como Chris Brown ou Rich Homie Quan que aterrou com força nas tabelas iTunes e Billboard abrindo os olhos a quem importava. E aqui estamos. Mood deverá ser a sua última “oferta” no terreno das mixtapes antes da edição da sua estreia a solo: o álbum já tem título – Lost at Sea – mas a data de saída ainda não foi anunciada. Sem problema porque Mood dá-nos muito que pensar para os próximos meses.

Parte de uma nova geração de vozes R&B com afiliações íntimas ao universo do hip hop – assim de repente é possível nomear gente como BJ The Chicago Kid, Anderson .Paak ou Ty Dolla Sign – Jacquees traz um feeling menos polido e mais “ghetto” para este jogo. R&B para o quarto, sim, claro, mas não para a suite do hotel de cinco estrelas ou para o “master bedroom” da mansão de Beverly Hills, antes para o quarto de adolescente na casa do bairro, R&B para o carro que se estaciona atrás do centro comercial quando a noite já vai avançada. R&B para os telemóveis e para as ruas. R&B para este presente.

Nesta nova mixtape, Jacquees volta a recolher alguns apoios importantes – de Dej Loaf e Birdman a Young Scooter ou, de novo, Rich Homie Quan – mas é o seu vocal de tenor macio, arredondado pelo inevitável auto-tune a espaços, que brilha sobre instrumentais contemporâneos com assinatura de Nash B, erguidos para a realidade pós-trap, lentos como as slow jams devem ser. O tema “Pandora” é central e revelador do universo em que Jacquees se move. O título não é nenhuma metáfora rebuscada e refere-se mesmo à rádio digital. Canta Jacquees:

Honey I’m home I’ve had a long day
I don’t really wanna talk about it
So play our song, we jam, we joking
And it makes me feel good, yeah, right
Right now it’s on, song after song
We’re in our zone, yeah, listenin’ to the music
Not one thing wrong, not on our phones
Just me and you
You and me and Pandora

E depois, a clarificação:

You like Beyonce station, I like Jay-Z, oh yeah
Pandora, Pandora
Make me feel good at the end of the day
Goin’ to the night, have it our way, I do, I do
I’m on this plane, clouds full of rain
Back to the A, thinkin’ about you
One thing’s for sure, when I get home
We’re in our mode tonight, can’t wait to see it
Now my heart is beating for you
In a threesome with the music
Pandora’s on walk through the door
There’s no surprise, your girls are waitin’ for me

R&B para agora, para quem ouve música na nova realidade digital. Se isto fosse um tema de R Kelly, o protagonista estaria a meter um vinil de Marvin Gaye numa aparelhagem Bang & Olufsen instalada numa sala topo de gama de um qualquer condomínio de luxo. Mas aqui, Jacquees chega a casa e quer apenas ligar-se no seu canal favorito e descansar a cabeça. R&B sim, mas um “R&B Nigga”, como explica o próprio, um par de temas mais à frente.

Não há nenhum tipo de sofisticação poética por aqui, ou orquestras de seda e arranjos cromados. Jacquees está no bairro e canta para o bairro. E assim, Jacquees relaciona-se com o presente centrando-se em coordenadas reais, palpáveis, sem fantasias inalcançáveis – é a isso que a capa desta mixtape se refere: um cantor despido de argumentos, sem adornos supérfluos, exposto. Honesto. A sua voz, no entanto, tem a sofisticação que os poemas rejeitam ou não logram alcançar. Mood é por isso mesmo uma forte amostra do que Jacquees tem para oferecer ao presente: jams para o quarto, cruas, mas sem cairem numa “nastyness” execessiva, que apontam para a paisagem real da América urbana, não para os filmes de alta definição que no YouTube projectam um país que só existe nas imaginações mais férteis e ao alcance das carteiras mais recheadas. Espera-se agora que Jacquees se mantenha de pés bem assentes a terra e não se perca no mar de tentações que o sucesso pode trazer. O programa, como as emissões da Pandora, segue sem interrupções. É manterem-se ligados…

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