J-K e Carolina Caldeira no primeiro single do EP de estreia de Caco

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Caco lançou ontem o primeiro single do seu EP de estreia. J-K (Monster Jinx) e Carolina Caldeira são os convidados de “ID”. A edição de Narcisos está agendada para o dia 30 de Maio.

O lançamento das primeiras músicas de Caco coincide com o nascimento da Monkery Collective, em 2016. “Running” e “Moke” foram as faixas a solo que Caco colocou na compilação da editora — também colaborou com os colegas Odaminani e Stairstep em “Monument”.

Uns meses depois saiu VHS , um duplo single com produção e instrumentação de Caco, que recorreu ainda a um sample de “Rushes To”, de Frank Ocean. Polaroid foi servido em moldes quase idênticos, com um “extra” de Stairstep, que remisturou o tema-título. Este ano, Caco juntou-se a Rafxlp, um dos fundadores da Slow Habits, em “do you drive on all your nights like this?”.

A propósito do lançamento de “ID”, o produtor conversou com o Rimas e Batidas sobre este novo capítulo, que nasce de uma longa estadia em Paris.

 



Escolheste um título bastante primaveril para o EP. Porquê Narcisos?

O conceito do EP centra-se em emoções que tive na Primavera do ano passado, quando estudei em Paris. O facto de sair da minha zona de conforto fez-me abordar algum do individualismo e egocentrismo a que me expus. O extremo desses sentimentos, o narcisismo, trouxe-me alguma vontade de pensar quem sou, estando noutro meio. O paralelo com as flores deu-se porque em Paris há uma cultura maior dos jardins terem flores que em Lisboa (eu fiquei, pelo menos, com essa sensação). A conexão do narcisismo com as flores remeteu-me directamente para os narcisos numa altura em que comprei uma polaroid. Meti-me a fotografar nos jardins e assim cimentei o conceito do EP.

Fala-me destas quatro canções. Foram todas compostas neste último ano, desde essa Primavera?

Este trabalho começou na verdade pelo conceito. Gradualmente fui juntando ideias que pudessem melhor expressar esses sentimentos. A verdade é que todas as músicas, exceptuando a primeira, tinham já algum som gravado ou alguma ideia mais estruturada. Foram todas desenvolvidas nesse período, pensadas todas para tornar o EP num produto ligado e “fechado em si”, se é que estas coisas são alguma vez fechadas. A única completamente feita lá foi a “Mirror”, que gravei o teclado num take, enviei a um grande amigo de Erasmus, o Matteo, que gravou o clarinete depois de termos feito jams umas quantas vezes com essa ideia.

De que forma tentaste passar esses sentimentos e o lado tão visual das flores para a música?

É uma boa pergunta, até porque quando fazemos música instrumental é mais difícil, por um lado, transmitir objectivamente essas coisas. Daí ter também investido tanto no lado visual, tanto em artwork como em vídeos. Por um lado, as flores fizeram-me pensar na ideia de beleza, que está mais expressa na “Mirror” e na “Narcissist, Pessimist”. Como nos vemos, a sós e com os outros. Mas acho que, no fim de contas, as flores influenciaram-me a pensar mais nas cores dos sons e apercebi-me, de maneira mais clara, como a fotografia e o cinema são relevantes na forma como eu penso a minha música. Espero que isto faça sentido, porque na minha cabeça foi um pouco como ocorreu a ligação.

Já falaste do Matteo. E os outros convidados, como surgiu a hipótese de os juntares ao teu projecto? Tiveste algum conceito em mente, visto que se trata de uma ideia tão pessoal para ti?

Tinha a base da “ID” feita para ser instrumental, mas achei que seria uma boa oportunidade para introduzir vozes no meu projecto. Falei com o J-K quando regressei a Lisboa. Nunca tínhamos falado, mas eu já era seguidor da Monster Jinx. Tinha ouvido a “Dragão” e lembro-me de achar a escrita dele especial. Quando falei do conceito do EP, expliquei que a última faixa seria como a luz do trabalho, no sentido que o mesmo está progressivamente em decadência emocionalmente. A “ID” é o meu lado optimista de ver a vida; ver que a ansiedade, a depressão e os sentimentos que vemos no nosso espelho não são tudo. Há mais além disso. Dei-lhe estas linhas e fiquei super satisfeito com o resultado do que ele escreveu. Acho que expressou muito bem pela sua visão o que eu via na faixa. A Carolina foi uma sugestão do Jorge numa altura em que eu andava a procurar uma cantora para cantar o refrão. Encaixou perfeitamente.

Reparei que gostas de misturar o lado digital com instrumentos reais. Conta-me qual foi o processo para a criação destes temas. Também há espaço para o sampling?

Acho que, como em tudo o que costumo fazer, pego numa ideia inicial e vou tentando imaginar quais são os instrumentos e arranjos que posso adicionar. Acho que costuma ser a partir dessa adição de camadas que acabo a entender a estética e a ambiência da faixa e, muitas vezes, é assim que sei que, quando já adicionei tudo o que preciso, passo para outro momento da música, no que toca à sua estrutura — isso nota-se na “You Don’t Know What It Is To Panic Over Nothing”. Quase tudo o que tenho feito é digital, e é a base de muitas das ideias. Vou sempre complementando isso com a guitarra, que é o meu instrumento de base, e onde tenho mais conhecimentos.

A “Narcissist” é o exemplo duma faixa que me surgiu completamente a partir do conceito e linha condutora do EP; já tinha gravado a guitarra, e tinha os samples da guitarra em reverse (que aparecem sempre nos diálogos do EP). Senti que era uma faixa onde precisava de explorar a história e ter um ambiente pesado na sua base. Sinto que encaixa no contexto em que aparece.

A “Mirror” foi mais fácil. Gravei num take aquele teclado, como já disse, juntei o clarinete e adicionei outra camada para dar mais espaço ao ambiente da coisa.

A segunda faixa é um bom exemplo de ideias que me surgem quando descubro um determinado plugin e exploro o que encaixa com aquele som (tendo dois usos muito diferentes na faixa); também da junção de vários timbres de origem diferente!

O sampling ainda não foi algo que tenha explorado muito, baseio-me sim no uso de alguns samples do próprio Ableton para criar baterias ou mesmo pads. Há um momento que uso como sample um piano em reverse na “You Don’t Know What It Is To Panic Over Nothing”, como exemplo. Será algo que trabalharei mais no futuro.

 


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