J Balvin & Bad Bunny // OASIS

[TEXTO] Miguel Alexandre 

Tal como Watch The Throne, em 2011, ou What a Time To Be Alive, lançado quatro anos depois, Oasis é o resultado de uma relação próxima entre dois dos nomes mais mediatizados do seu respectivo género. No entanto, ao contrário desses dois álbuns, a colaboração entre J Balvin e Bad Bunny não cai em pequenos gestos de extravagância, nem em subterfúgios de fácil comercialização. O objectivo aqui é simples: o Verão aproxima-se e com ele é necessário uma banda sonora que lhe faça as boas-vindas, que intrigue, que apaixone, que aqueça. Estes dois mestres da música latina da actualidade não só idealizaram tal visão como a trouxeram para o topo das tabelas musicais. Afinal, é impossível ignorar este “bicho” que é o reggaeton e na maneira como tomou conta das festas lisboetas, das saídas à noite, das conversas de café e de como por cá se organizam os cartazes para os festivais. Sendo ou não tratada como uma febre, é impossível abanarmos a nossa cabeça a negar tal e forte impacto – como também impossível é não abanar o pé ao som de cada música.

Para J Balvin e Bad Bunny fazer hits é trabalho fácil. Os dois lançaram álbuns em 2018 que ultrapassaram os milhões de reproduções no Spotify, receberam aclamação por parte da crítica (nacional e internacional) e inúmeras repetições nas estações de rádio em vários países. Ajudaram ainda outros artistas a carimbar grandes êxitos, como “Con Altura”, de Rosalía, “M.I.A”, com Drake, e “I Like It”, dueto dos dois com a participação de Cardi B. Em 2017, lançaram “Si Tu Novio Te Deja Sola” e uns meses depois, com uma série de outros companheiros, “Sensualidad”: apesar de serem singles pouco memoráveis, receberam atenção e cimentaram-nos como vozes dominantes da música actual. Seja uma fórmula matemática, um estudo de mercado ou um intrínseco conhecimento de música, estes dois rapazes estão a fazer algo, e estão a fazê-lo muito bem.

Tal como em Endless Summer de Fennesz, com que o autor pretendia criar uma banda sonora perfeita para o pôr-do-sol de um dia quente de Agosto, o objectivo em Oasis é fazer com que a festa continue até altas horas da noite. “Mojaita” é um bom começo: uma música ligeira, que nos fala de praia, biquínis, de Coronas e Medallas: “Ey, bienvenido’ al oásis”, canta Bad Bunny. A sensação de riqueza, como se estivéssemos hospedados no resort mais luxuoso da América Latina, com direito a vista para o mar, acesso VIP a festas privadas e uma cama com bordas em ouro e pernas de mármore. É um cenário exagerado, sim, mas Bad Bunny e J Balvin não se contentam com menos, e é este sentimento que se prolonga ao longo das oito músicas deste álbum: é um projecto que poderia ser facilmente definido como um EP, mas é esta mentalidade de querer o melhor que o distingue. “Cuidao Por Ahí” e “Que Pretendes” seguem a mesma premissa e estabelecem este ambiente descontraído, com ritmos bastante cálidos, que nos levam às festas de bairro de Bogotá ou de San Juan.

Apesar da aparência mais imediatista, há aqui sentimento e substância, que se estabelecem mais na última canção mencionada: “Intentas hacerlo todo para que yo vuelva/ Las cosas no son iguales, ¿para qué insistir?/ Evita molestias y tu tiempo no pierdas/ Conmigo no encuentras nada”. É fácil perceber que, no meio dos bailados, há danos para reparar. Este caminho foca-se com mais firmeza em “La Canción”, que não só é o momento mais cristalino do disco, como o centro do novelo emotivo partilhado por ambos. Aqui temos trompetes Mariachi, referências a Kanye West e a Kim Kardashian, e, acima de tudo, um coração partido que tenta ser escondido pelos sons estrepitosos das colunas, as garrafas deitadas ao chão e as luzes ofuscantes da festa.



Apesar do balanço entre géneros tradicionais latinos e um trap bastante robusto, é a personalidade dos dois que dá um tom mais estridente a estas músicas: uma imagem de fanfarrões, que falam sobre os clichés das estrelas rock dos anos 80 – sexo, droga e, desta vez, reggateon -, mas que se mantêm fiéis às suas raízes. “Un Peso” é sonicamente este tributo, uma canção que se inicia como se estivéssemos a ouvir Compay Segundo ou Beny Moré. É o resumo do apelo de Oasis, uma exploração por actividades hedonistas tropicais. É um assunto que ser considerado fatigante e desgastado, certo, mas os dois afastam-se disso por ser maioritariamente divertido e despreocupado.

A verdade é que estes ritmos que divertem e despreocupam são o que acabam por limitar este disco. Não há nenhuma música relativamente má ou que faça o álbum perder stamina; em vez disso, cada canção viaja pelo mesmo circuito emocional e rítmico, tendo sempre um nível de conforto ameno. Não sair da zona de conforto é sempre uma jogada segura, verdade, mas que torna Oasis tão universal. Se o compararmos a Vibras ou X 100 Pre – os respectivos últimos discos dos dois –, as músicas ouvem-se em uníssono e espelham quase sempre a mesma realidade, como se agora estivessem a reciclar ideias passadas.

Quer J Balvin e Bad Bunny não fizeram este trabalho com o objectivo de serem levados a sério — e não é preciso pensarmos demasiado sobre tal. Oasis é o equivalente a uma paixoneta de Verão: sabemos desde o início que não vai durar muito tempo, mas naquele preciso momento, ao som daquela específica música, tudo parecia bater certo – e nós acreditámos que sim. 


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