IVVVO: sobre a liberdade, a raiva, o amor e o amanhecer

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IVVVO pode, justamente, reclamar uma posição na dianteira da produção de música electrónica portuguesa. Embora a condição implicada no seu passaporte seja meramente acessória ou acidental no plano maior das coisas: Ivo Pacheco, nome próprio, é português, mas bem podia ser islandês, mexicano ou de outra galáxia. A sua música faz-se de uma crescente abstracção, de um desejo de implosão de fórmulas, de um constante desafio lançado às margens da música que se faz ainda a pensar em clubes e pistas de dança, mesmo que imaginárias ou íntimas.

A página Discogs dedicada ao output de IVVVO encontra-se muito bem recheada e já inclui algumas entradas para 2015, nomeadamente um EP dividido com Lake Haze da Golden Mist (editora a que muito em breve daremos por aqui especial atenção). Mark Leckey Made Me Hardcore e #1 (com Lake Haze) carregam ambos o notório carimbo da Crème Organization, aventureiro selo holandês cuja produção merece invariavelmente toda a nossa atenção. O que já nem sequer é uma validação especial para IVVVO que já viu o seu trabalho a merecer edição por marcas como a Public Information, Opal Tapes ou Terrain Ahead. Facto que confirma o óbvio: IVVVO é um produtor avançado, desafiante, de olhos firmemente focados no futuro, capaz de doses generosas de invenção de cada vez que assina novo trabalho. E a convite do ReB realizou uma mix e respondeu a uma curta série de perguntas que ajudam a localizá-lo no mapa presente.



Em que ponto te encontras agora da tua carreira? Que lançamentos tens previstos para os tempos mais próximos?

Estou em reciclagem, o que me inspirava ontem, não me inspira hoje. Em 2014 escrevi When I Feel You Wet, é uma peça de 13 minutos sobre a minha relação com o sexo feminino, é um single sided com edição na Hemlock/ORO em Julho, acompanhado de um filme realizado por mim e pela Masha Popova.

Há uma série de olhares focados sobre a modernidade electrónica nacional, com editoras como a AVNL ou a Golden Mist a serem citadas dentro e de fora de portas. Acreditas que existe alguma marca distinta de identidade na música que está a ser assinada agora por uma certa vanguarda de produtores portugueses?

Tento manter-me actual no que se vai passando em Portugal, começa a haver plataformas que suportam, a custo, o que é feito aí. Tenho assistido a discussões acesas online sobre esse assunto, a verdade é que o publico generalista é mesquinho e mal informado, as críticas são preguiçosas e invejosas. A Golden Mist, AVNL,OEJ, Soopa, LAMA, entre poucas mais são a maior relevância do que está a ser feito em Portugal.

Como dirias que evoluiu a tua música: a ideia de rave, de ecos da rave, uma ideia algo poética até, parece ter norteado algumas das tuas produções. Que conceitos persegues neste momento?

Nunca estive numa rave, a ligação que tenho com isso são vídeos que vou apanhando no YouTube; nunca foi sobre a musica, é sobre a liberdade, a raiva, o amor, o amanhecer. Essa é a minha fantasia. Essa liberdade perdeu-se, as sub-culturas as ligações humanas, não existem. Nos últimos anos escrevi discos sobre essa nostalgia que nunca foi minha.

Estás baseado em Londres, que impacto é que essa cidade tem tido na tua música?

É uma cidade de peso, jungle, grime, punk… Toda essa cultura tem impacto em mim, mas nunca senti uma motivação geográfica consciente na música que escrevo.

Queres dar-nos uma lista de quatro ou cinco produtores/discos que te tenham capturado a atenção recentemente?

Arca – Xen (2015); Dean Blunt – Black Metal (2014); Black Zone Myth Chant – Mane Thecel Phares (2015);  Jon Hassell – Dream Theory in Malaya (1981); Cotrim – Dança (Brevemente na OEJ).

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu