INTERA: “Existe espaço para tudo e só temos todos a ganhar com uma maior inclusão de pessoas e de projectos”

[TEXTO] Vasco Completo

Em Janeiro passado, a INTERA celebrou o seu primeiro aniversário com o lançamento de INTERA VOL.1. A primeira compilação do projecto fundado por Telma Correia e Caroline Lethô juntou oito faixas de oito artistas diferentes.

Sem impor limites à criação, nem mesmo qualquer linha orientadora, o colectivo mergulhou nas profundezas da música para a pista de dança, estabelecendo pontos de ligação com editoras como a No, She Doesn’t, naive ou a ZABRA.

Passando pelo house, acid, techno, breakbeat e até footwork, é possível encontrar uma direcção estilística coesa entre os produtores escolhidos. Tsuri, Kerox, Ashtok Leylund, ppueblo, TrigHer, Valody, zero_one e Caroline Lethô, co-fundadora do colectivo e uma das representantes portuguesas na última edição da Red Bull Music Academy, completam o notável elenco.

Com a intenção ainda de se expandir ao nível de trabalhos, artistas e suas nacionalidades, a INTERA reforça a importância da liberdade da expressão artística, a inclusão e o talento/qualidade musical – e a falta de vínculo deste conceito a “etiquetas de género, raça, religião e outras que tais”.

Num panorama profícuo para a música electrónica, tendo em conta a maior facilidade de produção, partilha e acesso a esta música, Telma considera ainda que esta se deve expandir, de modo a sair de nichos culturais e que integre uma maior visibilidade por parte de meios de comunicação, para uma consequente maior adesão a uma cultura que se quer viva e de boa saúde. Despojando, por fim, algumas “competições despropositadas”, retirando importância aos egos que o mundo das artes engloba, possivelmente.

No dia 16 de Fevereiro, o aniversário do colectivo e o lançamento da primeira compilação celebram-se no Passos Manuel, no Porto, com actuações de TrigHer, Caroline Lethô e ppueblo.



O que levou à criação da INTERA?

A INTERA surgiu de um desejo comum de criar um núcleo a operar de forma independente, que reunisse vários artistas numa óptima de inclusão, de colaboração e de comunidade. Ao mesmo tempo, que funcionasse também de forma multidisciplinar, através de várias actuações – desde o lançamento de música ou mixes/podcasts, passando pela realização de eventos ou de conversas, pela rádio, e pela colaboração com artistas de outras áreas como o design, multimédia ou instalação.

Como chegaram a estes oito artistas que constituem o colectivo e esta compilação?

Já seguíamos o trabalho da maioria destes há algum tempo. Outros com os quais tomámos conhecimento mais recentemente vieram a revelar-se boas surpresas e achámos que faria sentido juntar todos numa só plataforma, sendo uma boa oportunidade para colocar cá fora o trabalho destes. 
O colectivo é, na génese, gerido por mim e pela Carolina, mas o nosso objectivo é precisamente estabelecer pontos de contacto e de colaboração com, não só os artistas que nos são mais próximos, mas também com outros que estão a começar a experimentar e que ainda não encontraram uma plataforma para os motivar a dar alguns passos para a frente. 

Embora apresentem uma direcção bastante forte de música direccionada para o club, onde a pista de dança é central, conseguem apresentar uma compilação com diferentes propostas para esse âmbito. Onde é que estão os limites? Como decidem o que faz (ou não) sentido pertencer ao colectivo?

Quando lançámos o desafio a estes oito artistas não colocámos qualquer tipo de imposição. Para que cada um tivesse total liberdade de apresentar o que achasse melhor, e claro, para que tivéssemos um resultado final com alguma variedade, que era um objectivo nosso também.

Conhecendo de antemão o registo de cada artista, o que produzem e também o que tocam enquanto DJs (no caso de fazerem ambos), creio que isso nos permite criar um certo fio condutor ou narrativa que faça sentido num determinado lançamento ou até no alinhamento de uma noite. Ou seja, tendo algo coeso mas variado. 

Diria que é uma combinação de diversas variantes onde também entra o nosso gosto, a nossa visão e a dos próprios artistas e aquilo que queremos transmitir em cada um desses momentos. 

Apesar de vermos a Violet a ser cada vez mais referida internacionalmente e a Carolina na Red Bull Music Academy, por exemplo, o texto no Bandcamp refere (com razão) que estão a “operar numa indústria que carece de representação feminina”. Como têm sentido a evolução deste paradigma?

Felizmente isso tem vindo a mudar e existem cada vez mais mulheres a serem reconhecidas e a alcançar relevo nacional e internacional. Há também cada vez mais grupos, editoras, promotores, o que lhes queiramos chamar, a actuar localmente organizando as suas noites ou lançando música, o que vai criando fluxos diferentes de pessoas nos lugares, gerando novas dinâmicas e motivando outras a fazer o mesmo, o que pode ser muito benéfico e trazer mais diversidade.

Além das compilações, podcasts ou DJ sets, como tencionam operar enquanto colectivo?

Tencionamos continuar a colocar a música cá fora, eventualmente estendendo a artistas emergentes internacionais também, e continuar a realizar pequenos eventos em várias espaços de Lisboa e Porto. Existem outras ideias mas ainda é um pouco cedo para adiantar. 

Como vêem o panorama da produção electrónica em Portugal?

Por um lado estamos a viver um período muito bom em que existem muitos espaços a abrir, mais oportunidades a aparecer e mais pessoas a fazer coisas. É também cada vez mais fácil aceder-se e partilhar os trabalhos de todos. Por outro, há ainda bastante trabalho pela frente. Quando falamos deste universo da produção electrónica, há ainda que continuar a trabalhar para que a música chegue a mais públicos alargados e não se circunscreva apenas a pequenos nichos de pessoas – que são mais próximas dos artistas ou dos locais onde todos estão mais presentes. Aí os meios de comunicação e as redes sociais também devem desempenhar um papel importante. Também para que os públicos reconheçam todo o trabalho que está por detrás disto e que tomem consciência da necessidade de apoiar os artistas, quer no seu trabalho, na música que lançam, ou nos eventos em que participam ou que organizam. 

Achamos que é importante cada vez mais haver uma maior cooperação e entreajuda entre as pessoas deste meio, sem que haja interferências de egos, de competições despropositadas e de outros aspectos que nada trazem de benéfico para o meio. Existe espaço e lugar para tudo e só temos todos a ganhar com uma maior inclusão de pessoas e de projectos.


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